Muro 2.0 #9 - O que lhes passa pela cabeça?
Na semana que passou dei comigo assombrado por uma crónica da jornalista Isabel Valdés, do El País, na qual contava que um artigo que escreveu em 2018 sobre crianças que se prostituíam continua a receber clicks diários, ao contrário de outros seus trabalhos. Como qualquer outro site, o El País consegue perceber como é que os leitores lá chegaram. No caso deste texto específico, chegam com este tipo de pesquisa, incluindo tráfego de Portugal:

Pergunta a jornalista:
Cada dia que abro essa ferramenta de medição coloco-me as mesmas perguntas:
Quem são [estes homens]? Terão teletrabalho um par de dias por semana, levantam-se para ir à escola? Aos domingos põem mais pratos na mesa porque os vossos netos vão almoçar, são viúvos, solteiros? Vivem numa casa com jardim e piscina, procuram descontos no talho? Tratam de levar os vossos filhos ou filhas ao colo ou nunca foram pais ou nunca se ocuparam de nada?
Como estão no mundo? Em quem votam: à esquerda ou à direita ou não votam ou fazem-no em branco ou nulo? Odeiam as mulheres ou acreditam que sim, mas não, ou que não, mas sim? Sentem poder procurando e acabando por encontrar o que procuram que claramente não é aqui?
E a vossa vida como é? Vão às compras e dão o lugar na fila a alguém que só tem um par de coisas, estacionam no lugar apertado para não invadir o do lado, têm antecedentes criminais ou sentam-se com as pernas abertas nos transportes públicos? Cozinham, passam a ferro, põem a dupla centrifugação na máquina de lavar roupa para que demore menos a secar no inverno ou têm migalhas nos recantos do sofá e sujidade nos ralos?
De que gostam? Que música ouvem? Vão ao cinema, a festivais, têm assinatura dos museus públicos? Que mais procuram na Internet? Veem tutoriais para cuidar dos tomateiros, arranjar uma tomada, a receita de uma tarte fria ou como tirar uma mossa do carro sem ir à oficina?
[…]
Em que estão a pensar enquanto teclam “putas” e “jovens”? Que querem? Qual é o fundo do que estão à procura? Porquê? Porquê?

Em foco
Uma semana depois do anúncio de que os Estados Unidos da América cancelariam o envio de 4.000 soldados para a Polónia, o Presidente Donald Trump disse que afinal seriam mobilizados 5.000, associando este anúncio à sua boa relação com o presidente polaco. Já este mês, Trump disse que seriam retirados 5.000 militares da Alemanha, como retaliação pelas críticas de Berlim ao ataque sobre o Irão. Se a primeira administração Trump já tinha demonstrado o quanto as relações Atlânticas poderiam ser pressionadas, a nova Casa Branca está a reforçar esse processo, pelo meio do caos de declarações e contra-declarações, do diz e desdizer e voltar a dizer constante.
Desde o começo da invasão da Ucrânia pela Rússia que penso nas eventuais consequências de longo prazo de uma remilitarização do continente. Em particular, porque tenho um filho que vai estar sujeito a qualquer serviço militar obrigatório que surja num futuro não muito distante. Nos últimos tempos, a Alemanha levantou o travão da dívida para acelerar - e muito - o investimento em defesa, a França decidiu aumentar a produção nuclear e o último tratado nuclear entre EUA e Rússia expirou em fevereiro.
Entretanto, na União Europeia, Países Baixos e Alemanha aguardam por entregas de mísseis Tomahawk dos EUA, que neste momento, ao que tudo indica, não têm disponíveis porque depauperaram os seus stocks com o conflito no Irão.
Atualmente, segundo o Financial Times, “não existem na Europa sistemas terrestres de longa distância disponíveis no imediato”. O Reino Unido possui Tomahawks lançados por submarinos, com um alcance de 1.600 quilómetros, enquanto a França tem mísseis de cruzeiro com alcance de 1.000 quilómetros.
Para ajudar a perceber o panorama atual e perspetivar o futuro, falei esta semana com o especialista do European Council on Foreign Relations Rafael Loss sobre os desafios dos países europeus, quer a leste quer a oeste.
“Há duas ameaças que se conjugam. Uma é a vontade norte-americana de providenciar a coluna dorsal da defesa europeia e isso está claramente em declínio com Donald Trump na Casa Branca. A outra é a capacidade norte-americana de agir como a coluna dorsal da defesa europeia e isso tem a ver com a necessidade estratégica de reequilibrar a postura de força dos EUA com mais atenção a ser dada ao hemisfério ocidental, à fronteira e ao Pacífico. Há, simplesmente, menos capacidade de providenciar dissuasão na Europa. Isto não é uma novidade, tem sido a mensagem de Washington nos últimos 15 anos”, afirmou Loss, lembrando o aviso do antigo secretário da Defesa Robert Gates em 2011.
Na altura, Gates - então de saída do Governo - disse que “a crua realidade é que haverá cada vez menos apetite e paciência no Congresso dos EUA - e na política americana de forma lata - para gastar fundos cada vez mais preciosos em nações que estão aparentemente indisponíveis para dedicar os recursos necessários ou fazer as mudanças necessárias para ser parceiros sérios e capazes na sua própria defesa”.
Rafael Loss sublinhou que o objetivo para os estados-membros da União Europeia deveria ser “ter forças que lhes permitam defender o seu próprio continente sem ou com menos apoio dos EUA”, num pensamento que englobe 360 graus. As ameaças não vêm apenas do leste.
Perguntei a Loss diretamente sobre se antecipa uma guerra alargada na Europa no curto ou médio prazo e a resposta foi cautelosa, como seria de esperar: “Há inúmeros fatores e ninguém pode saber o que vai na cabeça de Vladimir Putin”.
Lembrando que a Rússia tem o que, neste momento, será o segundo mais experiente exército da Europa, a seguir à Ucrânia, o membro do ECFR recordou, ainda, que há indicadores dos serviços de informação europeus e norte-americanos que sugerem que a Rússia está, pelo menos, a preparar-se para uma eventual nova guerra na Europa “relativamente em breve”. Não falamos de meses, mas de poucos anos.
“A produção de drones e de mísseis está a exceder o que estão a usar contra a Ucrânia o que, presumivelmente, significa que estão a armazenar. Isso coloca-os numa posição mais forte de poder pressionar militarmente os membros da NATO”.
Acima de tudo, Rafael Loss frisou que Moscovo pode olhar para a fragmentação política europeia como uma oportunidade. Segundo Loss, apesar do rearmamento em curso, os líderes russos reconheceram há muito que não precisam - nem conseguiriam, tendo em conta as limitações militares e económicas - de derrotar a totalidade do bloco europeu ou da NATO. “Onde poderão ganhar vantagem é num caso em que os europeus não estejam unidos”.
E num cenário em que há um acordo de paz na Ucrânia, poderão as capitais europeias reverter o processo do novo rearmamento? “A Rússia vai esforçar-se muito para retratar qualquer acordo como um momento de ‘paz para os nossos dias’, [no sentido de] ‘a Ucrânia já acabou, não se preocupem com o rearmamento’. As democracias tendem a ser vulneráveis a este tipo de operação de influência, que foi algo muito praticado pela União Soviética durante a Guerra Fria e também pela Rússia de Putin”.
Longe de uma “economia de guerra”, os estados-membros deveriam estabelecer um patamar de atividade industrial militar que seja sustentável, sem ser excessiva em peso orçamental.
Facto da semana

