As Crônicas de Astolfo: A Última Caminhada
A primeira história de Astolfo, finalmente online
1
Astolfo já estava cansado da viagem. Faltava quase meio dia de caminhada para chegar na cidade e… basicamente descobrir o que ele teria que fazer ali. A pontada de arrependimento voltava a cutucar seu estômago por dentro. Por que diabos tinha aceitado aquela missão? Ele era um grande guerreiro, sim, famoso em uma boa parte do território. Astolfo, o Destemido, era como o chamavam àquela época, mas aquilo já era demais. Estava mais do que acostumado a caçar leões, búfalos e pequenos animais mágicos. Em alguns casos nem utilizava sua armadura para capturar e derrotar dragonetes, kobolds e afins. Tinha uma boa reputação na eliminação de wyverns, apesar de geralmente não lutar sozinho contra esses, agora um dragão!? O que faria contra um dragão? Dragões eram seres temidos há eras, criaturas assassinas, extremamente inteligentes e GRANDES! Um dragão tinha o que, uns 50 metros de altura? Isso era absurdo!
E por que logo ele, logo naquela vila ao Norte distante, frio e vazio? As árvores em volta da estrada mal tinham folhas penduradas, ele não via um animal há dias e suas provisões estavam acabando, o vento não dava um segundo de trégua e suas roupas estavam congeladas por baixo da placa de peito amassada, resultado de inúmeras batalhas em terras mais quentes. “Tudo vai se resolver quando chegar lá”, disse seu contratante, um mago baixinho e aposentado, de aspecto suspeito e etéreo, com roupas bufantes de um azul brilhante, que viajara todo o caminho até o Sul em busca dos melhores guerreiros que pudesse encontrar. Todos recusaram a missão, todos exceto Astolfo.
O que ele faria quando encontrasse o dragão!? Diria “Por favor, ó honorável senhor dragão, poderia, por obséquio, sair da vila, por favor? Os moradores estão assustados com vossa magnânima presença”? Por que diabos tinha aceitado aquela missão mesmo? Quinhentas peças de ouro, quinhentas! Sua vida valia tão pouco assim? Era hora de desistir e voltar para casa, poderia dizer que, quando chegou na vila, o dragão já tinha destruído tudo, queimado a maior parte das casas e estava comendo os corpos que sobraram. Um leve toque de morbidez deixaria a história toda plausível, perfeita para livrá-lo do trabalho impossível e manter sua reputação intocada. Até voltar o dragão certamente já teria atacado a vila, se é que ainda não o havia feito. Doze dias de viagem para desistir nos últimos quilômetros… Sério mesmo, Astolfo?
— Ei! Guerreiro, quem é você? — O grito quase não se fez ouvir em veio ao vento forte, saindo de algum lugar no meio das árvores de galhos retorcidos na beira da estrada.
Estacou, ainda distraído em meio ao planejamento de sua fuga, agora frustrada, para o Sul.
— Erm… Ast, meu nome é Astolfo.
— Astolfo, o Destemido!? — A fonte da voz vinha do alto, como se fosse a própria floresta a interrogá-lo.
— Claro! Eu mesmo, Astolfo, o Destemido!
— Graças aos deuses você chegou! Estávamos preocupados que o velho mago tivesse morrido no caminho e não encontrado ninguém. — Duas figuras estavam se aproximando, a que falava tinha saído do alto de uma árvore, a outra tinha surgido de um monte de neve onde estava enterrada, do outro lado da estrada.
— E vocês são…?
— Dimitri e Bilivri, senhor, somos parte da equipe de segurança da vila. Fomos nós que avistamos o dragão chegando. — Peito estufado, queixo para o alto. Dimitri, o da árvore, parecia orgulhoso em ter se tornado o arauto de todo o caos e pânico que a vila tinha passado, mal sinal. — Venha comigo, senhor, vamos para a vila imediatamente! Bilivri, corra lá e avise que estamos chegando, por favor.
Crianças, a cada passo parecia que se tornavam menores, duas pequenas figuras magras, com grandes capuzes contra o frio e nenhuma forma aparente de se defender. Os dois pareciam ter pouco mais de dez anos, sua altura mal ultrapassando a cintura do guerreiro.
— Erm, hmm… Dimitri, por que não vai você na frente e avisa a todos da minha chegada? Eles certamente vão perguntar sobre o que você viu e pode ir contando à eles enquanto seu amigo me mostra o caminho. — Não funcionaria, ele não era tão tolo assim. Certamente teria que passar as próximas horas caminhando no terreno duro com um mudo e um falador insaciável…
— Claro! Vou já avisá-los! Imediatamente! Certamente terá tudo pronto para matar o dragão assim que chegar, senhor!
Ah, não, certamente não teria, Dimitri, certamente não teria. Mal teve tempo de suspirar antes de responder e o outro já estava correndo pela estrada, no que parecia ser a direção da vila, aproveitando o solo duro para ganhar impulso. Ele e o outro começaram a caminhar após alguns segundos. Quer dizer, ele começou e o rapaz foi meio passo atrás dele, sempre do lado direito, como se quisesse proteção, ou como se estivesse desconfiado de alguma coisa.
— Erm, Bilvre, certo?
— É Bilivri, senhor, obrigado por perguntar.
Droga! Acabaram de ser apresentados e não conseguia nem acertar o nome do rapaz, que vexame!
— Tudo bem, senhor, quase ninguém acerta de primeira, não precisa ficar com essa cara. — O sorriso no canto da boca era visível por baixo do capuz, assim como a falta de um dente.
— Que cara? — Agora essa, teria feito alguma cara?
— Essa que o senhor está agora, de dúvida. “Será que eu fiz algo errado?” — Citando minhas palavras não ditas com as mãos.
Agora que olhava atentamente para o rapaz, ele parecia bem diferente de sua primeira impressão. Por baixo do capuz de couro via-se uma mecha ruiva, bastante longa para o cabelo de um garoto, e ele mancava da perna esquerda, a que ficava mais próxima do seu corpo. Bilivri tinha mais segredos do que deixava escapar à primeira vista.
— É que não estou acostumado com os costumes do Norte, — disse, orgulhoso — não reconheço bem os nomes e me perco nas paisagens. Vocês não têm animais por aqui?
— Estamos sendo seguidos por um bando de lobos, senhor, foi através do cheiro deles que eu e Dimitri o encontramos. — Astolfo deve ter feito outra de suas caras. — Não os tinha percebido? — Seu olhar de espanto seria hilário, não fosse o papel de bobo que Astolfo estava passando em poucos minutos de conversa.
— Ah, sim, claro que eu havia os vis… olha, quer saber? Não, não havia visto nenhum lobo. Se tivesse, teria caçado alguns para comer no jantar de ontem, garanto que tenho a fome necessária para devorar um ou dois lobos sozinho. — Além do frio, do cansaço e da fome, estava passando vergonha na frente de um pirralho atrevido o suficiente para rir da sua cara, que vergonha, Astolfo...
A gargalhada que se seguiu foi espantosa, fazendo com que Bilivri se sacudisse e caísse de bunda no chão, como se a neve e a ameaça dos lobos não fosse algo com o que se preocupar, apenas mais uma característica do cotidiano nas terras do norte.
— O-o que foi, rapaz?
— Você não faz a mínima ideia do perigo que está correndo, né? O grande Astolfo, o Temível…
— Destemido.
— Que seja, o guerreiro de maior fama no país, perdido no meio da floresta, rodeado por lobos e indo em direção ao dragão. Você sequer já viu um dragão antes? — O brilho questionador naqueles olhos claros como a neve misturava zombaria e esperança como apenas o olhar de uma criança poderia carregar.
Não estava preparado para aquilo, decididamente não estava. Um pivete, não tão jovem assim, mas ainda um moleque, estava zombando de sua cara? De um dos maiores guerreiros que o mundo já havia visto? Decididamente não estava preparado para aquilo.
— Não, não vi nenhum dragão, jovenzinho, e isso não importa. Já enfrentei incontáveis perigos, dos mais variados tamanhos, cores e até em lugares mais frios do que este aqui. Dragões não são nada mais que wyverns com asas e que sabem falar. Um pouco maiores, talvez, mas nada além disso.
— Você realmente não faz ideia… — A cara de riso se transformou em um olhar de espanto mais rápido do que ele teria conseguido dizer “wyvern”.
E é claro que não fazia ideia, ninguém fazia. Dragões eram criaturas lendárias, em raras oportunidades tínhamos notícias deles, e em todas elas não havia sobreviventes para contar a história em detalhes. As únicas informações disponíveis é que eram imensos lagartos alados, que cuspiam fogo e falavam, além de, aparentemente, serem imortais. Os “imorríveis”, como Astolfo costumava chamar os seres mágicos extremamente poderosos e pouco conhecidos, como os dragões e os gigantes. A cada passo em direção ao Norte se arrependia de ter aceitado a missão, e a cada novo passo após o encontro com a dupla de seguranças mirins se arrependia duplamente. Havia perdido sua chance de fugir em segurança, e estava caminhando em direção à morte certa.
