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August 11, 2026

Diário fraturado: dos dias em que estive, mais uma vez, com o pé quebrado


1. Preciso interromper o mau hábito de quebrar meus próprios ossos, tônica traumática dos meus anos. Na infância, porque magrelo, esquio e serelepe. Aos dois, pulo do berço e quebro a clavícula. Aos cinco, escorrego no chafariz do bifê da festa do primo (tema do Hércules, herói a quem eu devia tudo, da vigília aos sonhos), quando, deslumbrado, acabo de pôr os pés no ambiente. Aos seis, manobra de skate do piso liso da cozinha, o tombo e meu braço se transforma numa canoa. As tias católica advertem, pressionam minha mãe, que, ao meu nascimento, não me batizou na igreja: “Fabiana, esse menino está desprotegido. Antes tarde do que nunca”. Sou batizado, mas não me livro de mais alguns acidentes: luxado e quebrado, com a benção de deus. Depois de adulto, enfim, por afobação, excesso de sacrifício: chutes que passaram do ponto. Entre fraturas e luxações, nos 33 anos de vida, pelo que me recordo (e só minha mãe para confirmar), foram sete grandes traumas ósseos. Mas já não são apenas acidentes. Esse último, nove meses atrás (agora, agosto de 26, já estou 100% recuperado), foram algumas coisas, menos acidental.


2. Quinta-feira, 27 de novembro de 2025, quadra sintética da Lagoa da Conceição, bairro de Florianópolis, trinta minutos de jogo. Racho meu pé na canela do adversário. Dividida duríssima, choque de praxe: juro que vou chegar na bola primeiro, com a intenção de rifá-la, ele chega milésimos de segundos antes, espana a bola e me deixa, como alvo, somente a tíbia, maciça e intransponível. Goleiro e zagueiros depois dizem que se assustaram com o som do estralo, barulho de osso quebrando. Tudo imediato: osso rompido, ficha caída. Tentam me consolar: “Não, calma, de repente…”. Porém sei que sim, paciência, mais uma vez.


3. Eu, que todos os dias penso na minha morte — treino limítrofe e mórbido a fim da serenidade no momento intempestivo e fatídico —, não posso me abater por causa de um pé quebrado. Desde a manhã de domingo, o sol desapareceu: me recolho, doído, sob a cinza e a umidade. As águas desabam e, de repente, o céu se limpa, retornam sol e azul: me estico na luz do dia, no quente (com exceção do pé, em compressa de gelo). Melhor hora de treinar o que o karatê e o zen me transmitem: sentir o desconforto e a dor sem escândalo, sem alarde, atado no agora, um dia de cada vez.


4. Existe, assim, essa vontade por um treinamento mui extravagante e megalomaníaco: o de aprender, dose a dose, a amortecer as diferentes facetas dos estados de agonia e horror, de não redobrar, em sentimento reativo, as possíveis chances de colisão com sensações de agonia e instantes de horror — mas assentá-las no colo de uma firme calma, repousá-las (não sem dureza, pois o contrário seria impossível ou psicopático) no núcleo não verbal do baixo ventre. Do choque das vistas ao amortecimento das vísceras, seja o que for: morte, pé quebrado, calor extremo, perdas amorosas, frustrações profissionais, privações severas, perrengues financeiros, situações cotidianas de risco.


5. Pé inchado: sabedoria do organismo que reage ao trauma, à ruptura e desestabilização do seu bom funcionamento; que começa a trabalhar, sem trégua, à adaptação e regeneração. No limite da compreensão, ninguém possui um corpo; não posso falar “o meu corpo”, senão “este corpo”. É fascinante assisti-lo; e engraçado.


6. Um pé assustador: como de um morto, de um diabético, de um idoso que sofre de trombose, de um cachaceiro que vive no botequim, de chinelos, e é imbatível na sinuca? Um pé impressionantemente disforme da sua condição normal: rajadas de roxo nas laterais, na sola, entre os dedos; e os dedos se espremem, tamanho o inchaço; e o inchaço se espalha, se dilata — como se músculos, nervos, tendões e peles fossem uma só massa fermentada que, ao fogo, cresce; fermento de inchaço que sobe ao tornozelo. Meu pé direito, durante dias, horroroso, cujo sangue que ali circula nem os mosquitos, neste quente fim de primavera, querem sugar.


7. Os acidentes, claro, fogem do meu controle. Mas foram todos acidentes? Meus traumas ósseos podem dizer algo sobre possíveis traumas psíquicos? Seis da manhã, dez horas depois da colisão, sou acordado pela dor e pela constatação: não foi um acidente. Antes de descer o comprimido com um gole d’água, me convenço de que a trama dos traumas se costura do nível do psíquico ao corpóreo; de um abatimento psicológico e emocional que se encrustou desde a infância e, de repente, depois de adulto, incindiu e colidiu no meu pé direito.


8. Enquanto criança, não tive voz ativa, não fui machinho alfa; fui calado, silenciado pela cultura masculina de dominação e hostilidades, quando só queria brincar, competir, me divertir. Depois de adulto, aprendi, sem violência, a entonar a voz, a me impor com inteligência. Mas o calor do jogo, as provocações, rompem a barreira de contenção da agressividade. Porque sofri uma falta desnecessária aos cinco minutos de jogo, um empurrão provocativo aos dez, não vocalizo o limite, caio na armadilha, me imponho pela força física, ainda que dentro dos limites do jogo, e a consequência vem: a tentativa de bola rifada, que resultou em chute direto na canela, é o não acidente, efeito previsível da externalização da repressão infantil em quadras, parquinhos e corredores de escola, o botar para fora o que há tantos anos decantou num dentro sem ação.


9. No último mês, vem até mim essa antologia de gente quebrada — quase todos homens, quase todos por causa de acidentes de moto. Nem sempre pessoas que tive contato no hospital. Ontem, por exemplo, o mais inusitado. Desço a rua a pé, de muletas, sob o sol escaldante; uma moto para do meu lado: homem no piloto, mulher na garupa. Ele levanta a viseira do capacete e pergunta: “Caiu de paraquedas?”. Demoro a entender, mas respondo: “Futebol”. Ele mostra o pé, coberto por três meias grossas: “Quebrei os três dedos. Caí da moto. Mas já tô bom; tô até pilotando”. Ri, engata a marcha, me deseja melhoras, feliz Natal e some no asfalto.


10. É óbvio que, recuperado do pé, voltarei, em algum momento, a jogar futebol. Abandoná-lo implicaria num outro trauma: o da castração de um desejo. (De repente, como se com o caboclo de um psicanalista no coro, incorporo o léxico clínico.) Neste último mês, quantas vezes sonhei que eu estava em campo ou prestes a entrar? Daí a conclusão — esta mais fresca de toda essa antologia de elaborações psicanalíticas desde a noite da fratura — de que o futebol também significa, em mim, o gozo interrompido: não no sentido ambicioso, profissional, como o de nunca ter me tornado um jogador, isso não; mas pelo detalhe de ter sido privado desse hábito lúdico quando, na infância, mudei de residência e perdi meus amigos boleiros e a quadrinha do prédio.


11. Talvez meu amor pelo fragmento literário, pelas poéticas do fragmento, por toda escrita que irrompe, rompe, cinde, também venham daí: da minha inconstância residencial e do meu desajuizado histórico de ossos que se chocaram, romperam, fragmentaram-se. Um osso calcificado tem muito a falar sobre meu estilo literário.


12. No mais, a aliança entre movimento e fisicalidade e pensamento e escrita vai além. Só posso pensar, escrever e poetizar com vigor se mantenho meu corpo em metódica e constante atividade. No meu organismo, interagem em mesmo nível a fibra muscular e a prosa, o suor e o verso.


