Guerra espiritual
Toda vez que eu ouço falar em “guerra espiritual” o que me vem à mente é uma das cenas de um livro de uma escritora com uma moral bastante questionável que se passa em um planeta onde a maioria das pessoas é meio telepata, mas algumas são mais telepatas e outras, ainda, são uma espécie de “telepatas profissionais”, que trabalhavam em uma espécie de convento de telepatas chamados torres, e aí duas dessas torres entraram em guerra - uma guerra telepática em que eles se viam no plano espiritual (chamado de zona cinzenta) e faziam coisas uns contra os outros à distância.
Fora desses livros quem fala em guerra espiritual quase sempre está falando de religião, e acho que na maioria dos casos, de religião cristã. E acho que (correndo sérios riscos disso que eu acho acabar virando assunto em alguma confissão) esse tipo de pessoa está no melhor lugar que deveria, porque igreja também serve para ser curado - aqui vem a parte que talvez eu tenha que mencionar na confissão - porque a fixação que certos cristãos tem com a guerra chega a ser doentia.
Eu sei que na Bíblia, especialmente no Antigo Testamento, uma boa parte é guerra, mas desde que Cristo nasceu, morreu por nós e ressuscitou, tem que ler o Antigo Testamento à luz do Novo Testamento, e não fazer de Jesus algum tipo de Guerreiro Espiritual de última hora. Inclusive no Novo Testamento também existem referências bélicas, como os soldados perguntando pra João Batista como se converter (e ele mandou eles não reclamarem do salário nem agirem com injustiça, se não me engano), o rei da parábola que ia guerrear com outro que tinha mais soldados e Jesus disse que era melhor o rei com menos soldados ir lá e negociar do que ir pra guerra desfalcado, o centurião dizendo a Jesus que também tinha subordinados que lhe obedeciam (e portanto Jesus não precisava ir até não sei onde curar não sei quem, porque o centurião confiava na autoridade de Jesus) e depois Paulo combatendo o bom combate, etc, mas são referências bélicas e não um convite à luta armada.

Mesmo quando Pedro leva ao pé da letra o “levem uma espada”, e a usa para cortar a orelha de Malco, que estava junto com os que iam capturar Jesus, ele não bateu palmas pra Pedro, pelo contrário, repreendeu-o e foi atender o cara do time inimigo. Jesus nunca deixou de combater, mas sempre metaforicamente¹
Também tem aquela história de que Miguel, que significa “Quem como Deus?”, tem esse nome porque quando os anjos rebelados - posteriormente conhecidos como demônios - lutavam contra os anjos fiéis, diante das injúrias que o inimigo dizia contra Deus para convencer os anjos que permaneceram fiéis, Miguel teria dito justamente isso, “quem como Deus?” - mas foi uma batalha entre anjos e demônios para a qual Cristo não nos convocou (pois a convocação que Cristo faz é para segui-lo, e não para se alistar em exército nenhum), e mesmo assim ensinou que nossa parte nesta luta é o que se faz na Quaresma, Jejum e oração (não que seja para fazer só na Quaresma, enfim).
Então isto tudo era para argumentar que: nada na Bíblia sustenta nem justifica guerras espirituais; nada justifica dizer que existe uma guerra espiritual em curso; nada justifica adotar uma linguagem belicista para tratar de religião, a não ser tentar perverter o cristianismo.
Se fosse para ser mais bíblico, teria que se falar em uma agricultura espiritual, como a história do semeador, e as 651545149 parábolas com líros no campo, figueiras, celeiros e colheitas; ou em marujos espirituais, como os apóstolos chamados a serem pescadores de homens ou assustados na barca ou em que Jesus estava dormindo, ou para a qual se dirigia caminhando sobre as águas; pastores espirituais (o que dispensa exemplos); carpintaria espiritual (afinal Jesus também era o filho do carpinteiro); administração espiritual (as donas de casa das parábolas e outros administradores); etc, etc.
A imagem é de Christiaan Tonnis sob uma licença CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons.
¹ Bom, teve o caso dos comerciantes no Templo, mas foi uma explosão momentânea de indignação contra o comércio espiritual que virou, e não uma espécie de rapa religioso sistematicamente organizado - nem uma milícia anti-comércio espiritual.
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