— Olhe, rapaz, — disse enquanto ajudava o pequeno a se levantar — eu não sou um especialista em dragões, mas acho que posso lidar com o problema, se tiver alguma ajuda.
— Eu duvido que teremos mais ajuda, senhor.
— Eu sei.
— Então…
— Não vou fugir da missão. Uma vez aceita, ela deve ser cumprida ou eu morrerei tentando! — Isso, Astolfo, falando como um verdadeiro guerreiro!
— Bonitas palavras, senhor, mas acho que morreremos tentando. Eu estava junto de Dimitri quando avistamos o dragão saindo das partes baixas do vale, era uma criatura gigantesca, cobriu o céu acima de nós por mais do que um breve momento. Suas escamas eram de todas as cores e brilhavam ao sol como pedras preciosas, parecia inteiro cheio de magia! — os olhos de Bilivri brilhavam com a exultação da lembrança — Vimos quando ele deu uma guinada para baixo, com tudo, sem nenhum tipo de aviso, e subiu com uma casa inteira entre as mandíbulas. Mesmo com toda a distância ouvimos os gritos vindos da vila e pensamos em fugir, ficamos igual a você agora, querendo desistir daqui e ir para o Sul, mas nossas famílias estavam, estão, em perigo, e portanto voltamos para lá e fizemos o melhor possível.
— E o que foi isso?
— O Conselho de Anciãos definiu quatro mensageiros para buscar ajuda. O primeiro tentaria contato com os exércitos do Norte em busca de qualquer ajuda possível, o segundo juntou uma pequena tripulação para velejar pela costa em busca de piratas e mercenários. O terceiro foi o que encontrou o senhor, que partiu em direção ao Sul em busca dos maiores guerreiros de que temos notícias, e o quarto foi atrás do dragão em busca de informações.
— E além de mim, quantos guerreiros vocês já conseguiram? — Havia esperança! Não lutaria sozinho contra aquele monstro!
— Bom, o primeiro não teve qualquer sucesso, o segundo teve os mantimentos roubados pelos piratas e voltou alguns dias depois por terra, sem parte da tripulação e o quarto nunca mais foi visto.
Merda.
— Ao menos terei a honra de morrer ao lado de um grande guerreiro, senhor.
— Não diga isso, Bilivri, por favor, não diga isso…
Era hora de tomarem a estrada novamente. Precisava chegar na cidade e descobrir como derrotar o dragão… Ou morrer no processo.
Após poucas horas de caminhada lenta, afundando as pernas até os joelhos nos montes de neve, que se tornavam maiores com a proximidade do lugar, a vila já era avistável dos pontos mais altos da trilha. Pequenas cabanas de madeira e peles, com uma fumaça acinzentada e fina saindo de um buraco no teto da cabana mais à esquerda, dois prédios altos do outro lado das cabanas, também de madeira, e um gigantesco vazio do lado direito, sem grama, neve ou quaisquer construções visíveis, apenas uma grande área de solo escuro e cheia de detritos. A visão desse espaço deixou Bilivri visualmente afetado. “Precisamos correr”, ele balbuciou, mas não disse em qual direção ou sequer se moveu.
— A vila parece bastante silenciosa daqui, não? Será que Dimitri conseguiu chegar até lá? Estarão esperando a minha chegada? — Mesmo após expor suas inseguranças frente a seu jovem companheiro, o orgulho ainda não tinha abandonado o peito de Astolfo.
— Talvez… talvez não haja mais ninguém na vila, s-senhor. — Bilivri abaixou a cabeça e, com quase toda a certeza, começou a chorar silenciosamente.
— E por que diz isso, rapaz? Não é uma criança brincando ali perto do descampado?
Bilivri imediatamente levantou a cabeça, e a visão da pequena figura trouxe um sorriso tímido aos seus lábios, um sorriso tão quebrado quando os sulcos de sujeira que as lágrimas deixaram ao escorrer por seu rosto infantil — Aquilo não era um descampado da última vez que o vi, senhor, era um misto de armazém e taverna, onde nos reuníamos todas as noites para conversar e passar o tempo. Parece que precisaremos de um novo passatempo…
Sem falar mais nada, os dois avançaram em direção à vila, ou o que quer que tenha sobrado dela. Os dois pensavam a mesma coisa: a ausência de um edifício tão importante só podia significar uma coisa: o dragão havia visitado o local e tudo, tudo mesmo, poderia ter mudado desde então. Astolfo imaginava a cena, um lagarto com dezenas de metros de altura pousando na beira da floresta, avançando em direção à taverna e obliterando-a com fogo, garras, dentes e uma cauda gigantesca. Corpos queimavam, pessoas corriam em todas as direções, o cheiro de desespero e de cabelos queimando de suas memórias provocou uma sequência de calafrios por todo o seu corpo. Algumas lembranças eram mais reais que outras, e essa era uma que ele gostaria de deixar enterrada no fundo de sua mente.
— … e então avistamos os destroços do alto da colina de Aviltar. O que aconteceu, afinal? — Estavam frente a um grande grupo de habitantes da vila que o olhavam fixamente, alguns com desconfiança, a maioria com esperança. Ele era Astolfo, o Destemido, afinal, e Bilivri já deveria ter feito as apresentações enquanto ele divagava em seus pensamentos. Mais uma rodada de nomes errados e desculpas esfarrapadas pareciam iminentes, ele precisava prestar mais atenção nisso, era um herói, “o” herói. Daquelas pessoas, pelo menos.
— Caros cidadão, não precisam mais temer! Sou Astolfo, o Destemido, e atravessei o país até aqui em seu auxílio. — Parecia bom, orgulhoso o suficiente e político na medida certa.
— Astolfo!? O caçador de wyverns?
— Esta é uma das minhas habilidades sim, caro senhor…?
— Droga! Sabia que não deveríamos ter mandado aquele velho paspalho em busca de heróis. Wyverns?! Todos sabemos matar um desses, nós nos alimentamos deles, afinal. Agora tem um dragão na nossa cola e ninguém capaz de enfrentá-lo! É isso, pessoal, peguem suas coisas, preparem suas famílias, teremos que partir daqui o mais rápido possível.
O clima não era nada amistoso. Não só o velhote que falara, mas também as pessoas à sua volta o estavam olhando feio. Logo ele, Astolfo, o único herói que veio em auxílio daquela gente. Precisava se posicionar, e rápido.
— Concordo que minha especialidade não são dragões, senhor…?
— Alekxo. — Seu bigode tremia, mal sinal.
— Senhor Alekxo, mas ainda assim vocês claramente precisam de ajuda, isso é nítido no olhar de vocês. E pelo que fiquei sabendo graças ao nosso querido amigo Bilivri aqui, eu sou a única ajuda disponível no momento, então vocês muito claramente precisam de ajuda, mesmo.
— Outros guerreiros vieram antes de você, Astolfo, e todos fugiram assim que souberam dos nossos planos! — Uma mulher ao fundo gritava. Baixa, ruiva, com braços do tamanho de troncos, provavelmente capazes de carregar um pilha de troncos de verdade.
— Outros guerreiros? O que houve por aqui até a minha chegada?
— É, mãe, como assim outros guerreiros? — Mãe? Agora que olhava para os dois com calma, as semelhanças iam além dos cabelos ruivos, até a forma de falar dela era parecida com a de Bilivri.
— Enquanto você e Dimitri patrulhavam as estradas do Sul, dois guerreiros vieram do Leste em dias diferentes. O primeiro deles mal quis terminar de nos ouvir. Assim que dissemos que planejávamos pegar nossas foices, machados e tochas e subir na montanha atrás do dragão, virou as costas sem nem dizer tchau.
— Vocês planejam ir atrás do dragão? Vocês são loucos!?
— E qual o seu plano, Astolfo? Pedir educadamente que o dragão se retire da nossa vizinhança, deixando a vila intacta? — O velhote estava certo, isso não funcionaria. E o tremelicar de seu bigode indicava que ainda não era um momento ideal para o diálogo.
— Ainda não tenho um plano definido, gostaria de ouvir sobre o outro guerreiro, por favor.
— O segundo topou a ideia, com algumas restrições. Apenas os homens mais fortes o acompanhariam até a montanha, armados com o que tivéssemos de mais afiado, e protegidos com o que servisse de armadura para cada um. Naquela noite perdemos a taverna e a maior parte dos nossos mantimentos. Os poucos homens que voltaram pela manhã estavam assustados demais para contar os detalhes, mas parece que eles acordaram o dragão, que comeu dois dos nossos na primeira bocada. Quando todos saíram correndo, ele alçou voo e começou a cuspir fogo enquanto voava em direção à nossa vila. Fomos pegos totalmente de surpresa e conseguimos correr em direção à floresta, mas poucos carregavam algo consigo. Após pisotear e queimar o que havia sobrado do prédio, o dragão virou para nós e disse, em alto e bom som, “Não estou aqui para machucar vocês, mas deixem-me em paz. Caso contrário, só tenho a desejá-los sorte.”
— E o que isso quer dizer? — Aquela história parecia inventada, por quê o dragão não havia arrasado a vila?
