Ordem e progresso
Talvez o meu problema com a palavra progresso que as pessoas usam quando dizem que querem melhorar, se desenvolver, etc seja porque eu sempre desconfio que elas estão de olho em um objetivo ideal cuja irrealidade fica velada.
Eu também não sei, quase sempre, se as pessoas estão falando de um progresso espiritual, de um progresso material, de um progresso intelectual, por exemplo. Mas sempre acho que é em direção a um ideal inalcançável, e a irrealidade recalcada serve para esconder, mais embaixo ainda, que não existe limite nenhum, só um progresso infinito que, na minha opinião, vai enlouquecer o candidato a progredir porque o seu horizonte é móvel como o que se vê no mar, e vai se afastando na medida em que se vai indo em direção a ele.
É claro que isto, esta visão do progresso, talvez seja o efeito da minha tendência meio niilista de achar que não adianta ter objetivo nenhum porque um objetivo viável agora pode se tornar inviável amanhã por causa da mudança abrupta das circunstâncias e, por isso, não adianta fixar objetivo nenhum: pode ser que o objetivo das pessoas exista e seja tangível, e elas só não me contaram qual é, mas sejam mais competentes do que eu para alcançá-los.
É mais ou menos como naquela história que Jesus conta em Lucas, do rei que tem que considerar se pode enfrentar com seus dez mil soldados o outro que vem com vinte mil - se bem que acho que ele estava falando sobre não confiar nos próprios recursos e sim na graça de Deus para poder segui-lo, mas estou descontextualizando isto para ficar só com o exemplo de que ele sugeriu que o rei com dez mil soldados deveria mandar uma delegação de paz para o rei que tinha vinte mil soldados.
O que eu acabo fazendo é o que Jesus sugere ao rei dos dez mil soldados: a delegação de paz que eu costumo enviar para a poderosa instabilidade das circunstâncias é colocar objetivos simples e imediatos (que não levam necessariamente a algum progresso): chegar no horário, lavar a roupa, essas coisas.
Claro que inclusive para isso eu conto, como eu acho que era o que Jesus queria dizer naquela passagem, com a graça de Deus mais do que com os meus próprios recursos por eles mesmos. No fim das contas eu recorro a eles, mas sabendo que o que faz dar certo é a graça de Deus (o que fica mais evidente quando os meus recursos não dão conta nem desses objetivos simples e imediatos).
Apesar de tudo isso, no fim das contas, o que eu deveria fazer era perguntar para as pessoas que dizem que querem melhorar o que elas querem dizer com isso.
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