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July 6, 2026

Elogio à decadência


Soterradas todas as transcendências, restará o progresso, transcendência concreta. A civilização que matou seu deus terminou presa à metafísica infernal de uma avanço inexorável, sem hesitação, faminto e furioso. A transcendência passada, teológica, apesar das inúmeras agruras, ao menos nos privava dessa bitola neurótica que, à força, desesperadamente, só pode nos empurrar adiante, na ilusão de linha contínua e na velocidade que devasta a biosfera e perturba qualquer mamífero.

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No outdoor verde e amarelo, venceram o limo, os líquens, a maresia, a opacidade. O sorriso ultraclareado do dono da Havan enrugou, a careca lustrosa craquelou.

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Alegria pela constatação de um progresso falhado, um progresso que se retirou. O contentamento pelo tempo moroso, quase parado, mais propenso ao tédio que à estimulação. A sensação de um tempo áspero, friccional.

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muito velha e só
a bengala descansando
olhos na lagoa

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Onde o progresso alcança suas garras, tudo que tem a natureza do rústico é suprimido ou exterminado. No terreno com casa de madeira, cujos proprietários, dona Maria e seu Pedro, vendiam frutas da horta na beira da avenida, com plaquinha de preços escritos a giz, logo foi devorado pelo empreendimento de alto padrão, caixas cinzas de cimento, vulgo apartamentos, com extensa garagem, um amontoado de carros SUV, seguranças no enorme e blindado portão de entrada.

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Precisamos de um milênio de uma civilização profundamente enraizada nas práticas do ócio e do convívio sem fins produtivos para compensar os últimos dois séculos da mania coletiva pelo labor pesado.

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sol de inverno —
demoradamente o homem
beija seu cachorro

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Religioso das paisagens — da calçada suja ao céu estrelado, pois o haicaísta não faz distinção —, o que me fascina nas paisagens não é o choque à primeira vista, mas o contrário: é a repetição do olhar treinado às mesmas paisagens, ascese dos olhos.

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Tanque robusto, o progresso atropela toda linguagem artesã, agride a ternura. Pescadores das varas simples, gaivotas circulantes: perdão. A luz devoradora do desenvolvimento lhes deve o bom sustento e toda paz e beleza roubados. Píer de madeira carcomida, tijolos expostos de velhas casas tombadas: obrigado. Nossa decadência é refúgio, porto seguro, colo quente imunizados do vírus dessa aceleração aversiva às naturezas morosas.

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paralelepípedos —
entre eles, gelado, o limo
e meu calçado

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A decadência desta cidade — onde o progresso desertou — combina melhor com as penas ferrugens do bando de pardais.

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Em comum, entre meus mestres de haicai e eu, ao menos isto: a orfandade, a solidão, o enfrentamento das dores, o amor pela delicadeza.


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A farfalhada niusleter é o meio mais livre e satisfatório por onde espalho, na internet, meus escritos fragmentários de muitos temas e tons: dos arranhões filosóficos e políticos baseados, quase sempre, no debate sobre civilização e ecologia, aos meus haicais, haibuns e zuihitsus da vida cotidiana.


Abraços e até a farfalhada #122,
Felipe Moreno

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