— Não sabemos, ninguém sabe, por isso temos que fugir o mais rápido possível! — Os bigodes do velho não mais tremiam, o medo o havia dominado, era hora de conversar.
— Vocês acreditaram no que o dragão falou? Afinal, ele não matou nenhum de vocês, né?
— Claro que não acreditamos, é um DRAGÃO! Um ser imortal, com a sabedoria de milênios num corpo enorme e muito poderoso, capaz de soltar BOLAS DE FOGO! Você é idiota, Astolfo? — A multidão estava claramente insatisfeita, a raiva brilhava nos olhos daquela gente, sendo alimentada pelo medo de perderem tudo, os punhos flexionados indicavam que faltava pouco para uma revolta violenta começar.
Ok, talvez a hora de conversar não fosse exatamente agora. — Claro que não sou idiota, só queria ter certeza de que vocês não caíram na lábia do lagartão, — intimidade com o perigo, isso, era o toque de confiança que faltava, Astolfo — portanto precisamos de um plano. Quem quer se aventurar comigo?
Nenhuma mão levantada. Sem pânico, alguém ia se posicionar. Em breve. Ele continuou a esperar. Os segundos foram passando e os olhares abaixando, duas pessoas até se afastaram do círculo de pessoas na entrada da vila. Era isso, ele estava sozinho. Sozinho para enfrentar um dragão que já tinha destruído parte do local e avisado explicitamente para ninguém mais se envolver. Que bela morte seria, caso ele…
— Eu vou!
Todas as cabeças se levantaram em um único movimento. A mão de Bilivri estava apontando para o céu, seu capuz caído para trás revelava os longos cabelos ruivos e os olhos claros, que o tornavam tão semelhante à senhora de fortes braços e tom bravo. Ao menos Astolfo não morreria sozinho, se isso fosse de algum consolo.
— Olha, Bilivri, você demonstra muita braveza em se oferecer para a missão, mas não acha que é muito jovem para arriscar a vida desse jeito? — Ele tinha que tentar dissuadir o rapaz, por mais que tivesse se afeiçoado pela companhia.
— Claro que é muito jovem, diga isso para ele, filho! — O tom de ordem se misturava com o desespero pela vida de seu filho.
A intensidade da troca de olhares entre mãe e a criança foi demais para todos suportarem, pouco a pouco as pessoas foram se afastando, enquanto o desespero daquela mãe crescia a cada passo dado em direção ao próprio filho. Por fim, só restavam os três tão próximos quanto era possível dado o grau de intimidade que tinham, e o velhote espreitando por trás de uma casa em reforma ali perto.
— Eu tenho que ir, mãe, é preciso — sussurrou.
— Não é preciso! — O grito foi estridente, ecoando pela floresta e atraindo o olhar do velhote — Há um herói aqui, e outros dois já vieram e já se foram! Não quero perder meu filho pela irresponsabilidade de um caçador de wyverns!
— Erm, tecnicamente eu…
— Cale a boca!
— Mãe! Eu conversei com o senhor Astolfo a maior parte do caminho até aqui e sei que ele não vai conseguir sozinho! Ele é totalmente incapaz disso, é atrapalhado e…
— Ei!
— Mas é verdade, senhor! Se não conseguiu nem perceber os lobos, como enfrentará um dragão?
— Como é!? Um herói que não consegue sequer perceber os lobos da região? — A raiva crescente daquela mãe fazia parecer que seu corpo estava a ponto de explodir, com os cabelos alaranjados lembrando perigosamente chamas descontroladas, capazes de derreter a neve ao redor deles num piscar de olhos.
Aquela conversa precisava acabar logo, ou acontecer em um lugar mais reservado. Havia um grave risco de reputações serem perdidas nos próximos minutos, então…
— Eu não vou me arriscar, nos arriscar, mãe. Só vou acompanhar o senhor Astolfo até o sopé da montanha, até conseguirmos ver onde o dragão está, e depois eu volto.
— E o que me garante que vai voltar vivo, Bilivri?
— Eu já voltei vivo uma vez, não é? Posso fazer o mesmo de novo!
— Você voltou sem parte de uma perna e com um dente a menos, filho, vai voltar sem parte da cabeça, dessa vez? — O desespero era evidente pelo som frágil daquela frase, uma súplica pela razão de seu filho em tentar manter a própria vida.
— Vai que o dragão acha que meus cabelos são fogo, aí eu consigo voltar inteiro. — O sorriso naquele rosto parecia irreal. Como o garoto queria ir até o covil de um dragão com tanta animação?
— Não consigo aceitar isso, jovenzinho. Vamos para casa agora conversar melhor sobre isso, e decidimos outro dia. Astolfo, a vila não tem mais uma taverna, então sinta-se convidado para passar a noite no sofá. — E não participar dessa conversa, imaginou ele, aceitando o convite da forma mais amável que conseguiu.
Era seu primeiro dia na vila, tinha sido desacreditado e quase humilhado em frente a um número grande de estranhos que dependiam dele para salvar seus lares. Seria bom se o dia seguinte fosse diferente, assim como seria bom ter mais ajuda, ajuda de guerreiros, exércitos e até magos, pessoas experientes em batalhas, e não apenas um garoto sem qualquer habilidade além da força de vontade. Mas antes de saber tudo isso, aquele dia precisava anoitecer e a madrugada precisava passar, e Astolfo precisava, muito, dormir.
2
O amanhecer ali no Norte era frio, frio de verdade. O inverno no Sul era uma lareira acesa numa noite de verão comparado àquela manhã, com um tênue clarear do céu por trás das montanhas e os últimos flocos de neve apostando uma lenta corrida em direção ao solo. O calor das chamas de um dragão não parecia uma ideia tão ruim naquele momento, naquela hora tão difícil antes do sol nascer e da vida aparecer para o mundo, mas essa não era uma opção. Não se via fogo, asas ou sequer um pedaço da cauda do dragão, não se ouvia o vibrar de uma respiração colossal, o piar de um pássaro ou a respiração dos habitantes da vila, apenas o som vibrante do aço da espada de Astolfo era audível, enquanto o herói oleava sua lâmina antes de uma possível batalha contra o ser ancestral. Não que ele teria qualquer chance contra um dragão, não, mas fazia parte de seu ritual antes de qualquer batalha. O som do tecido raspando no metal era reconfortante, o fazia lembrar de seu mestre, há muitos anos falecido em batalha, “com honra”, como ele dizia. Não que morrer numa poça de sangue, armadura e excrementos fosse honroso, mas ele entendia a ideia. Enquanto divagava em sua tarefa monótona, Astolfo encarava seu reflexo na lâmina. Olhos duros, marcados pela dor de incontáveis batalhas, assim como seu rosto, com pequenas cicatrizes e buracos onde anos antes a pele era viçosa e lisa como a de um bebê. Nunca tivera barba, e isso nunca foi um incômodo. Seus cabelos negros como a noite e desgrenhados como um arbusto desfolhado eram seu orgulho, o lembravam de seu pai, que o transformou no guerreiro que era, garantindo que sobrevivesse para receber a alcunha de “o Destemido”.
— Bom dia, senhor, acordou cedo. — Bilivri tinha surgido ao seu lado sem fazer qualquer barulho, como se tivesse saído do chão. Por pouco conseguiu segurar o impulso de saltar para longe, mas a espada tremia a centímetros do pescoço do garoto.
— Não faça mais isso, rapaz, nunca mais faça isso. — Pouco a pouco foi afastando a lâmina daquele pescoço fino, só de imaginar o sangue saltando e a cabeça rolando lentamente para o lado foi o suficiente para embrulhar-lhe o estômago.
— T-tudo b-bem, senhor, — os olhos arregalados revelavam seu susto mais do que qualquer outra coisa, mais até do que a parte escura da calça que aumentava por entre as pernas do jovem ruivo — não quis assustá-lo.
— O que faz acordado tão cedo, Bilivri?
— Eu estava indo ao banheiro, senhor. Acho que não preciso mais. — Astolfo não sabia se o garoto olhava para baixo por vergonha ou para avaliar o estrago em suas roupas.
— Bom, vá se trocar e volte a dormir, ainda falta muito para o sol nascer.
— Nós nos levantamos antes do sol aparecer no céu, senhor, os dias no Norte são curtos e nossos afazeres são muitos.
— Então se troque e vá cuidar de seus afazeres, preciso me preparar.
— Para enfrentar o dragão? — A curiosidade infantil se misturava com a audácia do começo da juventude, o brilho das histórias épicas vibrava através daquele olhar, o garoto tinha a aventura no sangue, e talvez soubesse disso.
— Para ir até seu covil, sim, para tentar entrar em contato com ele, talvez, mas não para enfrentá-lo, isso é impossível. Sinto muito dizer isso, mas a vila está perdida, nenhum homem neste mundo é capaz de enfrentar um dragão sozinho, nem um mago experiente sobreviveria.
— E você sabe como chegar até ele? Digo, até o que está chamando de covil? — a ansiedade era quase palpável por detrás daqueles olhos claros como a neve.
— O velhote raivoso, que parece ser um líder entre vocês, e sua mãe me disseram ontem à noite em que direção devo caminhar, não deve ser difícil.
