Muro #11 - O mundo é lindo de se ver

Na semana passada, perdemos a autora iraniana Marjane Satrapi e ontem ficámos sem o artista mais bem vestido do mundo, o britânico David Hockney. Satrapi “morreu de tristeza”, aos 56 anos. “Claro que sim. Os iranianos muitas vezes o fazem”, considerou a escritora Dina Nayeri no Guardian.
Por seu lado, Hockney, que morreu aos 88 anos em Londres, é o autor de uma obra muito extensa que “pressupõe uma expectativa de prazer” para o espectador, como escreveu o historiador Simon Schama.
Esta frase de Hockney à New Yorker é preciosa: “Penso que o mundo é lindo de se ver, mas a maioria das pessoas não o veem. O mundo é lindo, e também é louco. As pessoas são loucas. E não penso que isso vá mudar muito. Não consigo ver que mude”.

Título da semana

Coisas do mundo
Pelo menos 19 pessoas foram detidas - incluindo um menor - na Irlanda do Norte em duas noites de motins anti-imigração, desencadeados depois do esfaqueamento de um homem por um cidadão sudanês e alimentados por figuras de proa da extrema-direita local e mundial. Um bom resumo do sucedido pôde encontrar-se por estes dias pela mão do diretor do Correio da Manhã (sim, sim, esse), Carlos Rodrigues: Ao serviço de um projeto político pelo menos tolerado, para não extrapolar, pelos donos americanos das plataformas e por Putin, eis que um país europeu se encontra a ferro e fogo, curiosamente numa altura em que o líder do Reino Unido, Keir Starmer, estuda fortes restrições às redes sociais. Como diria um saudoso jornalista português da minha juventude, “e esta, hein?”.
A este propósito, o comunicado emitido pela família da vítima é de uma lucidez e tranquilidade pouco habitual em tempos frenéticos. Um excerto: “Ficámos a sentir-nos enojados pelas cenas que se desenrolaram ontem pela Irlanda do Norte na sequência do que aconteceu. Queremos deixar absolutamente claro que fazer isto em resposta não é algo apoiado pela nossa família, e o protesto pacífico é sempre o único caminho em frente. Temos muitos migrantes que dão um contributo profundamente valioso para o nosso país, incluindo de dentro do nosso sistema de saúde e do setor hoteleiro, e dependemos deles para que o nosso país funcione. Não queremos que esta terrível tragédia seja usada para dividir as pessoas ou alimentar hostilidade - não façam isto em nome do nosso ente querido, pois não partilhamos das mesmas crenças”.
Bob Dylan tocou esta semana o tema “I Shall Be Released” pela primeira vez em 18 anos.
Cada semana que passa, cada exemplo mais extraordinário de como a tecnologia está a ser usada para razões inimaginavelmente más. Um meio norte-americano, a publicação Semafor, noticiou que a administração de um equipa espanhola de futebol masculino que estava para descer de divisão no final da temporada, colocou uma aposta multimilionária na Kalshi de que iria perder o último jogo e, como tal, descer à segunda. A ideia seria ganhar algum fôlego financeiro caso a descida se confirmasse. Após a publicação da história, com muita gente a apontar o dedo a uma equipa específica, o Osasuna veio confirmar alguns detalhes do negócio, mas disse que se tratava apenas de um contrato de seguros normal, rejeitando que se tivesse tratado de uma aposta.
Para não esquecer o tema da ‘slopification’ de tudo, esta história sobre chatbots é muito interessante.