Ideologia, fé e a teologia feita a partir da realidade
Estabelecidos os parâmetros para o uso do termo ideologia, é possível agora relacioná-lo com a fé e a teologia. Primeiramente, importa admitir que não se trata de realidades homogéneas. O fato torna mais complexa a relação e a articulação entre os diversos conceitos.
A fé é uma experiência radical, não redutível a nenhuma outra, mediante a qual aderimos a Deus como o sentido e a significação de todos os sentidos e significações, cuja manifestação escatológica nos foi revelada na vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. A fé tem a estrutura de um encontro com o absoluto, que se exprime por uma conversão, uma celebração e um comportamento ético específico. A fé não é uma ideologia, porque não é uma falsa consciência de um encontro ilusório. A fé tem sempre uma referência ao absoluto, ao último, ao definitivamente importante, diante do qual tudo mais é relativo: os interesses, as visões do mundo, as ciências e as ideologias. A fé julga todas as ideologias e desmascara suas pretensões totalitárias.
A teologia se constitui como esforço e penetração racional da experiência e dos conteúdos da fé. A teologia é a fé pensante e pensada, crítica e sistemática, em uma palavra, é a fé que se procura compreender de uma forma reflexiva.
Em primeiro lugar, a teologia como disciplina, vale dizer, como discurso educado da fé cristã, é uma só. A ótica que a especifica é contemplar tudo sob a luz da fé: primeiramente Deus e em seguida todas as coisas à luz de Deus. O objeto da teologia não é somente Deus enquanto acessível à razão ou enquanto revelado, mas, como já ensinava santo Tomás (Summa Theologica P. I, Q1, A7), também todos os seres enquanto podem ser vistos à luz de Deus. Pertence também à tarefa da teologia falar de política, de economia, de sociedade, enquanto fale não politicamente nem economicamente, porém teologicamente, isto é, à luz de Deus. Essa é a consideração específica do discurso teológico. É o que confere unidade à teologia enquanto teologia.
Em segundo lugar, é importante ter presente o seguinte: ainda que a teologia seja uma só, existem modos diversos de realizar a tarefa teológica. A razão pela qual se constrói a teologia é sempre uma razão histórica. O teólogo não é um ser errático, desarraigado da realidade. Ele participa dos condicionamentos de seu tempo tanto materiais como espirituais. A elaboração teológica é sempre afetada pelo lugar social que ocupa o teólogo dentro da Igreja e dentro da sociedade.
Não é a mesma coisa fazer teologia a partir de uma barricada ou de um centro acadêmico, de Roma ou da Cidade do México.
Toda a teologia tem certos compromissos oriundos de seus destinatários, o povo, os letrados, os próprios teólogos, da linguagem que utiliza e dos instrumentos racionais que emprega. Na sua elaboração interna, isto é, na maneira como argumenta a partir da Escritura, da Tradição, do Magistério, do sensus fidelium e da razão teológica, a teologia é autônoma. Entretanto, quanto à seleção dos temas a estudar, quanto à forma e à ênfase de tratá-los, quanto à definição dos destinatários e por conseguinte quanto à própria linguagem, a teologia depende de sua inserção na história e na sociedade, depende portanto das opções que caracterizam a vida do próprio teólogo.
Todo discurso está ligado a um lugar social e a um enfoque epistemológico que permitem ou dificultam este ou aquele discurso, esta ou aquela posição. Isto é assim, não porque o queiramos, mas porque corresponde à objetividade do processo de reflexão.
É este o ponto em que se processa a articulação entre teologia e ideologia. Primeiramente importa dizer que a teologia está mais próxima da ciência, enquanto saber crítico e organizado, do que da ideologia. Contudo, na medida em que a teologia participa da sociedade e o teólogo é também um ator social, participa das tendências e das distintas posições que coexistem ou se antagonizam na sociedade. Como dizíamos acima, não há nenhuma ciência totalmente indene de um resíduo ideológico. Isto vale também para a teologia, não porém para a fé.
O que se pede à teologia é que tenha consciência deste fato e que permanentemente se interrogue: com que causa esta ou aquela teologia se compromete? que interesses estão subjacentes, de forma consciente ou inconsciente, a esta ou àquela elaboração teológica? Um pensamento crítico explicita seus interesses ocultos, dá-se conta de seus limites e está sempre aberto às exigências de purificação dos resquícios ideológicos presentes em sua elaboração.
O problema não é o de saber se uma teologia tem ou não dentro de si algum interesse. Todas elas têm. O problema real é julgar os interesses à luz do interesse de Deus revelado em Jesus Cristo e codificado em sua mensagem evangélica. Todas as teologias devem deixar-se julgar pela Palavra de Deus, que não é ideologia mas Revelação divina, e deixar-se confrontar com o Jesus da história e da fé. Para Ele nem tudo valia da mesma maneira; havia coisas que denunciou e coisas que anunciou como verdades de seu Pai em função das quais suportou perseguições e até a morte.