— Eles estão errados.
— Como assim?
— Eles não sabem onde o dragão fica, o primeiro grupo errou o caminho.
— E um jovem da sua idade por acaso sabe mais do que um grupo de adultos escolhidos para a missão? — O garoto de fato tinha um desejo pela aventura, era claro como o sol da manhã nas terras do sul.
O olhar baixo o denunciava, sim, ele sabia mais do que aparentava, e talvez mais do que revelaria.
— Eu os segui por parte do caminho durante a missão, me afastei do grupo na primeira vez em que montaram acampamento, para discutir o que fazer. Resolvi imitar os batedores e varrer o terreno próximo, e foi assim que descobri um caminho que me levou diretamente até um conjunto de cavernas no chão próximo da montanha. Eu quase caí lá dentro, mas por sorte me assustei com um barulho e tropecei.
— E então? Como sabe que ali reside o dragão?
— No instante seguinte ele estava no céu, voando suavemente acima das árvores. Tudo o que eu senti foi um vento forte e lá estava ele, indo em direção ao acampamento dos adultos experientes.
— Você parece saber muito mais do que revela, rapaz.
— Sim, senhor, eu sei. — Ah, o orgulho, ali estava ele, tecendo suas teias desde o final da infância. Perigoso, porém promissor.
— E pode me indicar a direção dessas cavernas?
— Claro, senhor, sem dúvida alguma.
— E então? — Parecia que teria que arrancar as informações pouco a pouco, o rapaz tinha habilidade.
— Tenho apenas uma condição, senhor.
— Apenas uma condição. Bom, eu também as tenho, e a principal delas é que não o levarei comigo, não importa qual seja a sua condição.
— Bom, então boa sorte. Foi um prazer negociar com o senhor. — disse, virando as costas e andando em direção à casa. O garoto era um bom jogador, ah, se era.
— Espere, garoto, podemos discutir a questão. — Perdendo na primeira cartada, Astolfo? Onde estava o resto de sua reputação, já ignorada nessa região?
— Não vou levá-lo apenas até parte do caminho, você terá de lidar com minha mãe depois, se sobrevivermos, e sim, eu já preparei provisões para a ida. — Surpreendente, ele era bom mesmo.
— Tudo bem, então, quando poderemos partir? — Talvez conseguisse dissuadir o menino no caminho, e ele estaria de volta antes de sua mãe notar sua ausência.
— As bolsas estão embaixo da escada, pegue-as enquanto troco essa calça. Não saia sem mim, ou avisarei à todos que fugiu de medo do dragão.
— Não fugirei, te espero no fim da vila, próximo ao que antes era a taverna. — Não tinha jeito, o garoto sabia o que fazia e conhecia a região melhor que ele, agora sua vida e sua reputação dependiam de alguém com menos da metade da sua idade.
Enquanto se encaminhava ao local combinado, Astolfo aproveitou para observar melhor o povoado. Eles tinham um sistema precário de segurança, mas a vila fora construída de forma a ocupar a maior área possível, deixando caminhos amplos para o fluxo de animais e carroças, aproveitando as áreas rochosas para as construções mais altas e os pequenos e rasos vales para o que pareciam ser hortas comunais, agora totalmente preenchidos pela neve. Parecia um bom lugar para se viver, se não fizesse tanto frio.
— Estamos prontos, vamos por ali. — Novamente ele surgira sem fazer qualquer barulho. Ou Astolfo estava surdo, ou o rapaz tinha ainda muitos segredos a serem revelados.
— O que acontecerá quando sua mãe perceber sua ausência, Bilivri?
— Pode me chamar de Bill, senhor. E ela entrará em pânico, com certeza, acordará todo mundo e culpará o senhor pelo meu sumiço.
— Maravilha. Existe alguma forma de eu me safar com vida?
— Convença o dragão a nos deixar para lá e ninguém vai se importar com o meu sequestro, senhor.
— Sequestro!? Quem está sendo sequestrado sou eu!
— Boa sorte para explicar isso para minha mãe. Como um garoto de catorze anos seria capaz de sequestrar um dos maiores heróis do nosso país, sem nenhuma arma?
— Já te falaram que é muito inteligente para sua idade, Bill?
— Me diziam isso o tempo todo, senhor, até meu acidente com a perna, agora só me dizem que eu fui longe demais, que minha sede de aventura foi maior que minha esperteza, e por isso mereci. — Todo o brilho no olhar do garoto se esvaiu de repente, como se uma nuvem tivesse encoberto o sol de uma hora para a outra.
— E como foi esse acidente? Se não se importar em falar sobre isso, é claro. — Droga, o garoto estava completamente no domínio da situação!
— Não me importo em falar se você não se importar em ouvir. Temos uma longa caminhada pela frente e muitas reviravoltas no que eu chamo de “A balada de Bill, o menino que quase perdeu a perna”.
— Balada? Fez uma canção para narrar sua história?
— Não, balada não é um bom nome, eu admito, mas eu quase nunca tenho a oportunidade de contar essa história, então quis impressionar. — Aquele sorriso lembrava muito o Astolfo pequeno, que tinha o mesmo tino para aventuras, a mesma vontade de encarar o perigo e até um pouco mais de orgulho.
— Bom, vamos lá, conte-me sua história, já vi que não vou conseguir me livrar de você tão cedo…
— Com certeza não vai, senhor, eu te garanto, hahaha! Eu tinha quase doze anos, meu pai ainda era vivo e minha mãe não era tão amargurada, eram bons tempos aqueles. Estávamos no final do outono e nevava muito mais do que o esperado para a época, os magos da região não sabiam explicar o porquê de tanta neve fora de época, mas todos sabíamos que algo de ruim estava por vir, sentíamos isso nos ossos, sonhávamos todas as noites com algum desastre, com a perda da colheita ou com a morte de alguém. Nós, aqui do Norte, temos dessas coisas, sabemos quando algo ruim está para acontecer…
— Mas não previram o dragão.
— Não, não previmos, mas deixe-me continuar com a história.
— Claro, por favor.
Então, continuando, nós geralmente sabemos quando algo ruim está para acontecer, e não foi diferente daquela vez. Era um final de tarde quando ouvimos os gritos, eu e Dimitri. Já fazíamos pequenas rondas acompanhados por adultos que nos ensinavam o básico para caçar e também para sobreviver na floresta. Subimos nas árvores mais altas que encontramos e vimos fumaça saindo da vila, quase entramos em pânico, nos entreolhamos e tudo pareceu calmo novamente. Voltamos correndo por entre as árvores, utilizando as trilhas menos conhecidas, mas mais rápidas. Tão rápidas quanto perigosas, com buracos, raízes apontando para cima e tocas de animais não tão pequenos assim, mas naquele dia toda a floresta estava vazia, não haviam animais nos espreitando ou fugindo da nossa corrida desembestada por entre as árvores. Devíamos ter percebido isso, mas nosso foco era a vila e a fumaça que havíamos avistado.
Quase não vimos o tacape voando em nossa direção e por pouco Dimitri não foi atingido no ombro. Ao olharmos para o lado, vimos um orc dos grandes, mais apareciam atrás dele, lutando contra nossos pais, tios e vizinhos, essa era a causa da fumaça, uma invasão de orcs. Enquanto Dimitri pega o tacape eu avancei com uma pedra na mão, achando que poderia enfrentar o orc sozinho e ouvi meu pai gritando para eu fugir, para buscar ajuda. Foram as últimas palavras que ouvi de meu pai, é a última lembrança que tenho dele vivo, sua voz e o tom de medo e urgência nela. Queria ter olhado em sua direção, ver como estava e com quem estava lutando, mas o orc estava perto demais e eu estava entrando em minha primeira batalha, não tinha tempo para ser sentimental, precisava lutar por minha vida.
Não me lembro muito bem dos minutos seguintes, o orc me deu uma pancada tão forte na cabeça que o mundo virou um borrão por bem mais que um momento, o que poderia ter custado a minha vida, e essa foi a primeira lição que aprendi em batalhas, conheça suas armas e sua armadura, não esqueça delas antes de entrar em uma luta, não importa qual seja o inimigo. Acho que foi essa pancada que quebrou o meu dente.
— Tem certeza que aprendeu a lição? Não vejo nenhuma armadura com você. — O garoto estava com o mesmo capuz do dia anterior, que não aparentava ser uma boa proteção contra praticamente nada, exceto o frio.
— Não viu porque não entraremos em uma batalha agora, mas você está carregando minha armadura na mochila.
— O quê? Todo esse peso é culpa da sua armadura?
— Não, a maior parte é comida, mas me deixe continuar a história. — O garoto era decididamente bom, a cada minuto Astolfo gostava mais de sua companhia.
