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11 de Julho de 2026

Muro 2.0 #15

Na semana que passou:

  • O cessar-fogo sobre o Irão dissipou-se com novos ataques norte-americanos e retaliações regionais iranianas.

  • A líder da extrema-direita francesa, Marine Le Pen, foi condenada por desvio de fundos a três anos de prisão, sendo um deles de pena efetiva com pulseira eletrónica, mas vai, ainda assim, candidatar-se às eleições presidenciais de 2027 em França.

  • Por seu lado, foi revelado que o líder da extrema-direita britânica, Nigel Farage, não declarou financiamentos de milhões, o que levou a que o político britânico se declarasse vítima de uma perseguição e se demitisse do cargo como deputado, para logo de seguida dizer que é de novo candidato à eleição intercalar. Os restantes partidos anunciaram que se recusariam a participar neste “circo”, o que faz com que o único concorrente de Farage seja esta personalidade:

  • Israel matou mais de mil palestinianos na Cisjordânia desde o 7 de outubro de 2023, incluindo 242 crianças e adolescentes, segundo a organização não-governamental israelita B’tselem, no que é o maior número de mortos desde o começo da ocupação em 1967.

  • França, Itália e Grécia fizeram força para esvaziar uma proposta da Comissão Europeia de sanções adicionais sobre a Rússia que impediriam soldados russos de viajar para a União Europeia.

  • Ainda sobre o desaparecimento dos bens culturais físicos que abordei na semana passada, uma deputada federal do Brasil encaminhou o assunto para a Secretaria Nacional do Consumidor para que sejam averiguados eventuais danos aos consumidores brasileiros.

Este gráfico com os máximos de temperatura em junho e a diferença para os recordes anteriores é particularmente elucidativo do que estamos a viver.

Em foco

Na semana passada, conversei com o professor convidado do ISCSP e investigador Li Guofeng sobre que perspetiva devemos adotar na leitura que fazemos do papel da China e que desafios enfrentam as relações com Pequim.

Uma versão condensada da conversa fica em baixo.

Como podemos olhar para a China hoje e o seu papel no mundo?

A China hoje em dia, por um lado, continua a participar ativamente no sistema internacional ainda em vigor, que é um sistema internacional, digamos, sob a ordem norte-americana. Portanto, estamos a ver a China com um papel muito ativo, por exemplo, na ONU e depois nas organizações internacionais vigentes.

Por outro lado, a China também está a estabelecer - não é tentar - está a estabelecer um sistema internacional à sua maneira. Podemos ver várias organizações internacionais com funções basicamente semelhantes às organizações já existentes.

Isto […] de estabelecer o seu próprio sistema, é um papel relativamente emergente. Porque antes do segundo mandato do presidente Xi, a China ainda estava, digamos, quase 90% [ligada] ao sistema internacional existente.

Mas, a partir do segundo mandado, devido à instabilidade internacional, à guerra na Ucrânia e à presidência de Trump, depois à covid, a China fica agora cada vez mais atenta à sua própria esfera – a sinosfera, podemos dizer assim -, a ter ligações mais próximas com o ainda Terceiro Mundo, os países em desenvolvimento, por exemplo, os países lusófonos, Angola, Brasil. Falando do Brasil, temos de falar num conceito que hoje em dia é muito relevante na política externa chinesa, que é o mundo Sul-Sul, ou seja, a colaboração Sul-Sul. Isto é muito importante.

Em relação à perspetiva portuguesa, pese embora as diferenças do regime político, até da ideologia, até da geografia, claro, a China é uma alternativa para Portugal. Isto é uma coisa óbvia, já desde a crise financeira, desde 2010. A China, em certa medida, salvou a economia portuguesa com a entrada dos investimentos das grandes empresas chinesas, quer estatais, quer privadas. Estamos a ver uma presença forte das empresas privadas aqui em Portugal, tipo Huawei, Xiaomi, DJI, etc.

Portugal é um país que nunca teve, nunca tem, uma [hostilidade] formal com a China. Isto é uma relação win-win para Portugal. É uma alternativa económica. Se é uma alternativa política, acho que isto ainda é uma afirmação arriscada neste momento.

