Muro 2.0 #16 - Pausa estival
Antes de avançar para o boletim desta semana, gostava de agradecer por esta via às pessoas amigas do projeto 7Margens a possibilidade que me deram de reproduzir a conversa com o diretor do Observatório das Migrações, Pedro Góis, originalmente publicada aqui no Muro 2.0.
Para quem não conhece, o 7Margens é um projeto único no panorama português e faz um trabalho extraordinário, fruto do esforço de pessoas muito dedicadas a um mundo melhor. O meu genuíno obrigado.
Pausa
Vou fazer uma pausa nas próximas semanas e, por isso, a edição desta semana é um pouco diferente do costume. Meio mundo partilha as suas leituras de verão e pensei em sugerir-te algumas possibilidades para passar minutos/horas/dias.
Começo por duas que não são sugestões desinteressadas, mas sim fruto de trabalhos nos quais desempenhei algum tipo de papel nos últimos tempos.
Um assunto sobre o qual penso muito há muito tempo, devido ao demasiado tempo que passei - e ainda continuo a passar, mas menos - em redes sociais, é o da chamada “cultura do cancelamento”. Poderás pensar que é absurdo, e é um tema dado a posições extremadas, mas acredito que é um fenómeno imaginado, que vive de mãos dadas com a cultura da indignação alimentada por um campo político específico, o da extrema-direita, mais populista ou menos populista. Também acredito que é um fenómeno de mercado, como tantos outros, que também em Portugal encontrou o seu canto com os múltiplos livros sobre o “woke”, o “politicamente correto” e afins. Em suma, acredito que é tudo fabricado para gerar indignação e vender coisas.
Mas já estou a divergir.
A primeira sugestão que te deixo é um artigo que escrevi para a Lusa, a propósito dos 50 anos dos 25 de Abril, sobre liberdade de expressão. Coloquei as mesmas perguntas (“Nos 50 anos do 25 de Abril como olha para a liberdade de expressão hoje em Portugal? Que desafios enfrenta?”) a um conjunto de pessoas de várias áreas do pensamento e das artes. As respostas foram tão variadas quanto as áreas e quanto as ameaças que cada pessoa sentia pessoalmente. Reproduzo, na íntegra, a resposta da escritora Regina Guimarães, que foi a que mais me marcou:
A liberdade de expressão defende-se, pela prática, com unhas e dentes.
Em situações pessoais (a mais recente ficou conhecida como «guerra do rodapé» e implicou censura) e noutras nem tanto, constato que a liberdade de expressão está corroída embora a Constituição a «garanta». Enquanto tradutora, já me aconteceu traduzir para francês textos de crítica publicados no tempo do marcelismo que hoje em dia nenhum jornal publicaria. Portanto, há, por um lado, a falta de coragem dos jornalistas, por outro, a ameaça velada de despedimento caso os jornalistas não batam a bolinha baixa... Qualquer cidadão-leitor pode observar que, neste nosso estado da democracia, mais facilmente se dá palavra e espaço a criaturas e discursos anti-democráticos do que a vozes fundamentadamente revoltadas... Ora a coragem é tão-só a laboriosa transformação dos nossos medos em instrumentos críticos e criativos.
Tenho 66 anos, mas envelhecer com maleitas não me dispensa de fazer tudo o que estiver ao meu alcance para que o mundo futuro possa ser habitável. Humanamente habitável também. Combater pela escrita e pela tomada de posições a tentação do elitismo solipsista e da condição pós-humana reservada aos «eleitos» é imperativo.
Por outro lado, não é menos imperativo exprimir toda a solidariedade e gratidão que sinto para com aqueles (alguns tão novos!) que, rotulados de desordeiros (por vezes de «eco-terroristas!!!) e agredidos pelas forças da ordem a mando dos «bem pensantes» se mobilizam (sem recuar por serem «minoria») na luta pela justiça climática.
Tenho 66 anos, o mínimo que se pode exigir de uma pessoa como eu, necessitada de apoio médico, é dizer todo o bem que penso do Serviço Nacional de Saúde. Conseguir, em 50 anos, construir uma invejável (e invejada) rede de atendimento (ameaçada pelos novos «vampiros») é obra. Incito toda a gente a defender aquela que é porventura a mais consistente conquista de Abril, a fim de que possa ser aperfeiçoada e alargada.
Lamento que a escola pública atravesse uma crise tão grave, em grande parte provocada pela implementação de metas e métodos desadequados, mormente rankings e incitações à competição. Espero que os pilares do ensino - os professores - não se deixem intimidar por pressões (a começar pelas das famílias dos alunos) conducentes à guetização dos mais desvalidos e ao aprofundamento de clivagens contrárias aos princípios da escola republicana.
Cada pessoa pode, à sua escala, mudar o mundo, o seu e o dos que o rodeiam. Sentir-se cidadão do planeta mas investir muita energia e muito afecto na pequena escala da proximidade é um dos grandes desafios vindouros.
A segunda sugestão é o conjunto de trabalhos que temos vindo a publicar na Lusa sobre a desertificação do território no campo da exibição de cinema, a começar no verão do ano passado. Cresci muito com o cinema. Cresci muito, no meu secundário, com serões de segundas-feiras passados na sala de cinema com amigos de liceu, num ritual que era dos melhores momentos da minha semana. Pensar no isolamento crescente das nossas sociedades e do que isso significa entristece-me muito. É terrível ter de levar com o vizinho a falar alto na sala de cinema, mas as experiências culturais só podem ser plenas quando partilhadas.

Ainda no contexto do Mundial de futebol masculino, que amanhã termina, gostei muito desta entrevista do El Mundo a Lamine Yamal.
P. Se pudesses passear uma tarde sem que ninguém te reconhecesse, onde irias ou o que farias?
R. Quando é inverno faço isso. Visto uma sweat e um gorro e vou ao centro tomar algo. Ao centro de Barcelona. Paseo de Gracia e por aí.
P. Pareces muito seguro de ti próprio. Há algo que te cause insegurança?
R. Não, não há nada. Não sou uma pessoa que pense muito nas coisas, do tipo ‘o que é que se está a passar aqui?’ ou ‘o que acontece se fizer isto ou aquilo?’. Vivo e já está.
P. Imagino a tua resposta, mas… Quem é que te põe no sítio?
R. A minha mãe.
O escritor que dá pelo nome de Lemony Snicket escreveu sobre censura de livros (algo que acontece na atualidade nos EUA).
Uma sugestão que não li, mas que continua a causar furor pela Internet fora: “O fim da leitura”, na The Atlantic.
Leio sempre tudo o que há para ler do escritor John Lanchester, incluindo quando escreve sobre os assuntos aparentemente mais aborrecidos do mundo. Este texto recente na LRB sobre lavagem de dinheiro é bastante elucidativo.
Na semana da estreia da “Odisseia” de Christopher Nolan recupero esta entrevista da tradutora Emily Wilson, que foi um íman de ódio por parte da machosfera quando se atreveu a ser a primeira mulher a traduzir a obra de Homero para inglês e, mais ainda, quando se atreveu a torná-la legível. “There’s a lot of anxiety about gender, race, and whiteness tied to the discourse about greatness. I don’t think any of that has anything to do with me, but somehow people have latched on to this. I think it’s because the coverage of my translation, when it came out in 2017, had the word woman in the headline. People get threatened by that.”
Será Masha e o Urso propaganda russa e, se for, deveria ser banida? Gostei muito desta reflexão sobre o assunto do politólogo Seva Gunitsky.
Voltamos a falar em agosto. Toma conta de ti e larga o scroll.