Dimitri conseguiu arremessar o tacape de volta no orc, e ele caiu sobre uma perna. Aproveitamos a oportunidade para pular em cima dele com pedras e nossos punhos. Um adulto correu em nossa direção e enterrou a espada no peito do orc, roubando nossa primeira morte em batalha e garantindo nossa sobrevivência. Dimitri recuperou o tacape e eu arranjei uma pequena espada no chão. Não era exatamente uma espada, era mais um pedaço de metal afiado com tiras de couro em uma das pontas, uma arma orc, e não das melhores. Lutamos pelo que pareceu uma eternidade, mas nos disseram depois que a luta não durou mais do que dez minutos, Dimitri e eu, ombro a ombro, contra um orc de cada vez, até sermos surpreendidos, ou melhor, eu ser surpreendido. Não sabíamos que orcs tinham boa destreza, nem que eram capazes de mirar, então quando senti aquela flecha passando rente ao meu rosto achei que fosse um dos nossos com uma péssima pontaria e voltei o olhar em sua direção. O tempo que levei olhando para o lado e percebendo que a flecha tinha sido disparada por um orc foi o suficiente para Dimitri ser derrubado e fincar a espada no torso de nosso oponente mais próximo. Quando olhei para baixo o bicho já estava com minha perna entre os dentes e minha reação foi enfiar minha “espada” o mais fundo que consegui na cabeça dele, o que funcionou muito bem para matá-lo, porém funcionou também bastante bem para arrancar uma boa parte da minha panturrilha e me fazer desmaiar de dor.
Acordei ardendo em febre na minha cama, no dia seguinte, com o curandeiro da vila olhando atentamente para mim. Perguntei o que tinha acontecido e ele disse que parte do pior já havia passado, que a vila ainda existia e quase não perdemos homens. A parte pior que ainda não havia passado era o resto da minha vida, que ele não achava que seria muito longa, e sem um pai, ainda por cima. O choque me fez desmaiar novamente, e quando acordei minha mãe já estava ao meu lado, chorando como se eu tivesse morrido junto com meu pai. Conversamos pouco sobre o assunto desde então, e aprendemos a viver só os dois em casa, eu me adaptando à vida de manco e ela à de viúva. O primeiro ano foi difícil, brigamos muito e eu tive que reaprender a fazer coisas básicas porque não tinha força suficiente em uma perna só. Minha mãe nunca mais foi a mesma depois que meu pai morreu. Gostaria que o senhor a tivesse conhecido antes, suas risadas eram contagiantes e seu humor era sempre bom, mesmo no auge do inverno, quando até sair de casa era uma luta contra as montanhas de neve.
— Gostaria de tê-la conhecido também, mas sei que agora tanto ela quanto você são mais fortes.
— Somos mais fortes por necessidade, não gostamos dessa vida de dificuldades o tempo todo, mas era isso ou morrer, e eu tinha sobrevivido à luta contra os orcs, tudo o que eu não queria era morrer!
— Bill, acho que preciso de um descanso, essa mochila está muito pesada e tenho fome. — Não adiantava tentar manter sua dignidade na frente do garoto, ele conseguiria ler sua expressão em poucos segundos e zombaria de mais uma de suas aparentes fraquezas.
— Vamos andar mais um pouco, senhor, há uma clareira ali em cima onde podemos comer e descansar as pernas, ainda falta mais da metade do caminho.
O sol já era visível acima da montanha, mesmo eles estando praticamente abaixo dela, então os habitantes da vila já estavam acordados e cuidando de seus afazeres, mas teriam notado a ausência de Bilivri? Será que Dimitri daria o alerta para a ausência do colega? As preocupações de Astolfo se dividiam entre o encontro próximo com o dragão e a fuga de Bill para uma aventura provavelmente sem volta, mas era difícil conversar com o garoto e tentar dissuadi-lo de entrar na caverna, ele parecia mais do que decidido em acompanhar o herói e, quem sabe, colocar seu nome na história.
Bill realmente tinha preparado mantimentos o suficiente para os dois, e dividido os pertences nas mochilas de forma que Astolfo carregasse a maior parte do peso, mas como teria separado todas aquelas coisas sem sua mãe perceber, e estando a vila quase sem mantimentos por causa do dragão, ainda era um mistério. A subida até as cavernas daquele ponto em diante era íngreme, sem trilhas ou rastros de humanos ou animais para serem seguidos, era o caminho mais rápido até o objetivo dos dois. Estava na hora de levantar, precisavam aproveitar o máximo de luz do dia possível para se aproximar do covil e montar acampamento, para então decidir o que fazer, e se fazer. Cada passo montanha acima parecia um passo mais pesado, arrastado, mais próximo da morte, mas precisava ser dado, e assim os dois foram brava, mas lentamente, subindo através de rochas, se agarrando em raízes e ajudando um ao outro nas partes mais difíceis. O garoto mostrou que tinha muitas habilidades, mesmo com uma perna ruim, e que conhecia a floresta como se fosse a sua casa, assim como um verdadeiro batedor deveria ser.
— Acha que estão preocupados com seu sumiço?
— Com certeza, senhor.
— E estão montando uma equipe para procurá-lo?
— Está com medo?
— Não, Bill, só estou refletindo. Você é um jovem muito promissor, com uma vida toda pela frente, não merece morrer amanhã.
— Acredito que não morrerei, senhor. Não sei porquê, mas tenho a sensação que ambos voltaremos vivos para a vila.
— Espero que sim, Bill, espero que sim… — O que Astolfo sentia não era medo, mas uma estranha angústia por estar colocando a vida de Bill em risco, sem conseguir enxergar qualquer chance de saírem daquela empreitada com vida.
Enquanto subiam numa pedra especialmente grande, Astolfo resolveu olhar para trás, em direção ao vilarejo de onde tinham saído naquela manhã. Parecia pequeno à distância, e vazio. Não se viam pessoas diminutas indo de uma construção para outra, tampouco animais nas ruas, ao longe o lugar parecia uma aldeia fantasma com suas casas ainda em construção e com aquele gigantesco vazio chamuscado em um dos cantos. O chamado de Bilivri o fez voltar a si, respirar fundo e continuar a subida, precisavam subir mais alguns quilômetros antes de poderem se abrigar e pensar no dia seguinte. Até lá, torciam para o dragão não resolver sair de seu esconderijo e encontrá-los no meio da subida. As horas seguintes seriam as mais longas daquele dia, e provavelmente as mais silenciosas, era o medo criando raízes e sufocando os dois pouco a pouco, quase preguiçosamente, tirando o calor do sol de suas peles e nublando seus olhos para o perigo.
Bill pediu para descansarem mais uma vez depois do almoço, sua perna doía muito e Astolfo não poderia carregá-lo por causa das mochilas. Quase não falaram durante a hora em que ficaram deitados, o menino de olhos fechados, com a respiração profunda, criando ideias mirabolantes para vencer o dragão em sua imaginação, o adulto olhando ora para as árvores, ora para o pico da montanha, onde a neve refletia a luz do sol. Levantaram quase ao mesmo tempo, pegaram as coisas e voltaram a subir sem falar nada, além do medo agora carregavam um sentimento difícil de discernir, uma apreensão que pode parecer tanto angústia quanto ansiedade pra que vê de longe, mas ambos sabiam do que se tratava sem precisar sequer olhar para o lado, era o sentimento enfrentado por qualquer soldado diante de uma batalha, diante da possibilidade de morrer, ou pior.
Quando o sol já estava se pondo atrás deles, Bill resolveu parar, estavam próximos o suficiente da entrada da caverna para chegar lá no dia seguinte, e longe o suficiente para não serem mortos de surpresa durante o sono. O rapaz tomou para si a tarefa de montar o acampamento, “de forma segura, como o senhor não saberia fazer”, garantiu à Astolfo, e assim o fez. Camas adaptadas nos galhos das árvores mais grossas, uma fogueira dentro de um buraco na terra, debaixo das árvores mais próximas do lado oposto às camas na clareira, suas mochilas penduradas em galhos altos, longe de predadores e possíveis ladrões, não que houvessem muitos ladrões naquela região, ainda mais depois da chegada do dragão, mas queria mostrar o que sabia. Quando finalmente sentaram no chão próximo a fogueira, com carnes espetadas em galhos próximos ao fogo, já era o começo da noite e quase nenhum barulho, além do crepitar dos galhos em chamas, podia ser ouvido.
— Quer montar turnos de ronda, senhor?
— Acha que é necessário?
— Não, mas é o que se faz geralmente em um acampamento.
— Entre morrer essa noite e amanhã pela manhã, qual a diferença?
— A diferença é estarmos cansado ou descansados, senhor.
— Vamos dormir, Bill, até amanhã.
— Boa noite, senhor, e cuidado para não rolar para fora de seu galho, a queda deve machucar.
Não foi uma noite fácil para nenhum dos dois, qualquer barulho era motivo para sobressaltos, as rajadas de vento faziam com que acordassem temendo a queda das camas improvisadas, o que fatalmente aconteceu à Astolfo quase no início da manhã. Aproveitando o acordar abrupto e a dor que se espalhava por sua cabeça, no ponto em que tinha batido no chão, foi pegar um pouco de neve das rochas para fazerem um café da manhã. Seu último café da manhã, acreditava ele.
