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27 de Junho de 2026

Muro #13 - The kids are alright?

João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira, Pink Flamingos

Na semana que passou, a Europa viveu a pior onda de calor de sempre. As palavras são de um título do Público que mais direto não podia ser: “Esta é a pior onda de calor de sempre na Europa e a culpa é dos combustíveis fósseis”. Temperaturas recorde foram alcançadas em vários pontos da Europa, centenas de pessoas morreram, dois reatores nucleares em França foram desligados, eventos cancelados, escolas fechadas, inclusive em Portugal.

Estudos, ainda iniciais, sobre o impacto das ondas de calor mostram que o excesso de calor pode “alterar a forma como os sinais químicos funcionam no cérebro”. O calor pode também mexer com a maneira como os nossos cérebros comunicam e como o oxigénio chega até às células.

Isto é particularmente crítico para os mais novos. Segundo uma investigadora de Oxford citada pelo Tech Review, as crianças nascidas em 2020 deverão atravessar sete vezes mais ondas de calor do que os seus avós.

Num assunto relacionado, as mortes ligadas à poluição em Londres caíram 40% (QUARENTA por cento) desde 2019, fruto de medidas de restrição de circulação automóvel na cidade (muitíssimo impopulares, como em tantos outros casos).

Ajudar os outros faz bem à saúde

Um estudo extraordinário feito nos Estados Unidos junto de 2.400 jovens nascidos entre 1997 e 2012 revelou que a juventude não está nada perdida.

As principais conclusões:

  • 8 em cada 10 jovens esperam encontrar um emprego que tenha como prioridade ajudar os outros ou ter um impacto positivo na vida dos outros, embora só metade dos jovens já empregados diga ter um trabalho que corresponda a essa descrição. As pessoas provenientes de contextos mais difíceis são quem mais diz que gostaria de ajudar.

  • Um terço sente que não é necessário para os outros e que não tem um impacto positivo na vida dos outros, algo que está mais presente nos homens adultos.

  • Já os que sentem que são necessários e que o seu esforço tem um impacto positivo na vida de outrem têm 3 a 4 vezes mais probabilidades de dizer que a sua vida tem sentido e propósito.

  • Mais de metade dos jovens destacou a importância de os pais falarem com eles sobre a necessidade de ter uma carreira com impacto positivo sobre os outros.

Do estudo:

O desejo de cuidar dos outros pode ser crucial noutro sentido. A rápida disseminação da inteligência artificial pode transformar a força de trabalho de uma “economia do conhecimento” numa “economia do cuidado”, tornando a motivação e as competências para cuidar dos outros, bem como outras competências interpessoais, essenciais para a subsistência. Este momento histórico específico e os desejos desta geração podem estar alinhados.

And now for something completely different… O apocalipse é agora

Retrato de László Krasznahorkai por Renate von Mangoldt

Em pleno festival Babell, aproveito para assinalar a vinda ao Porto do mais recente prémio Nobel da Literatura, o húngaro László Krasznahorkai (amanhã, às 18:30, nos Leões, com moderação de Pedro Abrunhosa [!]), que pode escrever livros um pouco densos (se tentaste e não conseguiste ler, experimenta os filmes de Béla Tarr, se não pela história então pela fotografia e pela música fenomenal de Mihály Vig), mas dá sempre entrevistas fascinantes e de leitura fácil. Como esta, tão animadora:

O apocalipse é agora. O apocalipse é um julgamento em curso.

Apenas podemos iludir-nos com o futuro; a esperança pertence sempre ao futuro. E o futuro nunca chega. Está sempre prestes a vir. Só o que é agora existe.

Não sabemos nada sobre o passado porque o que pensamos como o passado é meramente uma história sobre o passado. Na realidade, o presente também é apenas uma história. Contém tanto a história do passado como o futuro que nunca chegará. Mas pelo menos o que vivemos como presente existe. E só isso existe. O inferno e o céu são ambos na Terra, e estão aqui agora. Não temos de esperar por eles. Ainda assim esperamos, confortando-nos com a ideia da esperança.

É sempre bastante curioso poder constatar a diferença de pontos de vista em pessoas que partilham um ofício. Há poucas horas ouvi o espanhol Javier Cercas, também no âmbito do Babell, afirmar que escreve contra “esta ideia de que o passado já passou, de que o passado é algo que não tem nada que ver connosco, não é relevante para o presente”.

“Vivemos na ditadura do presente porque as redes sociais e os media criam a ideia de que o presente é tudo o que existe e isto cria uma imagem falsa da realidade. O passado é uma dimensão do presente sem a qual o presente está mutilado, sem a qual o presente não se entende”.

Na mesma conversa, na sexta-feira à noite, Cercas sublinhou a importância que os leitores têm para os escritores e como, sem os leitores, os livros são “letra morta”. Pois bem, Krasznahorkai diz que “a maioria dos escritores precisa de 10 [leitores], talvez 6 num dia mau”.

Coisas do mundo

  • Pergunta a Vanity Fair: Por que é que o mundo ignora o genocídio no Sudão?

  • Um grupo de países da União Europeia está a estudar a possibilidade de enviar para o Ruanda e para o Uzbequistão requerentes de asilo, num esforço encabeçado por Alemanha, Áustria, Dinamarca, Grécia e Países Baixos. Várias organizações, incluindo a ONU, dizem que estas ideias são perigosas e podem colocar em risco a vida de pessoas que estão em situações muito vulneráveis.

  • A Albânia está a atravessar o maior movimento de protesto desde o fim do comunismo, que começou contra a aprovação da criação de estâncias de luxo (que envolvem a família Trump) em zonas ambientais protegidas e se estendeu a uma maior vaga política.

  • A Alemanha deverá introduzir alterações significativas ao sistema de reformas, o que significa que a idade de reforma vai passar para 70 perto do final do século e as reformas antecipadas vão desaparecer.

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