Os resíduos como uma nova forma de colonialismo na Ásia e na África
A exportação global de resíduos tem sido chamada de waste colonialism, ou colonialismo de resíduos, pois representa uma forma de exploração por países com um passado colonial sobre suas antigas colônias.
A busca por terras raras necessários para a transição energética é frequentemente considerada uma forma de neocolonialismo e hoje representa uma de suas manifestações mais evidentes, especialmente devido às suas implicações geopolíticas e econômicas. No entanto, existem outras práticas com uma estrutura neocolonial, menos visíveis, mas com consequências locais igualmente graves. Entre elas está a exportação de resíduos para a África e a Ásia por países ocidentais, especialmente plásticos, roupas usadas e lixo eletrônico.
A exportação de resíduos para o Sul Global é um fenômeno que persiste há décadas. No passado, foram feitas tentativas de regulamentá-la por meio da Convenção de Basileia sobre o Controle de Movimentos de Resíduos Perigosos (1989). Este documento visava não apenas limitar o movimento de resíduos, mas também ajudar os países em desenvolvimento a gerenciá-los e descartá-los de maneira ambientalmente correta.
Apesar das boas intenções, a Convenção não produziu resultados concretos na gestão internacional de resíduos. Pelo contrário, a situação piorou com o tempo. A exportação global de resíduos tem sido chamada de waste colonialism, ou colonialismo de resíduos, pois representa uma forma de exploração por países com um passado colonial sobre suas antigas colônias.
A manifestação mais comum desse fenômeno é a exportação de plásticos, que inicialmente não era abrangida pela Convenção de Basileia e só foi incluída em 2019 por meio de uma emenda específica.
Ásia
Durante anos, a China foi um dos principais destinos dos resíduos exportados, mas desde 2018 deixou de importar plásticos e outros resíduos. Como costuma acontecer em mercados sujeitos a restrições, os fluxos comerciais se deslocaram para outros países asiáticos, como Malásia, Vietnã e Indonésia, que receberam 1,4 bilhão, 1 bilhão e 600 milhões de quilos de resíduos plásticos, respectivamente, entre 2021 e 2023. A Índia também está entre os novos destinos, embora em quantidades menores. A Tailândia seguiu o exemplo da China e proibiu as importações de plástico a partir de 2025, depois de receber quase um milhão de toneladas entre 2018 e 2021.
Uma característica comum entre esses países é que a origem dos resíduos muitas vezes reflete antigas relações coloniais: Malásia e Índia importam plásticos do Reino Unido, enquanto o Vietnã os recebe da União Europeia.
A situação é ainda mais preocupante quando se leva em conta o aumento do valor total das importações de resíduos para a Ásia. De acordo com dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), entre 2017 e 2019, o valor das exportações de resíduos da União Europeia para os países da ASEAN — que incluem todos os estados asiáticos mencionados anteriormente, exceto China e Índia — aumentou 153%.
As consequências ambientais são evidentes. O aumento das importações de plástico nos países do Sudeste Asiático contribui para a poluição dos oceanos, já que uma parcela significativa do plástico nos mares provém de rios asiáticos, especialmente do rio Mekong, na Indochina.
África
O colonialismo dos resíduos também afeta a África. Além do plástico, o continente recebe grandes quantidades de roupas de segunda mão e lixo eletrônico. Esses materiais frequentemente se acumulam em aterros sanitários localizados nas principais cidades africanas, ao redor das quais surgiram bairros densamente povoados: Dandora em Nairóbi (Quênia), Agbogbloshie em Accra (Gana), Makoko em Lagos (Nigéria) e Tandale em Dar es Salaam (Tanzânia).
Um dos principais centros para onde vão roupas usadas é Accra, a capital de Gana. O problema reside no fato de que muitas dessas peças são feitas de materiais sintéticos e são difíceis de reutilizar.
Fast fashion
Isso é uma consequência direta do fast fashion, a indústria da moda descartável baseada no consumo rápido e em uma fraca cultura de reciclagem. Esse fenômeno, impulsionado principalmente nos países ocidentais, agora também envolve a China, que em poucos anos foi de importadora a exportadora de resíduos têxteis.
As roupas que chegam à África são revendidas em mercados de segunda mão, mas muitas acabam em aterros sanitários ou são queimadas. Essas práticas causam sérios danos ambientais.
Um estudo do Greenpeace de 2024 indicou que, em Accra, uma parcela significativa das roupas é usada como combustível doméstico, liberando poluentes e substâncias cancerígenas no ar.
Além disso, a presença de tecidos sintéticos em aterros sanitários promove a liberação de microplásticos que contaminam o solo, a água e o ar, afetando os ecossistemas locais.

Outra forma particularmente preocupante de colonialismo ambiental está relacionada ao lixo eletrônico, um dos tipos de resíduos que mais cresce no mundo.
De acordo com o último relatório da ONU, 62 bilhões de quilos de lixo eletrônico foram gerados em todo o mundo em 2022. A exportação desses materiais frequentemente vem de países do Norte Global como doações de equipamentos recicláveis ou reutilizáveis. Por muito tempo, esse fluxo se aproveitou de uma brecha regulatória na Convenção de Basileia, que não regulamentava precisamente o comércio entre países exportadores e importadores.
Só recentemente foi introduzida uma nova emenda, em vigor desde 1º de janeiro de 2025, que regulamenta esses fluxos. Entre seus defensores está Gana, que, juntamente com a Nigéria, é um dos principais destinos do lixo eletrônico, embora a África seja o continente que produz a menor quantidade desse tipo de resíduo.
Um grande mercado de trabalho informal surgiu em torno da reciclagem e reutilização de lixo eletrônico. De acordo com um relatório de 2019 da Organização Internacional do Trabalho, quase 100.000 pessoas trabalham nesse setor na Nigéria, com capacidade para processar meio milhão de toneladas de resíduos por ano. Em Gana, segundo a ONG catalã Ciutats Defensores dels Drets Humans, cada tonelada de lixo eletrônico envolve aproximadamente quinze trabalhadores em atividades de reciclagem e duzentos em tarefas de reparos. Há também um significativo interesse econômico que dificulta o combate ao fenômeno: Gana arrecada cerca de US$ 100 milhões anualmente em impostos com a importação de lixo eletrônico, uma fonte de renda difícil de substituir.
No entanto, todas as atividades relacionadas à reciclagem e reutilização desses materiais envolvem sérios riscos à saúde e ao meio ambiente. De acordo com um estudo da Organização Mundial da Saúde, o gerenciamento de lixo eletrônico expõe a população a mais de mil substâncias químicas potencialmente nocivas ao cérebro, pulmões e sistema nervoso. Assim como na poluição plástica, os setores mais afetados tendem a ser os grupos sociais mais vulneráveis, especialmente mulheres e crianças.
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Texto original em espanhol por Cosimo Graziani (Agência Fides, 11/02/2026). A imagem é da Fast Company Brasil.
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