Farfalhada niusleter logo

Farfalhada niusleter

Archives
Subscribe
August 25, 2026

Alguma canção no fundo dos olhos


1.

Punta del Diablo, Uruguai, maio de 2018. Estou com 24 anos, órfão de pai há cinco meses, resignado, mas ainda sem calejamento. Com dois amigos viajantes, dia de semana em que nada temos a fazer, ando pela praia deserta. Céu opaco, temperatura de 22 graus. Marcha lenta, descalça, areia grossa que massageia os pés, música nos fones. Inicia “Mãe (mãe solteira)”, álbum Estudando o samba, Tom Zé. A letra melancólica e meu solavanco: “Dorme, dorme, meu pecado, minha culpa, minha salvação”. Timbre que incita o choro: e eu choro. Interrompo a caminhada, ajoelho na areia, estendo rosto e braços para cima: firmamento de luz fraca, névoa branda, pedaços de azul atrás do branco movediço. Deslizam as lágrimas, a saliva engrossa. Um dos amigos vê meu evento; depois tira sarro: “Que exagero, hein?”. Já me disse, várias vezes, que desconhece a sensação de enlevo causada pela mistura de paisagem e música. Ele tem seus próprios métodos, outros; eu tenho os meus e me afinco neles. Minha mais vibrátil forma de orar: simples composição de choque entre o sonoro e o visual, aliança de som e cena.

2.

Sentando na pedra ainda morna de sol, em frente à praia, vento amigo. Nos fones, a música embala o refrão — Elis Regina, “Os argonautas”. No mesmíssimo ato, duas gaivotas em sincronia, variando o planar entre o ar e as águas que refletem seus corpos brancos, tão esbeltos. Irrompe a questão balbuciada pelo olhar sonoro, música do fundo da minha íris; súbita, soprada, nasce com advérbio e gera redundância: “Por que tudo tão magnificamente belo?”. (Lembro de Ferreira Gullar: “Como pode o perfume nascer assim?”) Começo a chorar. Seguida das lágrimas, a gargalhada. Choro e rio compulsivamente, feito alucinado. E é assim que as pessoas que passam atrás de mim, na calçada, devem me ver: um alucinado que chora e ri ao mesmo tempo, sabe-se lá por qual razão. Não há razão. Há beleza. E graça. É o mais fundo que já pude chegar na vida.

3.

Homem adulto, sozinho, as duas mãos cobrindo o rosto. Chora, soluça. Balança a cabeça, não tira as mãos espalmadas da face. E chora, soluça. No ambiente, só a voz de Caetano, em “Cajuína”.


Acompanha a farfalhada niusleter? Que tal apoiá-la? Você pode fazer uma contribuição espontânea ou recorrente, em qualquer valor, via PIX, através do código QR abaixo. Ou, de forma contínua, através do Apoia-se, clicando aqui.

A farfalhada niusleter é o meio mais livre e satisfatório por onde espalho, na internet, meus escritos fragmentários de muitos temas e tons: dos arranhões filosóficos e políticos baseados, quase sempre, no debate sobre civilização e ecologia, aos meus haicais, haibuns e zuihitsus da vida cotidiana.


Abraços e até a farfalhada #125,
Felipe Moreno

>>> Leia as niusleteres anteriores <<<
>>> Instagram: @frugalista <<<

Don't miss what's next. Subscribe to Farfalhada niusleter:
Older → Diário fraturado: dos dias em que estive, mais uma vez, com o pé quebrado
Instagram
Powered by Buttondown, the easiest way to start and grow your newsletter.