Bill acordou com o cheiro da carne assando sobre um pedaço de pedra sobre o fogo. Apesar de não parecer, Astolfo sabia cozinhar em condições pouco favoráveis, e o tempo nublado dava sinais de que o dia seria de condições menos favoráveis ainda. Comeram novamente em silêncio, aproveitando cada pedaço de comida que podiam, sem desperdiçar um grama sequer. Precisariam de todas as energias possíveis para enfrentar o dragão, ou para fugir dele.
— Não podemos mais enrolar, Bill, temos que ir. — O tom de sua voz não era confiante. Além da ameaça de morte iminente, o frio e a fraca iluminação naquele trecho das montanhas eram um convite ao fracasso.
— Sim, senhor. — disse, levantando-se.
— Não vamos arriscar ser interceptados no caminho pelos aldeões, vamos marchar diretamente para aquele covil e fazer o que deve ser feito.
— Claro, senhor. — Bill já tinha sua mochila, bem mais leve agora, às costas e colocava os calçados.
— Chegaremos de surpresa, fazer o que viemos fazer e ir embora. — Tudo o que precisava fazer era continuar falando, proferindo um discurso confiante que, talvez, lhe desse a coragem de que precisava para seguir em frente.
— Certamente, senhor, mas você não precisa calçar suas botas antes? — O olhar inquiridor do garoto revelava o que era óbvio, Astolfo estava amedrontado.
— Sim.
— Levantar seria bom também, não?
— Sim, sim, Bill, você está certo, vamos lá, não podemos desistir agora. — Finalmente desligado de suas preocupações imediatas, Astolfo levantou-se e começou a se preparar. Ambos sabiam que suas chances eram mínimas, que estavam a poucas horas de seus últimos suspiros, e tentavam a todo custo não pensar no assunto.
No meio da caminhada, próximos de uma grande e disforme rocha esverdeada, ouviram um estrondo ao longe, como se fosse uma explosão. As árvores abundantes naquele trecho de floresta bloqueavam a visão de qualquer coisa atrás de si, então continuaram em frente, ainda mais quietos do que antes, até que as árvores começaram a ficar mais esparsas e o ritmo da dupla foi se reduzindo até um caminhar tranquilo.
— Qual será o nosso plano, senhor?
— Não sei, rapaz, realmente não sei. Não consigo pensar em nada que possa ser efetivo para enfrentar um dragão, não acho que conseguiremos convencê-lo com palavras e não temos riquezas o suficiente para tentar comprar sua lealdade, estamos perdidos.
— Talvez consigamos entrar na caverna sem ele perceber, e isso seria uma vantagem!
— Impossível. — O garoto era bom, mas a falta de experiência contava muito ali.
— Talvez não, se aquele barulho que ouvimos lá atrás era o dragão, ele está longe da caverna, já que não o vimos voando por aqui, e podemos entrar sem medo de sermos notados.
— E acha que ele não nos perceberá lá dentro quando voltar? Prefiro ter uma rota de fuga clara do que morrer dentro de uma caverna escura.
— Ficaremos escondidos próximos a entrada e o atacaremos assim que chegar!
Sim, e morreriam antes de perceber o erro que haviam cometido. Aquela frase fez Astolfo rir silenciosamente, balançando seu corpo alegremente enquanto segurava as lágrimas e tentava se concentrar na tarefa que tinham pela frente. Parecia que as rochas estavam chacoalhando com ele, inclusive aquela grande rocha verde que viram lá atrás e…
— Bill, aqui no Norte as rochas também sobem as montanhas? — O garoto não havia notado nada, nem a apreensão em sua voz o alarmou.
— Não, senhor, isso é ridículo. Está tudo bem?
— Ele não parece estar nada bem, rapaz. — Um retumbar baixo e grave os envolveu, arrepiando todos os pelos de ambos. — Parece estar com medo, agora que percebeu minha presença.
Ao olhar para trás, o olhos de Bill foram subindo até o céu, acompanhando o movimento ascendente de um pescoço longo, cheio de escamas, coroado com uma cabeça do tamanho de uma casa das grandes, cheia de espinhos, presas e escamas que, se os seus olhos não estivessem mentindo, mudavam de cor como se fossem mágicas. Um silêncio maior do que a soma dos silêncios do dia anterior pairou sobre eles, sombrio, profundo, mortal. Era como se a própria morte tivesse tirado suas vozes.
— Então, os dois não vieram até meu esconderijo para me caçar? Aqui estou, desarmado, indefeso, na frente dos dois, por que não me atacam? — O tom de zombaria não era engraçado, era uma ameaça mais forte que uma lâmina afiada, mais impactante do que a ameaça de serem queimados vivos ali.
As pernas de Astolfo falharam e ele caiu sentado. Ninguém além do dragão havia notado sua fraqueza, Bilivri estava de olhos grudados no monstro, hipnotizado por seu tamanho e presença física.
— Não me parecem muito heróicos, tampouco perigosos, pequeninos. Meu aviso para que não voltassem a me importunar não foi recebido por vocês? As mortes e a destruição que causei não foram alerta suficiente para saírem daqui? Ou vieram tentar negociar? Dois pobres humaninhos em busca de sobrevivência para sua cidadezinha nas montanhas, que fofo. Porém, caso ainda não tenham percebido, vocês perderam. Fujam enquanto há tempo, ou vocês e aqueles que ficaram lá embaixo se arrependerão.
De todos os cenários que Astolfo imaginara, aquele era o que menos fazia sentido. O dragão os havia seguido trilha acima, sem intervir, sem atacá-los e agora conversava com eles? Tinha algo de errado nisso e precisava comunicar isso à Bill sem que o dragão percebesse.
— Bom, parece que nossos planos foram frustrados mesmo, haha, estamos perdidos hein, Bill?
— Do que está falando, senhor? Ainda não morremos, podemos fazer algo!
— Claro, claro. Bom, senhor dragão, meu nome é Astolfo, o Destemido e este é meu amigo Bill.
— Astolfo? Aquele Astolfo?
— Creio que sim? Não conheço muitos Astolfos além de mim, senhor.
— Podem me chamar de Kreos. Então quer dizer que chamaram um dos heróis do reino para me enfrentar?
— Não apenas um, senhor, erm, Kreos. Outros estão a caminho!
— Não, não estão. Consigo ver isso em seu olhar, Astolfo. — Enquanto falava, Kreos abaixava sua cabeça ao nível do solo, sorrindo com as expressões de pânico da dupla que planejara enfrentá-lo.
Daquela distância podiam ver claramente cada escama da face do dragão, cada nuance de cor acendendo e se apagando como pequenas explosões de magia por baixo da pele. Era difícil olhar naquele olhos sombrios, era como olhar para dentro de um poço extremamente profundo e conseguir enxergar o seu reflexo lá no fundo. Ambos estremeceram com a proximidade daqueles dentes e Kreos bufou levemente, derrubando a dupla de costas no chão, como se tivessem sido estapeados por um gigante invisível.
— Vocês humanos nunca aprendem, sempre achando que dominaram o mundo e conhecem seus perigos. Acham que suas tecnologias e domínio da magia são suficientes para ultrapassar qualquer obstáculo, que seu grande número é capaz de derrotar quaisquer inimigos que possam aparecer, mas nada sabem do mundo. Nunca visitaram os céus, ou sequer foram muito fundo abaixo do solo, não conhecem o interior das florestas nem os mundos mágicos que se abrem nas dobras do mundo. Vocês correm muito mais perigo do que imaginam e desconhecem seus verdadeiros protetores. Talvez isso possa mudar, e talvez vocês sejam os primeiros a poder mudar isso, venham comigo. — Dito isso, o dragão levantou-se e caminhou em direção às cavernas onde Astolfo e Bill pretendiam chegar. Sem olhar para trás, sabia que os dois humanos o seguiriam, tinha essa certeza assim como sabia que não haviam mais heróis a caminho.
Chegaram timidamente à entrada da caverna e olharam para baixo. Um brilho lá no fundo indicava que algo pegava fogo e iluminava parte do trajeto de descida, que tomaram depois de um longo suspiro. Acabaram descobrindo que as chamas eram de troncos de árvores utilizados como tochas pelo dragão, que os esperava deitado confortavelmente nas rochas do fundo da caverna, bloqueando o que parecia ser um túnel que levava para dentro da montanha.
— Ainda bem que chegaram, já estava achando que tinham resolvido fugir. — O escárnio em sua voz era palpável. Apesar da amabilidade aparente, Kreos ainda era um inimigo.
— Por que não nos matou de vez, senhor? — Era a primeira vez que Bill se dirigia ao dragão, o que surpreendeu os outros dois.
— Porque não estou aqui para matar ninguém, simples assim. As únicas mortes foram provocadas para assustar, para tentar fazer com que vocês fugissem daqui, abandonassem o Norte, o mesmo motivo pelo qual destruí seu armazém. Sem mantimentos, vocês teriam que fugir, mas não contava com a teimosia de vocês, pequenas criaturas obtusas.
— Mas qual o objetivo de nos fazer fugir daqui? Tirando pragas eventuais, que sempre conseguimos derrotar, nunca foi um problema para nós ficar por aqui.