13. Dia da cirurgia. Vão aplicar um parafuso ou uma haste de ferro entre (ou por dentro) do osso rompido. Pretendo nunca mais chutar uma tíbia, seja no futebol, no karatê, onde quer que seja. Recepção do hospital: televisão na parede, publicidade de mercado regional com promoções de Natal (cerveja, Coca-Cola, tender, panetone); e eu em jejum, já há quatorze horas sem colocar nada na boca, nem água. Quase meio-dia, cheiro de almoço no ambiente (vem de onde?), minha boca seca de camelo. Pela manhã, li aquilo que Foucault disse a um amigo: “A coragem é física. Não existe coragem que não seja física”. Trouxe dois livros para a internação: um de crônicas, outro de poemas. No último instante, peguei também um de haicai. Convém, nessas horas, ler haicais. Dia a dia, vou devolvendo a este pé direito, magro e ágil, a coragem que ele merece viver.

dia da cirurgia —
a tarde lateja, esquenta
meu pé também


14. Escorado na parede do box, todo o corpo sustentado pela perna esquerda, e o pé direito embalado com duas sacolas de supermercado. A água gelada do chuveiro cai no pescoço e escorre até as canelas, alivia a queimação e coceira de braços e coxas, quase em carne viva, pruridos de um organismo que reagiu à bomba medicamentosa do pós-cirúrgico. É só um pé quebrado, agora atravessado por uma haste de ferro, por dentro do osso, para realinhá-lo — mas meu pé ainda está aqui; só um pé fraturado, corrigido e suas várias consequências, mas todas pontuais, bastante curtas: a previsão é de que, em oito semanas, estarei novamente regenerado, disposto a tudo, até para o futebol; no entanto, basta esse transtorno localizado para despontar a consciência da fragilidade geral, do peso e da dor de existir; e de que, ao menos até esse ponto e, provavelmente, em casos ainda mais extremos, minha resposta, apesar de tudo, seria sim: vale a pena lutar, resistir, adaptar-se, aproveitar a miscelânea de insatisfações, se alegrar com o que tem. Adenso a imaginação: se, numa ocasião limítrofe, me restasse apenas um fio de vida, que contentamento seria; não, exatamente, por possuir o fio de vida, mas por fazer desse fio a sustentação de tudo, afirmar toda a pulsação de existir pelo quase nada. Embora, claro, eu os entenda e respeite, nunca faço o coro dos suicidas: adoro mais quem luta e aprende a estar vivo.


15. A esperança é agora: este pé quebrado, sol no rosto, trilha sonora de Cartola. A esperança é qualquer coisa que esteja em mim e ao redor, agora. Tudo, menos aquilo que se projeta, o mínimo que seja, ao amanhã ou depois. No entanto, Cartola canta: “Amanhã, a tristeza vai se transformar em alegria”. Mas tem que ser agora. Um outro Agenor, Cazuza, já no flerte com a morte, escreveu no seu diário: “Fique livre do medo, aproveite a dor, ame de olhos fechados, se divirta na terra”. Tenho 32 anos e as calopsitas, daqui do quintal, cantam alto. É sábado — penúltimo ou antepenúltimo, já nem sei, deste ano veloz. Qualquer coisa que estiver aqui, estarei com ela: alegria, pânico, orgasmo, morte, risada, sono, golpe de karatê, sabor de paçoca, mergulho no mar, me informar das tragédias do mundo, contemplação de uma árvore que tem quatro ou cinco vezes mais tempo de vida que eu. Isto que sinto e vivo: ainda posso chamar de esperança?


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A farfalhada niusleter é o meio mais livre e satisfatório por onde espalho, na internet, meus escritos fragmentários de muitos temas e tons: dos arranhões filosóficos e políticos baseados, quase sempre, no debate sobre civilização e ecologia, aos meus haicais, haibuns e zuihitsus da vida cotidiana.


Abraços e até a farfalhada #124,
Felipe Moreno

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