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20 de Junho de 2026

Muro 2.0 #12 - Uma carruagem do metro às 07:00

Esta semana, perante novas notícias sobre políticas migratórias na Europa, tive o privilégio de poder falar com o diretor científico do Observatório das Migrações, Pedro Góis, a quem pedi que me ajudasse a entender em que ponto nos encontramos perante este tema, que define - ou tentam que defina - muita da nossa compreensão dos desafios atuais.

P: Que leitura faz do lugar em que nos encontramos, na sociedade portuguesa, face ao Outro que é o imigrante?

R: Eu diria que estamos num momento de alguma ambivalência. Nestes últimos dois, três anos, tivemos discursos mediáticos contraditórios e ambos poderosos. Um discurso mais à direita contra a imigração, porque sim, sem uma justificação racional, diria eu, contra porque os outros países também são contra e nós mimetizamos o que vem de outros países dos mesmos setores ideológicos.

E, depois, uma parte da sociedade portuguesa que, muito influenciada por um discurso mais economicista sobre o lugar do migrante, já percebeu que sem migração a nossa economia terá grandes dificuldades no futuro, dada a nossa demografia. E, portanto, há esta ambivalência: um olhar muito tecnocrático sobre a migração e um olhar muito ideológico e extremado sobre a migração.

A população normal vive esta ambivalência. Eu acho que, por um lado, lidando com migrantes todos os dias, como todos nós lidamos, percebemos a sua importância na nossa sociedade, na nossa economia, no nosso dia-a-dia, mas ao mesmo tempo há uma tendência, sempre que alguma coisa negativa acontece, para culpar o imigrante, eu acho que muito influenciado por esses discursos de extrema-direita.

Portanto, essa ambivalência está ainda muito presente. Eu, como sou um otimista, acho que se interiorizarmos a ideia de que eles nos são necessários, com o tempo eles vão deixar de ser estranhos, e, portanto, vai-se entranhar em nós a capacidade de olhar para o Outro como fazendo parte da nossa sociedade.

De onde é que vem a minha esperança? Um pouco do passado. Quando os ucranianos chegaram a Portugal também eram muito estranhos. E, 20 anos depois de terem chegado os primeiros, nós consideramo-los parte da nossa sociedade. Os brasileiros já há 20 anos eram capa da Time - ou as brasileiras no caso - também por um olhar muito estranho sobre esta população que vinha chegando. E hoje continua a haver discriminação, continua a haver xenofobia, continua a haver racismo, mas já fazem parte da sociedade, tanto os ucranianos como os brasileiros.

Temos uma comunidade muito grande de cabo-verdiana com a qual também temos uma ambivalência grande: por um lado temos vários dos nossos heróis nacionais atuais, por exemplo no campo da cultura, com ascendência cabo-verdiana, veja-se o Dino d’Santiago e tantos outros, mas ao mesmo tempo há um racismo pelo tom de pele.

Eu sou um otimista, acho que vai acontecer essa interiorização do Outro, porque eu vejo-a a acontecer em muitos locais da nossa vida, seja no desporto, seja na cultura, seja na maior parte das escolas.

Portanto, creio que o resto da sociedade seguirá, quanto mais não seja por necessidade, por pragmatismo, esta escolha de encarar o Outro como fazendo parte da nossa sociedade.

O que nós ainda não percebemos é que isso vai mudar a nossa sociedade, porque deixaremos de ser aquilo que pensávamos que éramos, não exatamente o que fomos, mas o que pensávamos que éramos.

E isso vai trazer alguns dramas no nosso crescimento, porque até parte da nossa história e da forma como a relatamos tem de ser reescrita à luz do que sabemos hoje. E, portanto, há aqui uma memória coletiva que se vai alterar. E já estamos a fazê-lo em pequenas coisas, mas o caminho é um caminho profundo.

Vamos tornar-nos uma sociedade muito mais diversa. E, do meu ponto de vista, melhor. Porque essa diversidade vai-nos trazer algumas qualidades que nos fazem falta. E vamos conseguir, enquanto coletivo, de facto ser mais ricos.

