É que eu não sirvo nem pra procurar emprego
Você não sabe o que esperar porque não há como saber qual atitude ou palavras lhe garantirão o emprego, e porque a única coisa que define o processo seletivo é a arbitrariedade
Texto de Mario Amadas no Ctxt.es que eu copiei e traduzi por conta própria
Procurar emprego é como tatear no escuro. Você nunca sabe com o que vai se deparar nas plataformas de busca nem com o tipo de ofertas que vai encontrar, e até mesmo as ofertas que combinem mais ou menos com seus interesses estarão descritas em termos tão imprecisos e confusos que nada nunca ficará muito claro, e aí eu diria que o que mais se parece com nossas buscas é uma versão trabalhista dos números cantados nos bingos de quermesse de igreja¹ que conhecemos. Vamos ver por quê.
Existem várias maneiras de procurar trabalho. A mais comum, suponho, é mergulhar na vasta oferta de plataformas de busca virtual como Infojobs, Indeed, Glassdoor, Trabajos.com, Infoempleo e o sem-fim² de armadilhas como essas, e ver se alguma das vagas se achega como um petzinho tímido curioso com seus chamados, e talvez você tenha sorte. O Linkedin, como rede social para encontrar trabalho, é outra coisa mas que no fundo é mais do mesmo: você tem uma longa lista de contatos que podem se interessar por você ou recomendar algo que possa lhe interessar - ou pode ser que seja você que venha a recomendar algo que possa lhes interessar - e depois há as próprias vagas, para as quais você se candidata, e algumas delas podem até dar uma olhada no seu perfil, vocês conversarem um pouco e nada mais. Mas se, por pura casualidade, você se candidatar e sua candidatura passar pelos primeiros filtros de seleção arbitrários e for chamado para uma entrevista, verá que a descrição da oferta geralmente tem pouco a ver com o que lhe explicam nessas primeiras etapas do processo seletivo, assim como o trabalho do dia a dia, se você finalmente conseguir o emprego, também terá pouco a ver com o que lhe explicaram durante o processo de candidatura.
Então a primeira dificuldade para conseguir trabalho vem da própria vaga mal redigida. E todos sabemos que algo como "um trabalho", tão mutável e indefinido, não pode ser resumido direito em dois ou três parágrafos. Mas isso é uma coisa, e outra bem diferente é quando tudo é descrito em termos tão vaporosamente vagos que custa muito fazer alguma ideia exata de em que consiste o trabalho em questão, para que você possa decidir se vai tentar ou não tentar e ajustar um pouco mais a busca ou sua auto-apresentação.
O acúmulo de vagas nessas plataformas acaba por automatizar sua busca. Há tnta urgência em encontrar algo, e tanta pressa para pagar os boletos, que você ignora seus próprios critérios, como ter um emprego perto de casa ou, delirando um pouco, que você até goste, para se adaptar ao que vê, o que lhe leva a ceitar qualquer coisa mais ou menos. Assim começa essa sensação de vazio. Você vê tanta coisa e precisa tanto, que busca sem parar, e a busca desse jeito não é nem específica nem de acordo com o que você realmente gosta.
Louise Glück diz em El iris salvaje que no final de seu sofrimento há uma porta, mas no final da busca por emprego nunca há o que realmente se quer. Nunca há nada que combine com seus gostos, nada que se aproxime dos seus sonhos, exceto em candidaturas espontâneas (um método frustrante de busca de emprego sobre o qual retornarei mais abaixo). Algumas ofertas pode ser que se pareçam, mas nunca são o que você realmente deseja. E nessas ofertas, geralmente há duzentos ou trezentos candidatos esperando a sua vez para a mesma vaga que você. Então, o que você faz nesse caso? Nada. Você envia seu currículo e pronto. tomara que gostem.