Por outro lado, para a China, Portugal tem também um papel relevante para fazer a ligação a várias partes do mundo. Portugal dá para chegar à Europa, à África e à América Latina. Portanto, isto é tipo uma relação que tem benefício mútuo.

Acredita que a chegada a governos europeus de partidos radicais de direita podem ameaçar as relações com a China?

Esta é uma questão bastante interessante, pois isto tem a ver às vezes com o caráter nacional de um país. Por exemplo, temos de dizer que Portugal, como a Espanha, tem semelhanças com a China. Porquê? São muito bons a fazer negócio. Têm uma característica bastante pragmática. A ideologia, essas coisas políticas, ‘vamos deixar de lado’, mas negócio isso é outro tema, isso é outra questão. Negócio é uma coisa sempre win-win. Nós fazemos negócios, nós ganhamos, e eles também. Portanto, isto tem a ver com a característica pessoal de cada país. Mesmo no caso dos Estados Unidos, que aparentemente tem sempre uma atitude hostil à China, mesmo com a presidência de Trump ou Biden, mas os Estados Unidos continuam a ser o primeiro parceiro económico da China. E os negócios continuam a crescer entre os dois países.

Mas se o populismo ou essa atitude política relativamente hostil vai prejudicar as relações com a China, isto depende muito de várias questões sensíveis com a China. Vou dar mais um exemplo, que é a Lituânia. A Lituânia está a ter problemas com a China. Porquê? A Lituânia toca sempre nas, digamos, linhas vermelhas para a China. Há várias linhas vermelhas para a China. E normalmente são questões muito concretas. Primeiro, há a questão de Taiwan. Segundo, a questão de Xinjiang. São estas questões concretas. Se for uma crítica, um discurso generalizado, ‘ah, os direitos humanos na China não estão bem’ ou ‘a proteção ao ambiente na China tem vários problemas’, estas críticas à China são vistas com um ‘deixa para lá’. Mas se forem coisas mais concretas, tipo Taiwan, Xinjiang, isso vai ser uma coisa fatal para as relações entre a China e o país em causa.

Portanto, o populismo em si acho que não é uma coisa negativa para as relações bilaterais com a China. Mas se este populismo se estender a outras áreas, tópicos concretos, poderá ser perigoso. Há mais um exemplo que é o Bolsonaro. O populismo de Bolsonaro teve um impacto muito negativo nas relações sino- brasileiras. Porque ele também tocou na questão de Taiwan. E isso é uma coisa inaceitável para Pequim.

É sempre difícil fazer futurologia, mas como é que antevê os próximos anos, quando estamos mais ou menos a meio de um mandato Trump, com reacendimentos de conflitos antes dormentes?

Eu sempre digo uma coisa, e há muita gente aqui em Portugal, no Ocidente, que tem dificuldade em entender isto. A China e os Estados Unidos, pese embora a diferença do regime político na superfície, são bastante semelhantes. Os dois líderes também são bastante semelhantes. Até posso arriscar dizer uma coisa: Trump, de certo modo, tem inveja do presidente Xi. Com o regime chinês, o presidente Xi consegue pôr em ordem a sociedade chinesa, consegue controlar a sociedade, consegue também estender a influência da China em quase todo o mundo. Trump tem inveja. Se olharmos para as relações históricas entre os dois países, sinceramente, eu não acho muito possível um grande conflito entre a China e os Estados Unidos. Ainda com Trump. Trump é um ‘businessman’, o que significa que tem um caráter muito pragmático. Até tem muita vontade em negociar com a Coreia do Norte. Portanto, num prazo curto, médio poderá haver instabilidades nas relações sino-americanas, sobretudo na dimensão comercial, económica. Em relação às relações políticas não acho que terá grande alteração no futuro desde que a questão de Taiwan mantenha o status quo.

Vídeo favorito do ano

Já vi o vídeo em baixo centenas de vezes, verei outras tantas ao longo da vida e vou rir-me sempre. O selecionador mexicano é um figurão. É adorável a forma como lança um “vai para o -aralho” tão aleatório ao inglês Anthony Gordon.

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