O antídoto da Quaresma
O cristianismo tem uma dimensão que foge do racional que ultimamente tem sido muito mais explorada do que o que tem de racional¹. Tem vários aspectos da fé cristã que envolvem o mistério divino manifestado de diferentes formas: o caráter trinitário do Deus único, a plenitude da divindade e da humanidade em Jesus Cristo, a maternidade divina do seio humano de Maria, etc, são mistérios que se, por um lado, não tem uma explicação completa, por outro lado são "razoáveis", pelo menos no sentido de que graças ao esforço do cristianismo ancestral, é possível elaborar racionalmente mistérios mais amplos do que a razão pode alcançar.
Deus é maior que a razão humana, mas por ser o criador dela ele tem condições de surgir nela mais ou menos como, sendo divino, infinito e eterno, pôde se fazr humano, finito e sujeito à morte, como é no caso de Jesus, sem perder as qualidades divinas. E a partir daí dá pra jogar muita coisa pro mistério divino, mas o problema é que muitas vezes o que se joga para lá são coisas que não fazem parte de mistério nenhum, e na verdade são trapaças e fraudes usando o mistério divino como uma carapuça.
Eu estou pensando em autoridades religiosas que exigem sacrifícios em particular, como tirar o dinheiro do próprio sustento para pagar um dízimo, "sacrifícios" sexuais justificados como caminho para algum tipo de conexão divina, isolamento social para manter a "pureza" e por aí vai.
A única objeção que me vem em mente a isto é o que nas bíblias mais antigas aparecia com o título "O óbulo da viúva", uma passagem em Marcos (12,41-44) e em Lucas (21,1-4) que Jesus parece estar dando uma lição de matemática, razão e proporção, apontando para o tamanho da oferta de uma viúva que doou ao Templo duas moedinhas insignificantes, mas que eram tudo o que ela tinha para viver, uma oferta proporcionalmente muito maior do que os ricos que doavam mais dinheiro em quantidade que não faria falta para eles.
Isso pode levar a pensar que se depender da vontade de Jesus, todo o dinheiro de todo mundo deveria ir para o templo, e que seremos mais santos quanto mais padecermos em benefício dos líderes religiosos. Mas Cristo não ofereceu nenhuma compensação por esse esforço, pelo contrário: ele destacou uma pessoa completamente anônima, cuja contribuição proporcionalmente maior do que a de todos os outros continuou completamente anônima, já que nem os líderes do Templo nem os outros doadores ficaram sabendo da "medalha de ouro" que Cristo deu a ela - nem ela mesma.
Apesar de tudo, Cristo não estava falando de dinheiro nem de dízimo, se levar em conta as passagens imediatamente anteriores e posteriores à do óbulo da viúva: ela aparece como um contraponto ao exibicionismo dos escribas (fariseus, mestres da lei, os antagonistas em geral da mensagem de amor de Jesus), e não como exemplo de desapego material em nome de Deus (a mulher que gastou perfume nos pés de Jesus, Zaqueu, Mateus, as mulheres que assistiam Jesus com seus bens, e pela negativa, o jovem rico e o ricaço da passagem do rico e Lázaro é que são, entre outrois, exemplos de desapego material); no caso do óbulo da viúva, o desapego material é que serve como exemplo de que "o pouco com Deus é muito", desde que se entenda que esse muito não é um muito material, e sim que Deus valoriza o pouco quando é proporcionalmente muito, seja em ele dinheiro ou em qualquer outra coisa - mas, principalmente, que Deus não dá o menor valor ao exibicionismo religioso³. E logo depois disso, nos dois Evangelhos, Jesus anuncia a ruína do Templo, que fora outros significados mais importantes, também serve para mostrar que Jesus não estava elogiando a disposição da viúva em manter o Templo de pé4.
Isso tudo é porque o óbulo da viúva não tem um significado financeiro, dizimista nem nada disso, mas significa o sacrifício sem retorno nenhum, motivado pela fé, quer dizer, ele não tinha nenhum objetivo (provavelmente não contribuiria nem para pagar um tijolo do Templo), era só expressão de fé mesmo.
E a Quaresma, com seus sacrifícios periódicos anuais de jejum e abstinência, parece ser um bom antídoto a qualquer abuso do mistério do sacrifício gratuito5 desse tempo de conversão. Ninguém deveria ter argumentos para exigir sacrifícios extras de ninguém porque já existe um período de sacrifícios e penitências definidos (a Quaresma), e ninguém deveria exigir sacrifícios além dos perscritos pela Igreja (jejum e abstinência na Quaresma).
Foto (levemente editada) de Frank Eiffert na Unsplash
¹ Não que eu entenda profundamente o que significa "racional", mas estou me referindo a qualquer coisa que tenha um encadeamento de argumentos que se sustente no amor misericordioso de Deus por nós².
² Também não é uma tentativa de uma definição absoluta de "razão", mas, no máximo, uma tentativa de elaborar vagamente o que poderia ser uma "razão religiosa", ou uma "razão cristã", ou uma "razão católica", mais ou menos por aí.
³ Um dos motivos pelos quais eu nunca daria certo como padre é que a última coisa na qual eu gastaria o dinheiro da igreja seria reformando o prédio, a não ser que fosse pra não cair: por mim teria que dar outro jeito de expressar a gandiosidade e a magnificiência divinas, mas nada contra também, eles devem saber o que estão fazendo.
4 Também não estou criticando o dízimo, mas existem três coisas bem diferentes: uma é o desapego material que uma oferta representa (e por um lado isso não precisa ser necessariamente em dinheiro, mas por outro lado, se nunca for em dinheiro, é um mau sinal), e outra é que realmente a obra de Deus não é feita só de contribuições espirituais, e quem se dedica integralmente a ela também tem necessidades materiais, e até aqui, tudo ok, mas a terceira coisa, que é um crime religioso hediondo, é a exploração tanto de Deus quanto das pessoas que acontece quando o dízimo substitui a própria religião.
5 "Gratuito" no sentido de que não se ganha nada com ele: mesmo que seja um exercício de autodomínio, dá pra fazer um exercício desses em qualquer época do ano, e qualquer exercício de autodomínio, religioso ou não, "se paga a si mesmo" pelo próprio desenvolvimento do autodomínio; e mesmo que tenha um caráter penitencial, a salvação vem de Jesus e não do esforço da penitência, que é indispensável mas só tem sentido dentro deste caráter de mistério.

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