Muro 2.0 #10
Com um atraso de uma semana e um dia, volto ao Muro para uma renovada chamada de atenção para os Estados Unidos, onde a pressão da administração Trump tem contribuído para um redesenhar do panorama mediático.

No caso, é importante prestar atenção ao que se passa na CBS, uma das principais estações televisivas do país, e em particular a sua divisão de notícias, para onde foi nomeada pelo presidente executivo da empresa, David Ellison (filho de Larry Ellison, da Oracle, um dos homens mais ricos do mundo), como diretora uma “guerreira cultural” chamada Bari Weiss, sem experiência prévia em televisão, mas com um longo histórico de se envolver naquilo que são as batalhas das redes sociais da era contemporânea, através de um meio que fundou chamado The Free Press.
A antiga provedora do New York Times Margaret Sullivan classificou a nomeação como “estranha e preocupante”.
Desde então, a redação da CBS tem perdido jornalistas a grande ritmo, sob pretexto de “modernização”, como é costume em todo o lado.
Pelo meio, é importante reter que os Ellisons são agora coproprietários das operações do TikTok nos EUA e que aguardam aval do regulador para ir por diante com a compra da Warner Bros. Discovery, proprietária da CNN, onde circula o medo de partilhar destinos com a CBS. Foi a dona da CBS, a Paramount, que pôs fim ao programa de Stephen Colbert.
Se formos ainda mais ao centro desta tempestade encontramos o programa “60 Minutos”, que é retransmitido em Portugal pela SIC há muitos anos. Alguns dados sobre este magazine noticioso: é o programa de notícias mais visto nos EUA há 52 temporadas, líder de audiências na sua faixa horária no serão de domingo e com uma subida de 9% de público entre este ano e o passado.
Desde que foi nomeada, Weiss foi acusada de censura por ter retirado do alinhamento uma reportagem no que pareceu ser, de forma clara, um favor à Casa Branca. Despediu a chefia do programa e contratou um novo produtor executivo (também sem experiência televisiva) a quem estará a pagar mais do dobro da experiente editora que despediu.
A paz podre - para não dizer mais - permanece há meses. O caldo entornou-se em definitivo com uma reunião entre o novo produtor executivo e a equipa do programa na semana passada que incluiu esta sequência extraordinária, na transcrição do New York Times (que foi um de vários meios a ter acesso à gravação do encontro):
“A televisão linear é um cubo de gelo que está a derreter, OK?”, disse o novo produtor executivo, Nick Bilton, acrescentando que o programa tinha de se adaptar. “A Bari adora esta instituição. Ela adora o ‘60 Minutos’.”
O jornalista da equipa Scott Pelley interrompeu-o aí.
“Está está a assassinar o ‘60 Minutos’”, disse. “Ela não adora este sítio. Ela foi trazida para cá para o matar, e tem feito exatamente isso”.
Pelley acrescentou: “Ela não tem habilitações para o cargo; tu tens parcas habilitações para este cargo. As mudanças que ela fez no ‘Jornal da Noite’ foram catastróficas, por que é que poderíamos esperar que isto vai ser melhor?”
Esta troca custou a Pelley o emprego. Os relatos de quem sai são consensuais: está a haver tentativas de martelar uma tendência política nas reportagens.
Por enquanto, os três “sobreviventes” (Lesley Stahl, Bill Whitaker e Jon Wertheim) vão permanecer na equipa.
Ellison já antes veio dizer que apoiava Weiss, mas histórias recentes surgiram a apontar que se calhar não é bem assim e que o caos está a ser excessivo.
“Pode ser que isto seja mesmo sobre a destruição de uma instituição só pelo gozo da coisa”, diz um editor sénior.
Outras coisas do mundo
A extrema-mais-extrema-direita europeia (e não só) reuniu-se na Figueira da Foz na semana passada. Canais televisivos portugueses fizeram diretos de lá, como se fosse só mais um encontro partidário. O relato do Expresso vale a pena ler.
O arquiteto Eyal Weizman tem um texto na London Review of Books em que ainda não parei de pensar, desde que o li: “Prisioneiros palestinianos com os olhos vendados foram levados de volta para os seus antigos bairros, agora um mar de escombros. ‘Quando lhes tirámos o pano dos olhos’, relatou Zarbiv, ‘estavam completamente desorientados, não percebiam onde estavam’”.
Os EUA classificaram duas das principais organizações criminosas do Brasil como terroristas (o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho). Especialistas ouvidos pela Associated Press dizem que é uma tentativa de Washington para influenciar as eleições presidenciais vindouras.
O bispo de Quelimane, em Moçambique, Osório Citora Afonso, foi morto a tiro, por autores que ainda estão a monte.
Os colombianos votam na segunda volta das eleições presidenciais no dia 21 de junho, depois de a primeira volta ter sido liderada pelo ultradireitista Abelardo de la Espriella. Promete ser como Bukele e até é parecido com ele. Por seu lado, hoje, o Peru vota entre um regresso do apelido Fujimori à presidência ou pela esquerda de Roberto Sánchez.

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