Frugalidade e rebeldia

1.
O vampirismo do capital sempre corre da cruz da moderação. Onde houver desejo e necessidade de regulação, limites, frugalidades, a desmesura, o excesso e a obscenidade do capitalismo encontrará um inimigo de quem fugir ou a combater. É da natureza desse sistema que, para esconder a face da sua insaciabilidade, da sua megalomania, batizou-as de liberdades: a suposta condição de ser livre é a propaganda que maquia a insânia das suas exorbitâncias. Tudo aquilo que se recolhe, que se autorregula pelo princípio da moderação, que arrefece o ímpeto de querer mais e mais e de se inchar perturba a ordem do capitalismo. A sociedade de mercado é a autora não da distribuição das abundâncias, mas a coroadora das múltiplas overdoses com baixa ou nenhuma agenda de remediação. O princípio de exagero de todas as suas atividades atravessa e muito o humano: também superaquece a atmosfera, acidifica os oceanos, extingue milhares de outras espécies. Para além da condição de expropriador, explorador, concentrador e monopolista, vale relembrar, com mais atenção, o aspecto quantitativo da natureza do capital: um fenômeno que tende a fabricar, sempre, a overdose de tudo que coloniza.
2.
Também onde houver mato e ócio, convivência e partilha; onde ainda restar casa de barro e terreiro com galinhas, cadeiras de madeira na varanda e o trabalho e o descanso, em igual medida, das donas Anas e dos seus Zés, o progresso não perdoará: fará de tudo para pavimentar sua estrada de piche e concreto, arrasar o deleite do escuro e das sombras com a violência da sua luz branca, dos seus holofotes.
3.
Mote com influência da filosofia cínica, que procede e se verifica no mundo ao longo das décadas, dos séculos, dos milênios: às vezes, o vendedor de salgados se prova mais sábio que o erudito de departamento. No labor braçal, vocal e plural de cada dia, o salgadeiro refina sua experiência e seu saber de vida através de suor, entraves, asperezas e misturas que o doutor, especializadíssimo num único registro, confinado em salas, só experimenta através da linguagem letrada (e cifrada) e do intelecto. Diz o vendedor de salgados: “Vive-se a cada dia, cada dia é um, e assim se vai”. A simplicidade acachapante dessa máxima existencial é a resina de um obviedade sagrada que só se vocaliza depois de muito assimilada na carne, mais próxima dos xamãs e dos Budas do que dos versados em ontologias.
4.
A condição das nossas tarefas diárias (e dos nossos consequentes estados psicofísicos) pendulam entre o extremo do trabalho remunerado exaustivo e desprazeroso e a compensação de um entretenimento total e meramente excitante. De um lado, estamos submetidos a conversar com máquinas para, sentados em cadeiras de escritório, desenvolver produtos e relatórios maçantes ou, em frente a um volante, levar um passageiro atrás do outro aos destinos solicitados. De outro, para compensar, nos afundamos na hipnose programática das telas, quando, scrollando e scrollando, temos a atenção carcomida por pílulas e mais pílulas de excitação audiovisual.
Entre o samsara do trabalho e a dopaminolândia dos entretenimentos digitais, há o espaçoso baú das atividades que não são a escravidão do nosso tempo e a tortura dos nossos corpos, mas tampouco o puro prazer saturante. São os sofisticados exercícios que ligam o esforço ao ócio, o suor ao contentamento, que exigem a fricção do corpo com o ambiente, com os elementos da matéria, e forçam a atenção aos estados de presença consciente. Nem intoleráveis, nem ruidosas, sem depressão, exaltação ou ressaca — mas atividades simples, analógicas, que nos instruem e formam, que não param de nos criar e recriar, que cuidam de nós e fazem vicejar outros sentidos de vida.
Dentre os exercícios possíveis, inclui-se a simples leitura de um livro ou a prática de uma velha arte marcial. O que ambos tem em comum? A premissa da necessidade de um esforço e uma concentração dirigidos. A gama é ampla e o que esses exercícios de aspereza produzem é aquilo que o tecnocapitalismo não mede esforços para escorraçar e combater: vigor de todo organismo, atenção não dispersante, serenidade sem fármaco, autogovernança.
5.
Sábado de sol: não quero experimentar nem um segundo de ansiedade sobre o que não tenho e não sou. Ao primeiro sinal de precipitação e solavanco, abandono tudo: aquilo que o desejo projeta, muito à frente, e até o que acredito que, supostamente, detenho e me compõe. Desfrutar o ar da vida sobre o fio mínimo, ínfimo de um simples estar sem anexo, sem acréscimo. Pelo menos por hoje, sábado. E, mais ainda, amanhã, domingo. Segunda-feira, se muito preciso, volto a calcular as coisas.
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A farfalhada niusleter é o meio mais livre e satisfatório por onde espalho, na internet, meus escritos fragmentários de muitos temas e tons: dos arranhões filosóficos e políticos baseados, quase sempre, no debate sobre civilização e ecologia, aos meus haicais, haibuns e zuihitsus da vida cotidiana.

Abraços e até a farfalhada #123,
Felipe Moreno
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