Lázaro, Jairo e a viúva de Naim
Se eu não estiver enganado, existem três narrativas de ressurreições feitas por Jesus nos quatro Evangelhos (sem incluir nesta conta a ressurreição do próprio Jesus, depois da sua Paixão): a da filha de Jairo [1], a do filho da viúva de Naim [2] e a de Lázaro [3], que talvez seja a narrativa mais famosa destas três.
Na ressurreição de Lázaro, que eu acho a mais dramática, pode-se ver o sentimento de Jesus pelos que morrem - basicamente, o mesmo que o nosso, a tristeza incomensurável. Eu li alguma vez, já não sei onde, que é nesta narrativa em que está o menor versículo - agora já não lembro se de toda a Bíblia, de todo o Novo Testamento ou só dos quatro Evangelhos: "Jesus chorou" [4], o que aconteceu depois de ter ido ver onde haviam sepultado Lázaro. As lágrimas de Jesus pela morte de Lázaro são as mesmas que ele derrama por cada pessoa que morre, porque Deus não nos criou para morrermos, e sim para vivermos. A morte não foi planejada por Deus, mas depois de ter sido introduzida na humanidade pelo Pecado Original da própria humanidade, Deus "recalculou a rota" para fazer com que a vida vença inclusive a morte.
Isto talvez seja fácil de falar assim, longe de um velório (mas não é). "Tal pessoa está com Jesus no céu" é um consolo para quem tem fé, mas consolar uma dor, especialmente esta, não significa anestesiá-la - tanto é que Jesus chorou pela morte de Lázaro, mesmo sabendo que ia ressuscitá-lo dali a pouco - e também mesmo sabendo que morreria mais adiante para que a sua ressurreição fosse "primícia dos que morreram" [5]. E assim como Jesus sofre conosco por quem morreu [6], ele também sofre pelos vivos que ficaram, como se pode ver no caso do filho da viúva de Naim, que Jesus ressuscitou porque sofreu pelo sofrimento da mãe. Quer dizer, também é necessário lembrar que estamos com Jesus cá na terra, e talvez seja necessário lembrar primeiro disto, para que a lembrança de que os mortos estão com Jesus lá no céu (só para repetir: como lembrança da esperança, e não como uma tentativa de anestesia).
A fé na ressurreição, na nossa ressurreição depois que morrermos, pode parecer meio inocente, como se pode ver no caso da ressurreição da filha de Jairo quando as pessoas em volta começam a rir de Jesus ao ouvirem que a menina não está morta. Acho que devem ter pensado que Jesus era inocente (no sentido de uma criança que acredita em coisas fantasiosas, por exemplo) porque não se espera de um adulto que ele seja inocente assim, a ponto de dizer que um morto "apenas está dormindo" [7].
Mas talvez seja esta inocência que o Evangelho de Marcos 10,15 sugere quando Jesus diz que quem não receber o Reino de Deus como uma criança não entrará nele. Quer dizer, não a inocência pela falta de experiência na vida de quem toma o errado pelo certo, mas a confiança simples, como a das crianças, no Reino de Deus, na ressurreição que virá, e em que os nossos mortos "apenas estão dormindo", mesmo em meio a toda a dor por este "sono" deles, uma dor que tanto é humana (como sabemos pelas nossas próprias dores e pela dor de Jesus nas outras duas narrativas) quanto é divina (que estão nas mesmas duas narrativas).
Mateus 9,18-26
Lucas 7,11-17
João 11,1-44
João 11,35
1Cor 15,20
E cada um de nós sofre por um número limitado de pessoas, mas Jesus, por todo e cada finado da história da humanidade.
Mateus 9,24
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