Mens sana in corpore marombado
Talvez eu não entenda muito bem certas palavras - posso dizer de muitas delas o que Cecília Meireles diz só de uma, "liberdade", uma palavra que não há ninguém que explique, e ninguém que não entenda [1]: tem muitas palavras que por mais que me expliquem, não há quem me explique, nem nenhuma explicação que eu entenda.
"Frouxo", por exemplo. Eu sei ver quando uma mesa está frouxa, e até consigo entender que no sentido comportamental ela é o contrário de "um filho teu não foge à luta" [2]. Mas não preciso de uma guerra para isto: onde eu trabalho já houveram muitas oportunidades de sair no soco, e em todas elas eu, como o eu lírico do Poema em Linha Reta, me agachei para fora da possibilidade do soco [3].
Claro que se fosse o caso de alguém sofrendo uma violência, uma mulher sendo vítima de violência doméstica, ou contra crianças, etc, aí eu não daria tanto tanto peso à auto-preservação, mas até hoje não apareceu nenhuma oportunidade de testar assim, desse jeito (quer dizer, ter que recorrer à violência para interromper uma violência pior), e eu espero, sinceramente, que esta oportunidade continue sem aparecer.
Acho que além da poesia, a mistura de anti-violência, auto-preservação e medo (e eu não sei a porcentagem de cada sentimento no total) da minha postura também é corroborada por ninguém mais e ninguém menos que Deus:
Ele não se compraz com o vigor do cavalo, nem aprecia os músculos do homem [4];
Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo [5];
E é por isso que eu me alegro nas fraquezas, humilhações, necessidades, perseguições e angústias, por causa de Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte [6];
e devem ter outros exemplos na Bíblia, mas não me ocorrem agora [7].
Eu espero não estar fazendo uma contra-propaganda religiosa, porque o cristianismo não dá suporte para fraqueza, covardia e passividade, mas dá suporte para que o contraponto dessas coisas sejam a fé em Deus, a confiança na força de Deus e na Providência Divina (tanto é que no salmo 146/147, o versículo seguinte ao do parágrafo acima é «Javé aprecia aqueles que o temem, aqueles que esperam por seu amor.»). Quer dizer, uma coisa é recorrer à força para ajudar a defender alguém, outra é virar um cirstão no estilo "mens sana in corpore marombado". Eu acho mais seguro confiar em Deus como se tudo dependesse dele e agir como se tudo dependesse de mim, dentro do possível [8]. E às vezes o possível é se agachar para fora da possibilidade do soco.
Tudo isso é por causa de uma reportagem do Intercept Br sobre a Cultura do medo, na G4 Educação, onde os "frouxos não são bem-vindos". O cristianismo não tem nenhuma "moral da frouxidão", mas, como eu escrevi no parágrafo anterior, faz com que o contrário da frouxidão seja a confiança em Deus mais no que a confiança "nos músculos do homem". Mas é por isto a minha dificuldade com a palavra "frouxo": ao mesmo tempo em que os frouxos não são bem-vindos lá, o dono afirma que "levou a igreja para dentro da empresa" (além de não contratar esquerdistas, para dar uma ideia do naipe do sujeito). Se a igreja está dentro da empresa, Cristo deve estar fora dessa igreja - logo ele que que se comportou muito mais como o Servo Sofredor de Isaías 53 [9] do que como o rei vitorioso nas batalhas do salmo 23/24 (se bem que, sendo Rei de fato, Jesus foi vitorioso mesmo morrendo crucificado, mas não venceu pelos "músculos do homem", quer fossem os seus ou os de outrem, e sim pela sua confiança no Pai, que o ressuscitou).
Não que fosse ficar mais cristão se fosse uma empresa onde "os que não confiam em Deus não são bem=vindos", até porque lugar de igreja não é dentro de uma empresa (muito embora seja necessário ter fé em Deus principalmente dentro de uma empresa hoje em dia, por inúmeros motivos). Mas mesmo sem entender ainda muito bem a palavra "frouxo", tenho certeza de que essa retórica da força só pode ser considerada cristianismo dentro desta cultura de cristianismo freestyle corporativo que dá tanto lucro para meia dúzia de ricaços às custas da degradação do Evangelho [10] .
citando assim, de memória, provavelmente não está escrito exatamente assim no Romanceiro da Inconfidência
eu penso muito nisso porque em caso de guerra no Brasil, eu fugiria pra outro país - desde que não fosse o país que estivesse em guerra com o Brasil, é claro
me agachei = corri para longe da briga, porque se o meu eu lírico só se agachasse teria levado um chute muito pouco lírico
Salmo 146/147,10
João 1,29 - não porque eu tire o pecado do mundo, é claro, mas se até Jesus tira o pecado do mundo sacrificando-se como um cordeiro, e não lutando como um touro, quem sou eu para bancar o fortão
2 Coríntios 12,10
Esses eu copiei da Bíblia online da Paulus
A frase original, que eu não faço ideia de onde vem mas eu li nuns cartõezinhos com frases edificantes na sala de uma pastoral universitária, é "rezar como se tudo dependesse de Deus e agir como se tudo dependesse de nós", mas eu ainda prefiro a minha versão, especialmente pela parte do "dentro do possível". Mas rezar também é imprescindível, é claro.
A passagem, que é o capítulo inteiro, copiado da Bíblia online da Paulus, é esta: << 1 Quem acreditou em nossa mensagem? Para quem foi mostrado o braço de Javé? 2 Ele cresceu como broto na presença de Javé, como raiz em terra seca. Ele não tinha aparência nem beleza para atrair o nosso olhar, nem simpatia para que pudéssemos apreciá-lo. 3 Desprezado e rejeitado pelos homens, homem do sofrimento e experimentado na dor; como indivíduo de quem a gente esconde o rosto, ele era desprezado e nem tomamos conhecimento dele. 4 Todavia, eram as nossas doenças que ele carregava, eram as nossas dores que ele levava em suas costas. E nós achávamos que ele era um homem castigado, um homem ferido por Deus e humilhado. 5 Mas ele estava sendo transpassado por causa de nossas revoltas, esmagado por nossos crimes. Caiu sobre ele o castigo que nos deixaria quites; e por suas feridas é que veio a cura para nós. 6 Todos nós estávamos perdidos como ovelhas, cada qual se desviava pelo seu próprio caminho, e Javé fez cair sobre ele os crimes de todos nós. 7 Foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; tal como cordeiro, ele foi levado para o matadouro; como ovelha muda diante do tosquiador, ele não abriu a boca. 8 Foi preso, julgado injustamente; e quem se preocupou com a vida dele? Pois foi cortado da terra dos vivos e ferido de morte por causa da revolta do meu povo. 9 A sepultura dele foi colocada junto com a dos injustos, e seu túmulo junto com o dos ricos, embora nunca tivesse cometido injustiça e nunca a mentira estivesse em sua boca. 10 No entanto, Javé queria esmagá-lo com o sofrimento: se ele entrega a sua vida em reparação pelos pecados, então conhecerá os seus descendentes, prolongará a sua existência e, por meio dele, o projeto de Javé triunfará. 11 Pelas amarguras suportadas, ele verá a luz e ficará saciado. Pelo seu conhecimento, o meu servo justo devolverá a muitos a verdadeira justiça, pois carregou o crime deles. 12 Por isso eu lhe darei multidões como propriedade, e com os poderosos repartirá o despojo: porque entregou seu pescoço à morte e foi contado entre os pecadores, ele carregou os pecados de muitos e intercedeu pelos pecadores.">>
tste
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