No fim das contas você é um produto que precisa se vender na entrevista. Ao final da busca, quando finalmente chega às primeiras entrevistas, você já se tornou o seu próprio seotr de vendas. Seu currículo - especificamente adaptado à vaga em questão - e, claro, sua carta de apresentação, são seus únicos recursos para fazer RH lhe descobrir no meio da multidão e lhe comprar.
Um currículo e uma carta de apresentação são pequenos fragmentos de autoengrandecimento onde o RH, sem dúvida, encontrará a confirmação definitiva de um talento e habilidade que ninguém nunca viu na história desse país. São documentos estrategicamente confeccionados para convencer, mas não são coisas que naturalmente convenceriam alguém de qualquer coisa. Assim, estamos legitimando algo que, no fundo, não tem nenhuma legitimidade. É, mais uma vez, um pacto fictício: ambas as partes acreditamos somos o que está nessa folha. Que estamos bem representados aí. Sim, os departamentos de RH precisam de alguma coisa pra se agarrar, mas o que esperam que digamos nessas cartas? Que somos pessoas preguiçosas, impontuais e que não querem trabalhar? Todos dizemos uma variação da mesma coisa: contrate-me, você me quer/você me precisa, sou melhor que todo mundo - uma promessa, cuja formulação dependerá dos pudores de cada pessoa ao escolher um tom ou outro para se apresentar. Mas é sempre a mesma coisa.
Você também nunca sabe se está sendo detalhista demais ou não, prolixo demais ou conciso demais, e tudo é tão arbitrário que não há consenso ou qualquer tipo de argumento para orientá-lo sobre o quanto dizer. Você pode pensar que detalhar seus estudos e experiência profissional seria útil, mas pode ser que tivessem preferido uma carta descrevendo suas motivações, algo mais pessoal que o defina melhor do que uma lista de estudos e empregos anteriores. Se sua carta de apresentação será bem recebida ou não é só por uma questão de sorte.
É enlouquecedor, mas você nunca sabe o que fazer para conseguir ou não a vaga. Tudo é tão opaco, cada etapa do processo tão nebulosa, tão dependente de cada oferta, que você não tem como saber o que deveria ter dito ou feito. A gente nunca sabe de nada.
Depois, há o eterno debate (que na verdade nunca é um debate, porque apenas uma das partes, o empregador, tem o poder de influenciar a realidade) sobre se o salário deve ou não ser incluído no anúncio da vaga, sobre se o conhecido princípio do "salário a combinar" faz sentido. Isso sempre prejudica os candidatos, porque não há como saber se vale a pena ou não. Uma pesquisa rápida revela que, quando incluem o salário, simplesmente fornecem uma faixa, entre dezoito e vinte e quatro mil, por exemplo, como se estivéssemos falando de uma diferença de cem ou duzentos euros. Tudo, dizem eles, depende do candidato, o que implica que não estão pagando pela vaga, mas pela pessoa, e que alguém que fala quatro idiomas receberá mais do que alguém que fala três. Pagam a uma pessoa que não conhecem por qualificações que consideram óbvias. Como acham que isso afeta as pessoas? Será que sabem? Será que sequer se fazem essa pergunta? Baseiam-se em dados objetivos, que veem refletidos no papel, e não naquilo que a pessoa pode contribuir, ao longo do tempo, para o ambiente e para o próprio trabalho, porque tudo isto são pressupostos a priori impostos como se fossem a grande verdade final.

Acredito que, como empresa, eles sempre têm a obrigação de pagar o máximo possível. É uma obrigação moral. Se a escala salarial varia de um mínimo de dezoito mil (ou menos) a um máximo de vinte e quatro mil (ou muito menos), significa que esses vinte e quatro mil euros são alcançáveis. E se você, ciente disso, vê que estão lhe pagando dezoito mil e quinhentos, já começa com o pé esquerdo, porque a empresa o valoriza apenas um pouco acima do mínimo (muito macabras essas últimas palavras). Você se sente menos valorizado e menos respeitado. Se, para uma vaga de tradutor técnico em uma empresa de máquinas pesadas, me dizem que vão me pagar dezoito mil por causa da minha formação em humanas, mas que se eu viesse da área de engenharia me pagariam vinte e sete mil para fazer o mesmo trabalho (um exemplo real, aliás), significa que as noções preconcebidas que mencionei anteriormente são, na realidade, um classismo estrutural que se impõe até mesmo nas entrevistas como um filtro, como uma seleção natural muito precisa de candidatos. Por isso, o salário deve estar vinculado ao cargo, e não ao candidato, que ainda não é conhecido.