A questão não é de saber se há uma teologia comprometida e outra não comprometida. Toda a teologia é comprometida. Importa saber com que causas e em que forma se compromete a teologia. Para isso a fé é uma luz que nos pode ajudar a definir as causas e as opções: em favor dos pobres, pela justiça, pela mudança social orientada para maior participação, como forma de prefigurar os valores do Reino.
A teologia pode contaminar-se de ideologia quando se presta a ocultar situações de pecado ou legitima uma situação social que marginaliza milhões de pessoas ou promove um desenvolvimento desigual, criando relações de injustiça. Uma teologia pode fazer-se ideológica quando, nos problemas sociais, se dispensa de pensá-los de modo crítico e não ilusório, ou quando se contenta com uma visão meramente empírica, que não permite à fé oferecer todo o seu estímulo de humanização e de libertação. A teologia deve ser vigilante quanto à sua relação com a práxis, para que não seja instrumentalizada em uma direção que não seja evangélica nem represente os interesses de Deus revelados em Jesus Cristo. Impõe-se a todo teólogo uma vigilância ideopolítica, num duplo sentido: procurar elaborar uma teologia consciente de suas limitações e de seus resíduos ideológicos, buscando sempre uma aproximação maior do espírito crítico que a purifica do excesso ideológico por um lado, e por outro, impedir o mais possível que a teologia se instrumentalize nos seus discursos e sistematização em função de interesses que não sejam evangélicos e eclesiásticos.
Há duas formas básicas de fazer teologia como inteligência da fé: uma consiste em tomar os temas diretamente teológicos como são apresentados pela Igreja e procurar aprofundá-los racionalmente. Assim se estuda o tema de Deus, da Santíssima Trindade, de Jesus Cristo, da Graça, do Pecado, da Igreja, dos Sacramentos. O conteúdo teológico, objeto material, neste caso, já é dado. Basta que seja apropriado racionalmente dentro do método próprio da teologia. Esta tarefa foi executada com genialidade pelos grandes mestres medievais. Os conteúdos teológicos não têm apenas uma significação interior à Igreja mas também uma significação social.
Por exemplo: a fé, a teologia dizem que Deus é transcendente e santo, porém não é um Deus neutro; é um Deus que ama a justiça e abomina a iniqüidade, que é sensível ao grito do oprimido e que quer um culto que seja expressão de justiça, de misericórdia e de fidelidade. Tais afirmações incidem sobre as práticas dos cristãos que vão ao encontro das ânsias de justiça dos oprimidos. Vê-se pois assim que esta primeira maneira de fazer teologia não resulta numa teologia alienada que remete a salvação apenas para os horizontes escatológicos, mas é uma teologia que tem profundas incidências sobre a vida dos homens e das sociedades.
Há uma outra forma de fazer teologia que consiste em refletir sobre temas que não são diretamente teológicos, mas que são seculares ou temporais, buscando ver sua conexão com o desígnio de Deus e sua ordenação com o Reino. Assim se podem tomar temas como: secularização, processos de mudança social, análises de sistemas econômicos e políticos, valor das lutas populares em favor de maior justiça e participação. Neste caso, a indagação é a seguinte: como descobrir a dimensão teologal que está presente em tais realidades e como apresentá-la teologicamente? Tais realidades estão inseridas no mistério da criação de Deus, foram penetradas pelo mistério da encarnação; o Ressuscitado e seu Espírito estão presentes dentro dos dinamismos humanos, tudo está envolvido no mysterium salutis.
Numa palavra: há uma relação objetiva dessas realidades com Deus, mesmo se esta relação não seja conscientizada pelos diversos atores sociais. Entretanto, a fé permite ver essa dimensão teologal e ontológica. Por consequência compete também à teologia desentranhar o teologal destas realidades temporais e fazê-lo teológico. Isto é, fazê-lo um discurso de fé e de teologia, sob orientação do Magistério.
Ambos os métodos, utilizados de modo exclusivo, têm seus riscos. O risco do primeiro método consistiria em permanecer num plano abstrato e não ser bastante sensível à voz de Deus que nos interpela a partir das realidades terrestres e especialmente a partir dos humildes, vivendo em condições de opressão. O risco do segundo método consistiria em pretender fazer uma releitura própria das fontes da Revelação, a partir exclusivamente daquelas realidades e da-quelas condições. Somente uma permanente relação dialética entre os métodos permite que não só se evitem os riscos, mas também que se produzam resultados complementares e enriquecedores.
Fé Cristã e Compromisso Social, pgs. 138-142
A foto da fachada do centro de acolhimento para doentes criado por Madre Teresa em Kalighat é de thotfulspot, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons, um pouco editada

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