Maldades cristianizadas
Ódio e violência, incluindo nisso tudo a vingança, não são coisas cristãs. Apesar disto, estas coisas fizeram parta da história do cristianismo, e a ideia não é renegar a presença disto nesta história, mas condenar que isso tenha havido. Mesmo que episódios como as Cruzadas e a Inquisição sejam cheios de matizes (às quais não faltam tentativas de “purificação”, em alguns casos excluindo os nuances mais semelhantes ao joio, e em outros, excluindo os nuances mais semelhantes ao trigo), não é porque o ódio e a violência (e outras coisas desse tipo) fizeram parte deles que se tornam justificáveis. Mas hoje em dia se faz algo pior do que justificá-los. Alguns cristão tentam repeti-los.
Às vezes a justificativa é a Bíblia, especialmente o Antigo Testamento interpretado ao pé da letra e isolado da elevação da Palavra de Deus à perfeição trazida por Jesus, mas até Moisés, que pela graça de Deus libertou o povo da escravidão do Faraó e fez uma breve participação especial no Novo Testamento, foi proibido de entrar na Terra Prometida porque, sendo imagem pré-figurativa de Jesus, afinal de contas não era Jesus e, portanto, também teve lá os seus vacilos diante de Deus.
Além do Antigo Testamento, eu já vi usarem o NT para justificar a violência (como quando Pedro sacou a espada para defender Jesus, ou quando o próprio Jesus disse para aranjar uma espada). Mas nesta passagem do Evangelho de Lucas 9,51-56 a descristianização do ódio e da violência está perfeitamente estampada: Tiago e João queriam evocar o fogo do céu contra a aldeia samaritana que não acolheu Jesus, e Jesus repreendeu esta ideia - mesmo sendo samaritanos que, além de não terem acolhido Jesus e seus discípulos na sua jornada rumo à Cruz e Ressurreição nesta passagem bíblica, eram inimigos viscerais dos judeus. Talvez não tenha sido à toa que no capítulo seguinte Lucas narre a parábola do Bom Samaritano.
É muito fácil, ou pelo menos é muito comum excluir da “lista das coisas cristãs” aquilo que repercute mal, sendo elas ou não coisas cristãs, quer dizer, é comum cristianizar ou descristianizar coisas conforme as conveniências do momento (e infelizmente, a cristianização forçada do ódio e da violência tem sido muito conveniente hoje em dia). Mas os interesses humanos, inclusive os mais mesquinhos, não tem a capacidade de transformar o mal no bem. Deus, pelo seu poder, consegue fazer com que as consequências de coisas más sejam boas, mas nem por isso transforma as coisas más em coisas boas, e por mais que a violência e o ódio apareçam tanto na Bíblia quanto na história do cristianismo, Jesus continua repreendendo essas maldades - já que ele consegue tirar consequências boas de nossas maldades, talvez tire consequências ainda melhores quando fizermos o bem.
Adicionar um comentário: