Conheci a BIG|Brave por um completo acaso. Tava caçando torrent novo (um hábito diário de procurar lançamentos há mais de uma década) e li “drone/doom”. Não tenho motivos pra não tentar, então encarei a aventura.
In Grief or in Hope é o décimo álbum de estúdio do quarteto canadense, e o que mais chama a atenção são os vocais de Robin Wattie, que para alguns vão lembrar a voz da cantora Aurora, ao mesmo tempo com um toque infantil, agudos, dissonantes do que costumamos entender por “música de verdade”, mas combinando com o instrumental denso, cheio de distorções e graves da banda, um Drone/Doom Metal bem marcado, mas que é vendido pela banda como algo experimental (pra ouvintes de Sunn O))) não vai fazer tanto sentido assim).
Na hora que acabei de escutar o disco, que tem um pouco menos de 45 minutos de duração, fui atrás do resto da discografia, que ainda conta com um EP, e descobri que já havia escutado o Vital, disco de 2021, no ano do lançamento mesmo, mas que não me chamou a atenção na época. Peguei o A Gaze Among Them, de 2019, na sequência e percebi que os discos tem uma similaridade impressionante, mesmo com sete anos de intervalo entre eles.
A partir daí eu resolvi escutar o restante na ordem de lançamento: Feral Verdure, o EP, de 2014, Au De La (2015), Ardor (2017), Leaving None but Small Birds (2021, com o duo disparunidense The Body), Nature Morte (2023), A Chaos of Flowers (2024) e OST (2025). Segue um resumo de cada disco:
Feral Verdure (EP) (2014)

Logo de cara encontramos algo que não parece um EP: 33 minutos divididos em oito faixas, o que da pra considerar quase uma demo. Na primeira faixa, Tussles, os vocais de Robin se destacam sobre um instrumental leve, ainda que com uma boa dose de distorção, o que se mantém ao longo de todo o EP. Em A Song for Foxes fica evidente o que a banda vende como experimental, com o rompimento do que é considerado clássico no estilo e se destacando dentro de um álbum que tem pouco mais de quatro vezes o tamanho da música.
Já perto de encerrar o disco, A Song for Marie é uma música mais tradicional, com uma forte distorção nas guitarras e um drone marcante. Mesmo sendo longo para um EP, as oito canções apresentam muito bem a banda e trazem um som que é, ao mesmo tempo, respeitoso com o tradicional e inovador em elementos de destaque.
Destaques: A Song for Foxes, There Are no Victories Only Burning Flags and Fallen Men
Nota: 7/10
Au De La (2015)

A mudança do EP para o debut é óbvia nos primeiros acordes. Este álbum conta com músicas mais longas, a maior com 13 minutos, e uma estrutura de som mais densa, como se a equalização desse mais palco para o som, deixando tudo ligeiramente mais distante (aqui é importante ressaltar que eu peguei todos os discos em lossless) e etéreo. Já a música do.no.harm.do.no.wrong.Do.No.Harm.Do.No.Wrong.DO.NO.HARM.DO.NO.WRONG tem uma atmosfera que lembra vagamente alguma coisa do Emocore oitentista, um toque de Screamo aqui e ali, uma aura de Diamanda Galás, meio Nebelhexë, assim, destacando mais uma vez o que o quarteto tem de experimental, mas ainda sem perder a essência das guitarras sobressaindo e da bateria muito bem marcada ao longo de toda a faixa, que poderia ser mais longa, inclusive.
Destaques: do.no.harm.do.no.wrong.Do.No.Harm.Do.No.Wrong.DO.NO.HARM.DO.NO.WRONG
Nota: 6,5/10
Ardor (2017)

Com quase quarenta minutos de duração divididos em três músicas, o segundo álbum reforça a força dos vocais para a banda, fugindo dos guturais, drives e das distorções, mas também sem cair no lírico de outros estilos. A voz de Robin Wattie casa bem tanto com o estilo mais Doom da banda quanto algumas bandas de Indie Rock, ainda que pareçam estilos muito diferentes, mas não é o suficiente pra deixar algo de marcante. No fim, passa longe de ser ruim, mas não convence.
Destaques: Lull
Nota: 6/10
A Gaze Among Them (2019)

Com uma pegada mais Martial, Muted Shifting of Space abre o disco de forma genial. É pesado, etéreo, reflexivo, e impressionantemente denso. O destaque do álbum é a bateria que, ao contrário dos anteriores, é lenta e vai ditando o ritmo de todo o conjunto como uma régua absoluta.
Destaques: Muted Shifting of Space, Body Individual
Nota: 8/10
Vital (2021)