Outros dirão que, com toda a sua formação acadêmica e domínio de vários idiomas, já merecem um salário maior do que alguém que se candidata à mesma vaga sem tanta experiência. Em outras palavras, possuem certos pré-requisitos que justificam receber um salário maior, independentemente do seu desempenho no trabalho. Se eu vir que você tem duas graduações e dez anos de experiência, pagarei mais do que se você tivesse uma graduação e dois anos de experiência. Por quê? O que justifica isso? Simples: a pessoa com duas graduações fará um trabalho melhor. Mas você tem certeza? Entronizado atrás dessa elegante mesa de mogno, você acha que sabe o suficiente para decidir que X merece receber mais do que Y por um trabalho que ainda nem começou, baseado unicamente no que está escrito em um pedaço de papel.
Esse é o critério. Esse é o grau do absurdo que estamos enfrentando.
Eu, por exemplo, tenho um diploma (em Humanidades) e um mestrado (em Crítica e Comunicação Cultural). E o que isso significa? Estritamente falando, nada. Será que os meus diplomas, só por causa deles, por causa dessas duas entradas no meu currículo, me dão o direito a um salário mais alto do que alguém que tem apenas um diploma ou que não estudou, mas que, devido à sua vocação e capacidade, pode candidatar-se exatamente aos mesmos empregos que eu? De modo nenhum. Isso não justifica nada. Paguem o máximo e depois decidam, com base na experiência diária, se a pessoa é um bom profissional.
E quanto à sua formação, ao que você estudou ou fez antes? Sim, às vezes é necessário conhecimento específico (não iríamos a um dentista que não soubesse o que está fazendo), mas esse treinamento é focado em uma (única) função, algo tão específico que faz parte do próprio trabalho: você exerce essa função porque foi treinado (apenas para isso). Mas para empregos que não exigem um treinamento tão específico, como quase qualquer emprego que exija formação em humanas, os critérios de seleção se tornam muito mais vagos, eu diria até mesmo indefinidos.
Além disso, existem outros fatores que determinam o bom ou o mau desempenho de alguém, e não apenas sua formação acadêmica, como diplomas de graduação ou mestrado. Reitero aqui, neste artigo flopado, que o salário deve sempre ser o máximo, por respeito a alguém que dedicará tanto do seu tempo a algo que não lhe pertence e não será para ela. Se a empresa pode pagar vinte e quatro [mil], deve pagar vinte e quatro [mil]; estará agindo de forma moralmente correta, e o contratado perceberá o comprometimento da empresa e trabalhará, pelo menos em termos salariais, com satisfação. E se o contratado não se adaptar, não tiver um bom desempenho ou qualquer outro problema, a empresa sempre terá a opção de não concluir o período de experiência. Estamos falando de situações em que a empresa não tem nada a perder.
Voltando ao que mencionei antes: candidaturas espontâneas são para a busca de emprego o que a ilusão é para o pensamento racional. Nesse tipo de busca, você envia, sem ser solicitado, um currículo irresistível, claro, com grande poder de persuasão, para uma empresa onde você gostaria de crescer, para usar o jargão da área, e espera que eles lhe chamem para uma entrevista. Ok, tudo bem. E depois? Nada.
A carta de apresentação é importante nesses casos, ainda mais do que em outros métodos de busca de emprego, porque o currículo sozinho não é suficiente para se destacar da multidão: “Eu sou essa pessoa e vocês precisam de mim” (o que, após o esgotamento dessas buscas, esconde um “tanto faz essa vaga e não acredito em nada do que vocês me dizem, mas preciso pagar o aluguel e é por isso que aceitarei o que não deveria aceitar”).