— O que você chama de “pragas eventuais” são habitantes deste mundo, tanto quanto vocês. Criaturas que foram expulsas de seus territórios pela ocupação do seu povo, que passaram a lutar para ocupar espaços perdidos em batalhas contra os seus exércitos, que caçam dos seus rebanhos porque vocês roubaram até sua caça! Dizem que os dragões são seres egoístas, mas são incapazes de olhar para a própria raça…
— Desculpe, senhor Kreos, mas ainda não compreendi porque quer que essas pessoas fujam daqui. — Astolfo estava mais calmo, iriam sobreviver aquele embate! Que histórias poderia contar quando voltasse para o Sul! Seria conhecido como Astolfo, Aquele que Derrotou Kreos, o Dragão?
— Vocês podem nunca ter percebido, — disse olhando atentamente para Bill — mas essas montanhas nunca foram um local seguro. Há muito tempo, antes de vocês virem para o Norte, ela era ocupada por uma seita de necromantes que gostavam de, digamos, experimentar coisas novas. Há uns dois séculos houve um grande ritual que provou a morte da maioria deles, exceto de seu líder, que assumiu um status reservado apenas aos dragões e gigantes…
— Havia um necromante imortal morando embaixo de nós esse tempo todo!?
— Havia sim, pequeno fogareiro, e ao longo dos anos ele foi recriando sua seita, dessa vez apenas com mortos vivos, utilizando os corpos de seus antigos colegas e seus novos poderes. A situação ficou insustentável, a arrancada de poder afeta o mundo mais do que vocês jamais poderão imaginar, e eu, como guardião da região, resolvi intervir. Após dias de enfrentamento no subsolo, finalmente consegui atraí-lo para longe das montanhas, e com a ajuda de alguns amigos erradicamos a presença daquele mal neste mundo.
— Então tudo está bem agora, não? Porque os habitantes do Norte precisam fugir?
— Porque, se você prestou bastante atenção no que eu disse, o necromante passou décadas recriando um exército de zumbis mágicos, e apenas o líder da seita foi banido da existência.
— Quer dizer que há um exército de necromantes abaixo de nós neste momento?
— Atrás dessa rochas às minhas costas, pra ser mais preciso. — Kreos falava isso como se não fosse nada demais, mas Astolfo e Bill conseguiam sentir um medo profundo se espalhando por suas entranhas. Não o medo de morrer ali, isso já havia sido superado, mas o medo de que seus corpos fossem utilizados como invólucros para soldados do mal após a sua morte, isso sim era terrível.
Eles pouco lembraram do resto da conversa, tão forte era o medo que tinham sentido, mas tinham cumprido sua missão, foram até o dragão e voltaram com vida, além de uma resolução bastante clara, restava saber como comunicar isso aos outros. Aproveitaram para voltar para a vila pelo caminho mais longo, utilizando o tempo extra para pensar em estratégia de ação para tirar todos dali o mais rápido possível. Kreos era muito poderoso, mas não aguentaria sozinho por muito tempo e eles não gostariam de estar ali quando a batalha de verdade começasse, ouvir a história já tinha sido ruim o bastante.
— Então, nós podemos relatar nossa conversa e tentar a migração assim que chegarmos na vila, o que acha? — A descida parecia mais leve, o vento frio parecia refrescar sua pele, ao invés de queimá-la, e a luz por cima do pico da montanha trazia a esperança de um novo dia sem mais ameaças de morte ou batalhas impossíveis.
— Não vai funcionar assim, senhor, o povo do Norte não abandona suas terras facilmente. Lutamos por muito tempo contra o frio e os animais para nos estabelecermos aqui, não sairemos sem lutar.
— Considerando que lutar é sinônimo de morrer, precisamos convencê-los, Bill, e só você pode me dizer como convencê-los.
— Daremos um jeito, senhor, fique tranquilo. — A dureza no olhar de Bill naquele momento era a idêntica a de sua mãe, a de um verdadeiro habitante do norte.
Nenhum dos dois notou o farfalhar do matagal próximo, não perceberam o par de olhos que espreitava por entre os troncos das árvores na parte mais baixa da estrada, e assim seguiram sem alarde, cada um pensando consigo mesmo o que fariam para convencer a vila de que a fuga era necessária e urgente. Em menos de uma hora o terreno tornou-se mais íngreme e encontraram a trilha utilizada pelo primeiro grupo para chegar até o dragão, um caminho de terra pisoteada ladeado por rochas de um lado, e por um barranco com árvores do outro. Foi só quando estavam totalmente cercados que notaram que algo de errado estava acontecendo, e já era tarde demais.
3
— Como pode fazer isso comigo, Bill? Eu confiava em você! Por que não me avisou que iria enfrentar o dragão?
Estavam cercados pelos moradores da vila, com Dimitri, em fúria, diretamente atrás dos dois. O garoto que ficou na vila chorava de raiva e frustração por ter perdido tal aventura, mas os adultos tinham somente raiva, raiva daquele herói que se aproveitou de sua hospitalidade e sumira durante a madrugada, levando consigo um dos pequenos habitantes da aldeia, deixando atrás de si um rastro de preocupação e medo.
— Nós podemos explicar tudo! Fomos para um amistoso encontro com Kreos e tudo deu certo, vejam só.
— Kreos é um de seus amigos? Não o vejo, Astolfo. Como tudo deu certo, se o dragão continua em nossas montanhas e nossas vidas continuam ameaçadas? Ou vai nos dizer que você e Bill mataram o dragão?
— É fato que o dragão permanece vivo e continuará nas montanhas, mas ele não os caçará, não se saírem daqui rapidamente!
— Uau, você levou todo esse tempo para nos passar uma informação que já sabíamos! Íncrivel, senhor herói, o que mais vai nos falar? Que o dragão é grande? Que ele voa e cospe fogo? — Fogo é o que eles tinham nos olhos, enquanto se aproximavam lentamente, fechando o círculo em torno dele e do garoto, que parecia tão confuso quanto ele.
A situação estava piorando rapidamente e precisava dar um jeito antes de perder totalmente o controle. Olhou para Bill, que ainda parecia magoado com as palavras de Dimitri, o que deixava tudo pior. Tinha que assumir o controle da conversa, e logo.
— Kreos, o dragão, esse é o nome dele, nos levou para dentro de sua caverna e conversou conosco, explicou o que está acontecendo e nos mostrou mais do que eu conseguiria falar aqui e agora. Por que não voltamos para a vila, nos sentamos ao redor de uma fogueira e conversamos melhor sobre isso?
— Por que não fazemos uma fogueira com seu corpo e deixamos que Bill nos conte o que houve?
— Bom, Bill tem toda a liberdade para falar, mas eu agradeceria se meu corpo continuasse inteiro. E sem chamuscados, de preferência.
Bill parecia estar saindo de seu estupor, caminhou em direção a Dimitri, que continuava com o rosto molhado de lágrimas, e abraçou-o. A cena foi o necessário para os ânimos se acalmarem e todos pararem com a agressividade, ao menos nas palavras. Astolfo foi rendido por dois adultos fortes e com carrancas de ódio, sendo conduzido na frente do resto do grupo. Enquanto era arrastado montanha abaixo, cruzou com a mãe de Bill, que o olhou com um misto de raiva e admiração, enquanto corria em direção ao filho. Levaram o resto do dia na descida, que para Astolfo foi rápida, ligeiramente cruel e difícil, enquanto que para Bill foi emocionalmente intensa, recheada de abraços e muito choro. Por algumas horas conseguiu se esquecer de sua aventura, de Astolfo e de Kreos, aproveitando o abraço da mãe e os socos eventuais trocados com Dimitri, que o culpava por não tê-lo chamado para ver o dragão.
Durante as horas que foi arrastado, chutado e xingado pelo grupo de aldeões impacientes, Astolfo pensou no que fazer, em como tentar mostrar para aquelas pessoas que a vida que tinham até então precisaria mudar, que muito estava em jogo, que a vida de todos ali não estava em xeque pela presença do dragão, mas que na verdade só estavam vivos por sua presença! Suas pernas doíam e sua cabeça latejava quando saíram da trilha das montanhas e reuniram-se onde antes ficava a taverna local. Quando o jogaram ao chão, ficou deitado olhando para as estrelas, cansado demais para se levantar, preocupado demais para conseguir fazer qualquer coisa além de respirar fundo e se preparar para uma longa e difícil noite.
Uma gigantesca fogueira foi acesa no espaço, parecia que os habitantes pretendiam iluminar a noite com a luz das chamas, como se isso pudesse afastar a presença do dragão, ou dos perigos que ele os protegia. Bill e Astolfo estavam separados por um nervoso muro de cabelos ruivos, que mal dava espaço para o filho respirar, e foi assim que começaram a contar sua história desde a conversa durante a madrugada antes de subirem a montanha. Bilivri só não tomou mais broncas por ter demonstrado uma extrema capacidade de sobrevivência e preparo, algo que aprendeu com seu pai e testou com Dimitri, segundo os garotos.
— E você não percebeu que UM DRAGÃO estava seguindo vocês dois? — A incredulidade estava estampada no olhar de todos. Era o fim de sua reputação como guerreiro.
— Mas nem eu vi!