Outras coisas do mundo
Mais de 150 pessoas morreram com Ébola no mais recente surto na República Democrática do Congo (RDC), que registou mais de 500 infetados e se propagou ao longo de semanas ou meses antes de ser devidamente sinalizado, o que causou alarme porque a RDC seria o país mais equipado para gerir casos de Ébola. A Organização Mundial de Saúde alertou para a rapidez de propagação, incluindo em zonas urbanas e de difícil acesso devido aos conflitos regionais. Segundo o New York Times, este surto específico foi agravado pelos cortes da administração Trump sobre a U.S. AID, que prestava apoio em vários países a nível internacional: “As autoridades norte-americanas só tiveram conhecimento do surto na quinta-feira, nove dias depois da Organização Mundial de Saúde e quase um mês depois da primeira morte. O atraso na confirmação do surto ocorreu em parte porque as amostras foram enviadas para o laboratório em Kinshasa a uma temperatura inadequada. Antes, esta tarefa teria sido gerida pela USAID”.
Com o fim, esta semana, do programa do humorista Stephen Colbert encerra-se uma era televisiva, como escreveram vários meios norte-americanos. A versão oficial, da empresa CBS, é que o programa - o mais visto na sua faixa horária do ‘late night’ - encerra por motivos financeiros. A versão mais corrente é que o programa termina para agradar ao presidente Donald Trump. O monólogo final está aqui.
A Nobel da Literatura de 2018, a polaca Olga Tokarczuk, lançou uma tempestade no meio literária esta semana ao admitir que usa uma ferramenta de inteligência artificial no trabalho criativo. Apesar de considerar que nunca um chatbot substituiria um escritor, admitiu perguntar como é que poderia desenvolver uma ideia. Tokarczuk veio, depois, tentar acalmar os ânimos, dizendo que nunca usou nem vai usar ferramentas de IA nos seus livros. No entanto, reconheceu que as usa para “documentação e verificação de factos”.
A propósito, uma investigação da organização britânica Demos mostrou que mais de um terço das respostas dadas por chatbots (ChatGPT, Gemini, Replika e Grok) antes das recentes eleições na Escócia continham erros, o que vem acrescentar aos vários estudos sobre os riscos de confiar nestas ferramentas para obter informação fiável.

António Areal
Alucinações
Ao abrir uma porta e sentir o calor lá fora ocorreu-me, como tantas outras vezes, o pensamento “está um calor do caralho”. E ao pensar nessas cinco palavras juntas lembro-me imediata e infalivelmente da crónica do antigo jornalista Cristiano Pereira sobre a vitória do FC Porto em Sevilha, em 2003, quando bateu o Celtic de Glasgow e conquistou a Taça UEFA. Este momento não mereceria qualquer reprodução, a não ser pelo que veio a seguir.
Quando quero reler o texto do Cristiano nunca o encontro à primeira. Meto termos de busca aproximados e demoro a dar com ele. Desta vez, a IA do Google tentou dar uma ajuda. E apresentou-me esta explicação para a frase que eu procurava. Os termos de pesquisa foram perto dos seguintes: Cristiano Pereira “calor do caralho” Sevilha FC Porto taça. A IA da Google apresentou-me isto como resposta.

Ao que eu perguntei, que idade tinha Cristiano Ronaldo aquando deste jogo?

A ligação que vês ali como fonte não tem nada a ver com Pepe nem com futebol, mas sim com duas páginas mais ou menos aleatórias que fazem referência ao calor do verão.
Como podes imaginar, fico preocupado quando vejo que a Google quer acabar com os resultados do seu motor de pesquisa e passar a dar apenas respostas como uma interação com IA.
Como sempre, estou aberto a sugestões e comentários. Se gostaste do que leste, partilha.