Estamos num momento do Campeonato do Mundo de Futebol, e se olharmos para a nossa seleção já há nela muita história da migração. Seja de filhos de portugueses que nasceram noutros países e escolheram jogar por Portugal, seja de filhos de pais estrangeiros que tendo ou não nascido em Portugal escolheram também ser portugueses. E, na verdade, a seleção é una. Nós não nos dividimos entre o nós e o eles. Dentro da seleção somos todos nós. Representam-nos de alguma forma, sem querer aqui exacerbar o que é uma seleção, mas olhando para ela metonimicamente, de facto está a acontecer qualquer coisa de interessante e já vem a acontecer há algum tempo. Não é repentino, é progressivo.

P: É engraçado que cá nunca tenhamos visto isso posto em causa, pelo menos não de forma muito visível, ao contrário de outros países próximos, como a França.

R: E cá também chegarão, atenção. Estou à espera que cheguem a qualquer momento, porque, na falta de outros argumentos, essa carta vai ser também mimetizada a partir do exterior. É irracional, é errado, mas, na verdade, vejo quem não vá olhar a meios para separar, porque a separação é uma parte da construção da ideologia política.

Este construir o nós para se opor ao nós não faz sentido, portanto temos de ter um Outro. E esse Outro tem de ser construído. E têm sido os migrantes, mas podiam ser os pobres ou os ricos. E, portanto, há aqui diferentes possibilidades. Para já, a escolha tem sido esta e tem dado ganhos. E, portanto, obviamente que não concordo com ela e que tento convencer os meus conterrâneos que estão a seguir a mensagem errada. Mas é difícil às vezes contrariar argumentos que mediaticamente estão muito bem construídos e que têm um grande poder de persuasão.

P: Que papel é que atribui à comunicação social no meio da leitura que me acabou de fazer?

R: A comunicação social tem hoje menos preponderância do que já teve no passado devido às redes sociais. Mas têm ainda algo que as redes sociais não têm, uma credibilidade intrínseca. Nós vemos a capa de um jornal e não duvidamos (noutros duvidamos e, portanto, também os temos que segmentar).

E têm uma linha de ética, a ética jornalística, que, em princípio, é o que separa os bons dos maus, obriga a comprovar as fontes. E comprovando as fontes e comprovando os conteúdos, então o que passa na comunicação social retrata a realidade. Como sabemos, não há uma ética das redes sociais, ao contrário, até acho que por vezes há uma ética negativa à procura do like, e portanto é um outro caminho.

Eu acho que a comunicação social continua a ter essa importância muito grande que é a da credibilidade. Onde é que, por vezes cede? Em coisas simples. Uma reportagem sobre migrantes que mostra, por ser sobre migrantes, o Martim Moniz e este lado exótico da migração, não está a ajudar nada a retratar a migração. Um relato sempre pelo tom negativo e uma escolha de não fazer notícia do positivo não está a ajudar a questão da imigração. E há muitas vezes essa cedência que depois em conjunto e o somatório de todos estes momentos acaba por não contribuir para esta visão real do que é a imigração.

A maioria dos migrantes são completamente invisíveis na nossa sociedade. E, portanto, é difícil retratá-los. É tirar uma fotografia a uma carruagem do Metro de Lisboa às sete da manhã e aquilo é a história da imigração. Mais jovens, menos jovens, mais escuros, mais claros, a caminho do trabalho. Mas essa imagem não é uma imagem que muitas vezes seja trazida como retrato.

Ela é muitas vezes exoticizada. Isso não se pode fazer. Depois, o outro lado que eu considero que os media também têm de fazer é devolver a verdade à verdade. Ou seja, quando há um espaço demasiado amplo, coberto pelas redes sociais, e esse espaço se torna a notícia real, os Polígrafos desta vida têm de atuar e chamar a atenção de que aquilo é errado, porque é a única forma que temos de chegar a muita gente sem usar as redes sociais que não dominamos da mesma forma.

E aí temos feito algumas coisas positivas e eu creio que há alguns bons exemplos. Não tenho a certeza se estamos a chegar a todos os segmentos da população que devíamos porque se calhar os jovens não veem televisão, se calhar os mais velhos não veem aqueles canais àquelas horas.

Portanto, temos que continuar a fazer esse caminho e trazer esse debate para outros espaços, para a escola, para as igrejas. Eu acho que a igreja é muito importante aqui porque chega a um público que é muito difícil de atingir, mas que a partir do púlpito é possível passar esta mensagem. Ao desporto, porque na verdade se os nossos atletas, nas conferências de imprensa, conseguirem usar algumas palavras que favoreçam este olhar real, isso vai chegar a muito mais gente do que aquilo que conseguiremos fazer por outros meios.