— Quieto, filho! É hora do guerreiro se explicar. — O bruxuleio das chamas nos olhos claros da mãe de Bill pareciam chamas que ele tinha visto de perto muitos anos antes, numa aventura da qual saíra com vida por pouco. Precisaram chamar seu nome duas vezes antes que ele conseguisse se livrar daquelas memórias e falar.
— Não, não vi o dragão, e acho que teria como ter visto, com o medo que eu estava de encontrá-lo. Sim, tive medo, e ainda tenho, mas enquanto o tempo passa e a cada minuto estamos mais perto de um possível ataque de zumbis necromantes, vocês estão fugindo do assunto que deveríamos estar discutindo aqui. O que vamos fazer?
A maior parte das pessoas abaixou a cabeça ao ouvir essas palavras, ninguém queria pensar em abandonar o próprio lar, a terra que sempre os abrigou e que garantiu sua sobrevivência, mesmo nas épocas mais difíceis, mas uma cabeça manteve-se erguida, olhando diretamente para Astolfo. Além do círculo de pessoas, o velho mago o observava sem piscar. Sua presença não havia sido percebida por ninguém além do guerreiro, e por alguns minutos o silêncio pairou entre eles, num diálogo sem palavras que mais ninguém conseguiu perceber.
— O guerreiro está certo. — Sua voz provocou o sobressalto do grupo, em parte pela surpresa, em parte pela força. Todos pensavam no mago como um velho frágil, já sem poderes e com a sabedoria deteriorada pelo tempo. — Não temos como garantir nossa sobrevivência por aqui, não mais. Se um dragão está tomando conta da caverna, devemos agradecê-lo e sair daqui o mais rápido possível.
— Para onde!? Nós nunca vivemos em outro lugar, todos os que saíram daqui algum dia nunca mais voltaram, exceto por você, querido mago.
A discussão era inútil, não havia como tantas pessoas chegarem num consenso, não num espaço de tempo tão curto quanto o que tinham. Os mais jovens já dormiam no chão ou aos pés de suas mães e pais quando as vozes tornaram-se mais altas, com toques de violência. Parte dos adultos queria ficar, como verdadeiros habitantes do norte, preferindo manter sua honra e morrer em batalha do que fugir, outra parte tentava fazê-los visualizar que não havia honra em morrer para defender um vilarejo que não existiria mais, caso os inimigos vencessem. Antes da fogueira começar a esmorecer a mãe de Bill foi para casa, não valia a pena discutir algo que ela não apoiava. Sobrevivera a invernos o suficiente como mãe solteira para aprender a ser forte, e zumbi nenhum a tiraria de sua terra com vida.
Bill adormeceu aos pés de Astolfo, que pouco falou naquela noite, preferindo poupar suas energias para o início da manhã, quando pretendia decidir o que fazer, independentemente da decisão do grupo. Dimitri ainda ficou acordado mais um tempo, esbravejando com os adultos para se juntarem ao dragão e enfrentar o exército inimigo, o que foi o estopim para seus pais o levarem para casa, ainda que sob protestos. Quando o céu começou a ganhar cores fracas e a fogueira estava quase apagada, os últimos argumentos foram lançados já sem força uns contra os outros, e todos decidiram ir dormir. Em algum momento daquele dia uma decisão seria tomada, mesmo que a contragosto.
— Posso entrar?
— Claro, Astolfo, já estava indo mesmo procurar por Bill. — O garoto ainda não tinha acordado, e dormia entre os braços do guerreiro como se tudo estivesse bem. — Aproveite e durma um pouco, a noite não deve ter sido fácil.
— De fato não foi, nem um pouco.
— E decidiram algo?
— Não. Apesar de que todos estavam cansados demais para discutir e nas últimas horas não fizemos nenhum avanço nos argumentos.
Por fim o cansaço o venceu, e Astolfo adormeceu no sofá, de armadura e tudo.
Astolfo acordou assustado, com os cutucões de Bill. — Acorde, senhor, estamos nos reunindo na fogueira de novo, precisamos tomar uma decisão em breve.
— Já vou, rapaz, me espere lá com os outros. — O cansaço do dia anterior ainda não tinha abandonado seus ossos, mas precisava se levantar, sairia da vila no máximo ao por do sol, com companhia ou sem.
Nem todos os presentes da noite anterior estavam lá, parecia que parte deles não se importava com o que fosse decidido em conjunto, já tinham tomado sua decisão. O descanso não fez muita diferença para o ritmo da conversa, era como se eles realmente acreditassem que o volume das palavras fosse mudar algo, como se o grito mais alto tivesse o poder de mudar a opinião de um vizinho. Após uma hora de ataques sobre honra de um lado e sobrevivência de outro, Astolfo finalmente resolveu se posicionar.
— Eu não sou daqui, minha honra de guerreiro não pode se comparar com a de vocês, nativos do norte, duros de dobrar e teimosos como um burro velho. — Suas palavras não estavam conquistando os ouvintes, mas precisava dizê-las mesmo assim — Não me importo se vocês vão viver ou morrer, só quero minhas quinhentas moedas para poder tomar meu rumo e sair desta terra gelada. Se vocês tiverem apreço ao lugar, podem ficar e morrer por aqui, não faz diferença, mas se preferem viver e continuar a ter uma honra para ser mantida, há muitas cidades nos caminhos para o sul, onde vocês podem ficar, e lugares tranquilos que podem ser transformados em vilas, cabe somente a vocês decidir o que fazer.
Se o clima já estava ruim, a menção à recompensa não ajudou a melhorar os ânimos. A mãe de Bill, jogou uma bolsa de couro no chão e cuspiu em cima, sem falar mais nada.
— Apesar dos ânimos, aí está sua recompensa, Astolfo, e com ela nossos agradecimentos pela grande ajuda, o único guerreiro que resolveu nos ajudar não será esquecido por aqueles que sobreviverem. O cuspe não é por conta de todos nós, isso é apenas da conta de Ivana. — O sorriso no rosto do velho mago não escondia a diversão em ver seus conterrâneos agitados, isso era raro naquelas terras esquecidas.
— Ivana… Até então não me havia ocorrido perguntar o nome da mãe de Bill… Agradeço pelo pagamento, senhora, e mantenho minhas palavras. A decisão só cabe à vocês, mas aceitarei toda companhia que quiser ir em direção ao sul, inclusive a sua e a do rapaz, ele daria um incrível guerreiro com alguns anos de treinamento. — Ao ouvir isso, o pequeno aventureiro virou os olhos brilhantes em direção à mãe, como quem iria pedir permissão para sair com os amigos, e imediatamente abaixou a cabeça quando viu a carranca que o encarava de volta.
— Agradeço pelas palavras, Astolfo, mas nós continuaremos aqui, somos parte do norte e vamos defender nossas terras até a morte, seja ela como ou quando for.
Pouco foi dito além disso, o mago dispôs-se a acompanhar os adultos que iriam para a caverna do dragão, tanto para servir de porta-voz quanto para somar suas forças ao ser ancestral. Ivana puxou Bill pelo braço, arrastando-o para casa.
— Espere! Vou me despedir de Bill! — disse o garoto, soltando-se da mãe com um puxão do braço.
— Obrigado pela aventura, Astolfo, o Destemido! Para sempre lembrarei de nossas conversas e de nosso encontro com Kreos. Obrigado. — Ao aproximar-se para um abraço final com o herói, o garoto aproveitou para sussurrar — E isso não é um adeus.
Por fim, apenas um jovem casal e um mercador decidiram sair de lá, aceitando a companhia e proteção de Astolfo. Durante o tempo em que eles foram pegar suas coisas para a partida, o guerreiro ficou observando o vilarejo, os homens pegando as poucas espadas que tinha e adaptando ferramentas de plantio para uma batalha que estava perdida desde o começo. Se nem um dragão poderia parar os oponentes, por que aquelas pessoas gostariam de tentar? Suas vidas valiam tão pouco assim? Era difícil entender o que estava em jogo ali, ele era somente um forasteiro, sem informações e desacostumado com os valores do norte. No grupo que subiu para as montanhas haviam alguns jovens e mulheres também, ali no norte todos aparentavam ter nervos de aço. Astolfo só desejava sorte para eles, e que tivessem uma morte rápida.
O grupo, liderado por Astolfo, saiu da vila sem muitas coisas para carregar, se virariam no caminho até chegarem em uma cidade maior, onde poderiam se abastecer e contar suas histórias. Infelizmente o norte era teimoso, e muitas vidas seriam perdidas ali sem necessidade, com nenhum benefício além do orgulho de um grupo de pessoas que não viveriam para mantê-lo. Enquanto comentava de sua frustração para os colegas de viagem durante a caminhada, Astolfo foi surpreendido por um vulto ruivo saindo de uma trilha escondida ao lado da estrada.
— Finalmente encontrei vocês! Eu disse que não seria um adeus, não disse? — Aquele era, de fato, Bill, com a aventura no coração e o bom senso em algum lugar esquecido lá atrás. Astolfo o abraçou e prometeu que cuidaria dele, o que não foi bem recebido por Bill, mas que aceitou sem reclamar.
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