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4 de Julho de 2026

Muro 2.0 #14 - Imaterial

Na semana que passou a Sony anunciou que vai deixar de produzir discos físicos a partir de janeiro de 2028. A revelação, apesar de esperada há muito, gerou raiva num segmento da população muito propenso a raivas (gamers), mas não só. Também eu fiquei perplexo. A notícia chegou dias depois de se saber que o novo GTA não vai ter versão em disco no lançamento (pelo menos) e que mesmo a versão com caixa só vai ter lá dentro um código para descarga.

Isto é importante pelo que significa na forma como nos relacionamos com a cultura de que gostamos.

Há alguns anos, deixei-me levar pelos leitores eletrónicos de livros. A leitura era agradável, o equipamento leve e às vezes ficava tão preso num livro que dava por mim a querer virar a página física do ecrã. Quando comecei a ler “A Guerra dos Tronos” e os seus milhares de páginas, era uma alegria poder ter todo aquele peso dentro de um pequeno leitor de fácil transporte, para férias ou viagens. Gastei uma pequena fortuna em livros eletrónicos, que não são tão mais baratos como se poderia esperar de um bem sem os custos de produção do papel.

Um dia, a minha rapariga perguntou-me se eu tinha noção de que não deixaria nenhum daqueles livros para trás. Não constituiria uma biblioteca. Não ia sobrar nada. Ao mesmo tempo, senti que não retinha da mesma forma a informação num livro digital como num livro em papel. Normalmente já não retenho grande coisa. Num digital não retinha nada.

E eis que comecei a pensar que se calhar, já que estou a gastar pequenas fortunas em objetos criativos, ao menos devia ser capaz de os deixar para trás. Livros, discos, filmes e, sim, jogos. É criada a ilusão de que tudo está na nuvem, mas não está. Jogos do passado conseguem ser difíceis de encontrar, livros esgotados ou indisponíveis por terem alcançado valores absurdos, filmes que desaparecem do meio, inclusive dos PirateBays desta vida. E, assim, cada vez mais ficamos dependentes dos algoritmos e damos por nós a fazer scroll infinito pelas ementas que nos servem sem saber o que escolher porque nada é realmente o que queremos ver, ouvir ou ler.

(Ao mesmo tempo, sabemos que hoje as notícias competem com o entretenimento e que isso se reflete no destino que os públicos dão ao seu dinheiro: pago por uma assinatura de um jornal ou assino Spotify, que me dá música e podcasts que podem ser de informação regular?)

Para lá da componente afetiva de poder ter o objeto em mãos, algo que costuma estar muito no centro de trabalhos jornalísticos sobre esta questão (“que giro, as pessoas estão outra vez a comprar vinil em massa”, mesmo quando eles passaram a custar 40 ou 50 euros), o verdadeiro centro desta discussão é o mercado e a forma como nos colocamos nas mãos (invisíveis) dele.

Ao comprar um jogo digital não estou a comprar o jogo. Estou a comprar o direito de o jogar durante um determinado período, que pode ser revogado pela empresa ou, simplesmente, pelo facto de um dia eu vender a consola ou me desinteressar por completo do meio.

Ao comprar um livro digital não posso levá-lo a um amigo e dizer “lê isto, é incrível”. Música idem. Estás a ver onde quero chegar. Os custos de produção são menores, mas não os preços. O mercado de usados desaparece ou torna-se campo de especuladores riquíssimos.

O que é que estamos a fazer com as coisas de que gostamos?

Recentemente, voltei a comprar filmes aproveitando o facto de uma consola ter um leitor de 4k. E já li mais do que seria provavelmente saudável sobre as possibilidades de degradação de um DVD ao longo de 100 anos.

Quero poder ir à estante buscar o livro, poder ler um excerto de que me lembrei e mandar a alguém ou mandar-te a ti. Quero poder ver e rever - sem ter de pagar uma assinatura - aquele filme que adoro, sempre adorei e vou morrer a adorar.

A sociedade atual é em grande parte definida pelas formas como nós escolhemos onde usar o dinheiro que ganhamos a trabalhar. Isto somos nós a ficar sem mais uma opção.

A foto mais detalhada de sempre do coração da Via Láctea

Citação da semana

"Também me pergunto muitas vezes porque é que estas pessoas, se não gostam de mim, se não gostam do meu trabalho, se não me apreciam, por que é que elas estão nas minhas redes sociais? […] Atenção, eu não quero que me aceitem, eu não quero que me tolerem, isso é colocar-vos num patamar de superioridade. Eu exijo respeito, porque eu também respeito os outros e porque me dou ao respeito". Manuel Luís Goucha, a descobrir, em 2026, os esgotos das redes sociais

Coisas do mundo

  • O presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, faturou (ligação de oferta) mais de dois mil milhões de dólares em 2025, depois de regressar à Casa Branca, mais de metade dos quais através de criptomoedas, segundo os dados financeiros do chefe de Estado americano para 2025. Este valor compara com cerca de 600 milhões em 2024 para todo o seu universo empresarial.

  • O Museu Nacional de Belas Artes do Chile cancelou uma exposição do artista argentino León Ferrari que esteve três anos a ser preparada e era para ter sido inaugurada em junho, com a justificação de cortes orçamentais pelo Governo de José Antonio Kast.

  • Um estudo australiano sobre o impacto da proibição de acesso a redes sociais pelos adolescentes revelou que, nos casos em que a proibição funciona de facto, “o acesso a notícias e a participação cívica cai a pique: um em cada dois dos inquiridos que dizem ter sido significativamente impactados pela proibição dizem estar a receber menos notícias”. O documento lembra que 2 em cada 5 jovens não acedem a notícias para lá das redes sociais.

A alucinação da semana

Há quem diga que é injusto usar o Agente Multimodal Automático de Linguagem com Inteligência Artificial (AMALIA) como um LLM, ou seja, como o ChatGPT, por exemplo, para obter informação, porque não foi bem para isso que ele foi construído e como, aliás, os seus criadores alertaram.

Ainda assim, tendo como uma das suas principais bandeiras a autonomia nacional, define-se da seguinte maneira: “O LLM português AMALIA processa, compreende e gera texto em linguagem natural. Pode por isso ser utilizado como um componente em vários tipos de sistemas, tais como sistemas de diálogo e chatbots, sistemas de pesquisa, sistemas automáticos de resposta a perguntas, entre outros”.

Houve, naturalmente, alguém que criou um modelo de interação com o AMALIA. A minha primeira foi assim:

A que se seguiu esta minha insistência:

Apesar de me ter rido muito com a insistência no Salazar de bigode, a que me continua a fazer rir sem falhar sempre que a leio é esta, do Rogério Casanova:

Para a semana no Muro 2.0, como olhamos para a China hoje.

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Bluesky
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