Você não perde o entusiasmo (mas perde), nem a esperança (mas perde também). A questão é que suas despesas estão se acumulando e se tornam a motivação mais eficaz que você tem para procurar emprego. Normalmente, porém, ninguém responde aos seus contatos, e o pior é que se candidatar a vagas sem ser solicitado é a única opção que realmente se alinha com seus gostos e aspirações, porque você está mirando em algo muito específico, algo que você já sabe que combina com você, algo que você gosta e onde você pode prosperar. É uma ação direta. No entanto, também é a opção mais frustrante. Porque você está enfrentando o nada.

Uma das consequências das dificuldades do trabalho ou da busca por emprego é que essa via crucis faz você se sentir uma fraude. Porque você sente que está fazendo algo errado. Que não encontrar um emprego é sua culpa. Que há algo em você que repele os departamentos de recursos humanos, que sua atitude é ousada demais ou tímida demais, que você não se capacitou o suficiente, que está procurando na área errada ou usando a abordagem errada. Por que os outros encontram emprego e eu não? O que estou fazendo de errado? É frustrante porque fazer o que você deveria fazer não está funcionando. E nas raras ocasiões em que alguém explica por que você não está avançando para a próxima etapa do processo seletivo ou por que não foi contratado, a explicação é genérica e impessoal, nunca específica, para ajudar você a entender sua situação, corrigir eventuais erros que possa ter cometido e ajudar você a buscar emprego melhor da próxima vez. Não há nada. E como não há nada, deve haver algo: você. E a culpa recai sobre você.
A verdade é que isso não tem nada a ver com você. Eles não lhe chamam porque existem centenas de pessoas como você, e acertar o tom nas entrevistas é simplesmente, e infelizmente, pura aleatoriedade. Você não sabe o que esperar porque não há como saber qual atitude ou palavras lhe garantirão o emprego, e porque a única coisa que define o processo seletivo é a arbitrariedade e o nepotismo. A única coisa que você pode fazer para conseguir um emprego, além de investir em educação (se puder) e ter um currículo apresentável, é persistir, usando todos os canais disponíveis e até mesmo aqueles que existem, mas que agora estão fora do sistema estabelecido e, eu diria, são ilógicos (como entregar um currículo pessoalmente), e continuar tentando até se esgotar ou até que alguma decisão arbitrária finalmente lhe dê a sua chance.
Se os anúncios de emprego fossem mais claros e a comunicação mais direta, se os critérios de seleção fossem exibidos com destaque na descrição da vaga e se o nepotismo não fosse tão disseminado, seria mais fácil para todo mundo encontrar trabalho. Tudo estaria em nossas mãos e ninguém além de nós mesmos poderia nos culpar pela nossa falta de sucesso. Como seria simples, então, saber o que fazer para encontrar emprego e tranquilidade.
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¹ No texto original é "así que yo diría que a lo que más se parecen nuestras búsquedas es a una variante laboral de esa to-to-tómbola de la canción que ya sabemos", e a tómbola é tipo um bingo de feira em não sei quais países hispanohablantes que virou letra de uma música em que a cantora canta to-to-tómbola (mais ou menos como se cantasse "bin-bin-bingo" em português), aí como eu só vejo bingo em quermesse de igreja e não conheço nenhuma música sobre bingo, troquei a referência da "tómbola de la canción" pelos números cantados no bingo.
² Acho que ninguém usa "sem-fim" para dizer "infinito", mas como no texto original é "sinfín", eu lembrei da asa de uma borboleta entre o planeta e o sem-fim da Cecília Meireles.
As imagens são, na ordem em que aparecem, de Christina @ wocintechchat.com M na Unsplash (a das mulheres em reunião) e de Cytonn Photography na Unsplash (a do aperto de mãos).
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