Muro 2.0 #8 - Mini-muro

Da semana que passou recomendo que largues tudo o que estás a fazer e vás ler as histórias do The Intercept sobre como os filhos do antigo presidente do Brasil Jair Bolsonaro (que está preso) tentaram financiamento (e vários milhões foram transferidos) junto do banqueiro Daniel Vorcaro (também preso) para um filme sobre o pai, sendo parte fundamental da história que Flávio Bolsonaro é um potencial candidato presidencial contra a recandidatura de Lula da Silva e está agora a braços com uma daquelas polémicas à moda antiga.
O filme - com orçamento para ser o mais caro de sempre no Brasil - serviria como embalo eleitoral, e agora veio a revelar-se como um potencial embaraço eleitoral.
Se leram este parágrafo, largaram tudo e se sentem defraudados (“só mais uma polémica de politiquice, não importa”) então atentem a excertos do argumento:
BOLSONARO (V.O.) Esses médicos sabem o que diabos estão fazendo? Meu Deus!
DR. TAVARES Tesoura, por favor...
DR. ALVARO Enfermeira...
UMA ENFERMEIRA FRIA (Não Renata) desperta de seus pensamentos, entrega o primeiro instrumento —
BOLSONARO (V.O.) Ele disse tesouras? Eu já não fui cortado o suficiente? E o que eles tiraram? Eles vão colocar de volta? E se essas pessoas forem todas esquerdistas? Adoradores do Lula? Aquela enfermeira tem um olhar frio...
Ela olha fixamente para ele. Então, subimos em direção às LUZES FORTES
Ou, por exemplo, esta frase da personagem que representa o autor da facada a Bolsonaro:
AURÉLIO: Eu estive até com os Marxistas, mas eles usam drogas demais. O F.L.P. me recrutou de volta, eu quebrei cabeças para eles. Se algo precisa ser feito, Aurélio Barba cuida disso. Pelo povo! Pela revolução!
Quando uma pessoa começa a ler, fica difícil parar, peço desde já desculpa:
DOLORES: Uma febre está chegando.
Ela tira um pequeno saco plástico com pílulas — não fabricadas comercialmente, rústicas, como se tivessem sido feitas em sua cozinha.
DOLORES (CONT.): Estas vão te proteger.
Ela lhe entrega um copo de água da mesa.
MICHELLE: Não, Jair...
Ele abre um sorriso, despreocupado, levanta o copo para todos e engole duas pílulas. Ele se vira e vê que Dolores se foi. Ele olha ao redor, assim como os outros, mas ela recuou por algum beco escuro.
BOLSONARO: Para onde ela foi?!
EDUARDO: Sumiu. Como um fantasma!
Tudo o que vi do argumento é extraordinário. Há anos, alguém dizia que a política brasileira não é para principiantes. É um facto, mas também é um facto de que é uma toca de coelho sem fundo para pérolas impagáveis.

Por estes dias, ainda na outra margem do Atlântico, nasceu a palavra “Hondurasgate”, numa referência à revelação de supostos áudios do antigo presidente daquele país José Orlando Hernandez (que foi condenado a 45 anos de cadeia nos EUA por tráfico de droga e acabou indultado por Trump) como parte de uma conspiração que envolve EUA, Israel e o presidente argentino, Javier Milei, para desestabilizar os governos de esquerda na América Latina, desde o México ao Brasil passando pela Colômbia.
O facto de não haver confirmação independente da veracidade dos áudios está a gerar alguma desconfiança, ao mesmo tempo que essas reticências alimentam desconfiança adicional junto de quem quer ver a história denunciada e noticiada por todo o lado. Como escreve um analista regional:
De certa forma, isto faz-me lembrar a onda de alegações em torno das redes de financiamento regional de Hugo Chávez nas décadas de 2000 e 2010. Algumas destas alegações foram comprovadas; muitas outras foram exageradas ou inventadas, transformando as suas ações reais em alguns países numa omnipresente conspiração esquerdista. Não posso provar, mas tenho a forte impressão de que algo semelhante se passa aqui com José Orlando Hernandez.
Citação para lembrar
"Não sou capaz de escrever, mas faço bonecos” - João Abel Manta
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