Vital tem um som mais aberto, em contraste com seus antecessores. A distorção é presente e quase palpável, vibrando junto com os vocais, que seguem sendo o destaque principal, e constrói o ritmo do álbum num clima de alta densidade, mesmo com o som aberto, o tipo de coisa que deve ser incrível de ouvir ao vivo. A impressão que perdura os quase quarenta minutos de audição é que um sintetizador está fritando sem parar no seu ouvido, mesmo que a banda não tenha utilizado um em nenhuma música.
Destaques: Half Breed, Vital
Nota: 8,5/10
Leaving None but Small Birds (2021)

O primeiro (e até agora único) disco feito em parceria com outra banda, se inicia com Blackest Crow, uma espécie de Southern Rock que gradualmente vai ganhando contorno e mostrando características diferentes. Somente em Hard Times, terceira das sete músicas do álbum, começamos a ver um pouco mais do instrumental de BIG|Brave e menos de The Body, o duo de metal experimental com quem Leaving None but Small Birds foi composto, mas ainda de forma leve, sem tanto da densidade sonora característica da banda, no início, e gradualmente tornando-se uma espécie de interlúdio country-apocalíptico digno de alguma série como Fallout ou Silo. As próximas duas canções tem zero peso, e dão ainda mais destaque para os vocais de Robin, que ficam mais claros e fáceis de entender em meio ao instrumental, seguidas por outras duas que tem muito mais a cara da banda, incluindo um teclado com distorção na última faixa que deixa um ar de “e se?” pro futuro da discografia.
No fim, acho que a ordem das músicas poderia ser alterada para um aumento gradativo de peso, evirando o vai-e-vem sonoro (que não é ruim).
Destaques: Blackest Crow, Hard Times, Black is the Colour
Nota: 8,5/10
Nature Morte (2023)

Carvers, Farriers and Knaves abre o sexto volume da discografia com sons mais metalizados, uma estridência acompanhada inclusive nos vocais. O som vai gradualmente ficando mais denso, e My Hope Renders me a Fool é a típica faixa moedora de cérebros dos Drone/Doom, mesmo com o último minuto sendo um carinho nas sinapses que sobraram. O destaque fica pros momentos de calmaria, que casam muito bem com a violência predominantes do álbum, que poderia ser um pouco mais longo.
Destaques: My Hope Renders me a Fool
Nota: 9/10
A Chaos of Flowers (2024)

Provavelmente o mais “diferentão” da discografia, conta com um estilo que ainda é identificável com a banda, mas lowtempo, quase como se fosse uma demo experimental ou um projeto paralelo, o que nem Leaving None but Small Birds pareceu. Esse é o segundo disco do tipo “não é ruim, mas não convence”, o que é um pouco estranho pra um álbum lançado quando a banda tinha dez anos de carreira.
Destaques: Theft
Nota: 6/10
OST (2025)

Correndo o risco de ser repetitivo, ESTE SIM é o disco mais diferentão. As músicas são praticamente instrumentais, com alta dose de experimentação, e soam mais como um desafio do que como um álbum de estúdio. Apesar de não gostar de publicar algo com esse tipo de comentário, esse foi o único álbum que não gostei e acho totalmente dispensável, mesmo não achando as músicas completamente ruins, só não representam a banda.
Destaques: não tem.
Nota: 2/10
In Grief or in Hope (2026)

O primeiro disco que ouvi da banda, e o que me chamou a atenção pra ir atrás da discografia. Comparando com o resto, tem um ar um pouco mais moderno, uma pós-produção um pouco melhor e menos experimentação que seus antecessores. Os efeitos no vocal tornam isso evidente, e com o instrumental mais pesado da discografia, a atmosfera tá pronta, é o álbum pra quem, gosta de sujeira mesmo, e ter ouvido ele primeiro me fez ter uma opinião diferente sobre a banda. Finalizando a discografia (até o momento) da melhor forma possível.
Destaques: A Shape of Shame, Verdure, Skin Ripper
Nota: 8,5/10
Enquanto no começo da carreira as letras pareciam formar um discurso com uma ideia ou mensagem, gradualmente passam a ser povoadas de metáforas, de ideias abertas e incompletas, retornando às narrativas completas. A Chaos of Flowers, que conta com trechos de poemas como partes das letras de mais da metade das músicas, é uma exceção.
No geral, é o tipo de som que não vai agradar a maioria dos fãs de metal, quem dirá das pessoas no geral, mas que deve chamar a atenção de um público bastante específico, a galera do Drone/Doom, do Sludge/Doom e de alguma coisa de Post-Metal. Se você tá na indecisão sobre ouvir ou não, pega uma garrafa de vinho, apaga a luz, e vai:
Pra saber mais:
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