P: Como podemos olhar para o futuro desta questão quando vemos um endurecer de medidas em vários países europeus, incluindo em países com governos de esquerda, dúvidas em torno da atuação de uma agência como a Frontex, e ideias que passam pela criação de campos de acolhimento em países de fronteira?

R: A primeira ideia é que, ao contrário do que se possa pensar, eu acho que este passo da europeização das políticas migratórias, designadamente, porque é basicamente disso que estamos a falar, da securitização das fronteiras externas, é um passo interessante.

É um passo interessante porque a prazo pode homogeneizar práticas desiguais que existiam na União Europeia. Começamos pelo mais fácil, e o mais fácil é a segurança. Mas isto pode ser interessante a prazo. No momento atual, nós estamos focados nesta ideia de que a fronteira serve para deixar pessoas do lado de fora. Mas, na verdade, é isso que é uma fronteira. Senão nós não teríamos fronteiras também com estes outros espaços fora da União Europeia.

Qual é aqui a minha ambição? É que este primeiro passo, que é um passo de um tema muito difícil, porque até há pouco tempo a União Europeia, a Comissão Europeia, o Parlamento Europeu, não discutiam migrações porque era um tema tóxico. O facto de o termos conseguido fazer pela primeira vez é um passo interessante. Até tenho usado esta metáfora: é uma espécie da criação do euro. Só que ainda não é o euro, ainda é o ecu, ainda é aquele momento anterior do euro, mas é um passo. Claro que eu concordo que as fronteiras têm de existir. Porquê? Porque nós não temos capacidade nos nossos estados de acolher todos os que queiram vir. Portanto, tem de haver uma fronteira qualquer. Essa fronteira era económica, os que tinham recursos conseguiam entrar, os que não tinham recursos não conseguiam entrar.

Nas migrações nós dizemos que os mais pobres nunca migram, porque nem sequer têm dinheiro para essa viagem. Agora, nós temos de encontrar esse espaço para a migração legal.

Por que é que eu tenho essa esperança? Porque a Europa precisa de migrantes. Portanto, se nós fechamos a porta, se nós dizemos ninguém entra, isto significa que vamos necessitar no futuro de abrir um outro corredor qualquer de entrada. E se o conseguimos fazer a 27, melhor. Porque podemos gerir melhor essa demografia negativa de envelhecimento que toda a Europa tem.

Senão, o que nós vamos fazer é competir uns com os outros. Ou seja, se nós não conseguimos ter essa capacidade de assumir este controlo pelo todo, ganha a Alemanha, ganha a Áustria, ganha a Holanda e perdem os países periféricos como Portugal.

Na verdade isso está a acontecer um bocadinho já. Os migrantes vêm para Portugal ou para Espanha, regularizam-se e depois fluem para esses países já fora deste olhar negativo, porque na verdade são migrantes de um país da União Europeia, não entram nas estatísticas, mas ficamos sem eles e, portanto, o que é que Portugal tem de voltar a fazer? E a Espanha? Renovar este convite à entrada sobre diferentes formas, regularizações, manifestações de interesse, o que seja.

Portanto, eu acho que há aqui uma esperança. Onde é que não há esperança? Não há esperança para o não-cumprimento dos direitos humanos. E, portanto, aí não pode haver nenhuma capacidade de estar a olhar para o lado.

Temos que colocar todas as organizações de direitos humanos dentro destes potenciais campos que vão ser criados. Temos que criar recursos para que as pessoas que já estão no espaço europeu tenham a oportunidade de prosseguir as suas vidas, mesmo que essas vidas sejam fora do espaço europeu. Não podemos encarcerar pessoas pelo crime de migrar. Isso não faz sentido. Portanto, aí os direitos humanos têm que entrar.

E esse é um legado da União Europeia. Se nós perdermos essa nossa capacidade de olhar para os direitos humanos então perdemos aquilo que nos distingue e não estamos cá a fazer nada. Só negócios e isso não é suficiente. Portanto, eu acho que este primeiro passo foi interessante. Agora, os que se seguirão são muito mais importantes. E aqui entramos todos nós, porque este olhar vigilante é da imprensa, é dos investigadores, é das organizações de defesa dos direitos humanos.

Temos de estar muito atentos. Nós não podemos barrar o vento com as mãos, não é? E aqui esta iniciativa da Comissão Europeia foi ganhando força e não era possível de parar. Nós podíamos ter um opt-out, dizer assim ‘não, Portugal não quer fazer parte’. Mas Portugal quer fazer parte por uma questão racional, porque se todos os outros estiverem policiados pela Frontex e Portugal não, então Portugal torna-se a porta de entrada. E, portanto, parece-me que racionalmente a ideia de estar in faz sentido. Agora, eu olho para isto num ciclo longo, ou seja, hoje em dia estão determinadas forças políticas no governo dos países, mas amanhã estarão outras. E como a União Europeia é muito lenta a tomar decisões, os ciclos políticos mudam e podemos aproveitar este início para fazer alguma coisa mais positiva do que aqui está.

E uma delas é parar o negócio que está em torno da exploração, do contrabando dos migrantes. E esse negócio tem de ser parado com interligação entre países, com vigilância dos sistemas de intelligence da União Europeia, com análise bancária, o follow the money, mas temos que parar esse negócio é um negócio que, na prática, sem que nós tenhamos refletido muito sobre isso, condena à quase escravatura uma parte substantiva de quem chega à Europa porque durante anos está a pagar estas dívidas, que são dívidas ilícitas.

Se um bilhete de avião custa 100 euros, eu não posso cobrar 10 ou 15 mil euros por transportar estas pessoas do ponto A para o ponto B. Portanto, eu quero ver aqui algo de positivo a partir desta ideia de que demos um passo e agora que já temos qualquer coisa, temos de transformar numa coisa melhor.

Melhor texto da semana

Houve muita coisa que li que podia partilhar sob este título, mas nada se compara a esta carta assinada pelo jogador de futebol Yan Diomande, de 19 anos, dirigida à irmã, que morreu com 15 anos, quando alguém lhe pôs algo numa bebida.

Diomande, que está no Campeonato Mundial a representar a Costa do Marfim, estará prestes a ser contratado pelo Liverpool FC por mais de 100 milhões de euros.

Um excerto:

“Não quero ser rico. Vejo o que faz às pessoas, mesmo à família. Quando estava no Leganés, tudo o que eu ganhava mandava para casa. Chegou a um ponto em que eu não queria dinheiro sequer. Era apenas um fardo. Nunca pararam de perguntar. Acho que pensavam que eu já era um milionário. Nem sequer tinha um apartamento. Estava a viver no campo de treinos, num quarto sem TV. Só futebol e dormir, futebol e dormir.

Não queria uma casa grande. Não queria carros. Só queria pôr tudo no futebol. Tudo para mostrar ao mundo que a minha irmã tinha razão”.

Um poema em forma de assim

Agustín Fernández Mallo, do livro “Ya nadie se llamará como yo'

Outras coisas do mundo

  • A BBC revelou esta semana que a Rússia (who else) estava por trás de ataques que tinham por alvo o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer. Ainda há poucos dias terminei de ler um livro que, a dada altura, elenca o histórico de mortes em território britânico ligadas a Moscovo e é assustador, como é assustadora a passividade das autoridades.

  • Por falar em Starmer, parece ter os dias contados no cargo que ocupa no número 10 de Downing Street, com a eleição para deputado do mais que provável candidato à liderança do Partido Trabalhista Andy Burnham.

  • O antigo deputado brasileiro Eduardo Bolsonaro foi condenado a quatro anos e dois meses de prisão por coação a juízes.

  • Fiquei muito surpreendido por descobrir (link de oferta para os primeiros três cliques) que um dos líderes do movimento rebelde M23 tem um doutoramento em Saúde Pública.

  • Para quem se interessa por estas coisas, as pré-reservas do jogo GTA VI começam no dia 25. Para quem não se interessa, importa saber que será o maior lançamento de um videojogo este ano (e provavelmente dos últimos anos), o que significa que será um dos maiores acontecimentos culturais (sim) do ano a nível mundial. Será o jogo mais caro da história (fala-se em mais de mil milhões de dólares para produção). As receitas previstas estão no campo do dobro ou do triplo desse montante.

  • Morreu ontem o jornalista da New Yorker Mark Singer, autor de um dos melhores perfis que alguma vez li e que recomendo sempre. Quatro anos depois desse perfil do mágico Ricky Jay, Singer publicou este, já agora.

Como sempre, estou ao dispor para sugestões, perguntas ou comentários, à distância de uma resposta a esta mensagem. Se gostaste do que leste, partilha.

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