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17/01/2019

Alcei a perna no pingo e saí sem rumo certo [001]

Eu não poderia começar esta newsletter sem uma referência musical. "Alcei a perna no pingo e saí sem rumo certo" é verso de uma canção chamada Deixando o Pago, do artista gaúcho Vitor Ramil. Em 1997, ele musicou, em ritmo de milonga, diversos poemas de um peão de estância chamado João da Cunha Vargas. Homem de pouca instrução, ele criava as suas poesias e as guardava na memória, durante a lida campeira. Isso não o impediu de criar belas descrições sobre a lida no campo. É uma obra pequena, mas poderosa. 

Se por um lado João da Cunha Vargas era alguém muito simples, o escritor argentino Jorge Luis Borges foi um dos maiores intelectuais do mundo. Aos 55 anos, ficou cego. Viveu até os 86 e, boa parte da sua produção nos últimos anos de vida, foi em forma de poesia. Como não podia mais escrever, criar poemas e repeti-los de cabeça fazia com que ele não os esquecesse. Vitor Ramil também musicou algumas milongas do Borges. Minha favorita é Milonga de los Morenos, cantada em um dueto com Caetano Veloso.

Gosto muito desta coincidência: dois grandes escritores do século XX, um capiau e um erudito, unidos pela memória como instrumento de criação de suas obras.
 

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Gosto muito desta foto que bati em Sobradinho, na Bahia. Apesar de ser no Nordeste, é uma paisagem fria, melancólica e monótona, como uma milonga deve ser. É como se o pampa virasse um lago.


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Coração caborteiro, título da newsletter, é outra expressão tirada de um poema do João da Cunha Vargas, chamado Querência. Uma possível definição para caborteiro é

Cavalo ou outro animal, manhoso, arisco, infiel, velhaqueador, que não se deixa pegar. 
Indivíduo velhaco, esperto, manhoso, mau, mentiroso, trapaceiro, tratante, que vive de expedientes.

Aqui uso caborteiro em uma definição mais próxima daquela dada ao cavalo.

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A grande vantagem de ler Jorge Luis Borges é ter acesso à melhor ficção já escrita no mundo. Uma vez Bill Gates disse "pense globalmente, aja localmente". Borges já fazia isso nos anos 1930, ao tratar de temas universais ao homem (ordem, caos, tigres, labirintos, realidade, acaso, infinito, literatura islandesa medieval) de maneira local. Ao reverenciar Martin Fierro, Borges expande o alcance da história do gaucho argentino, tornando um personagem local em alguém de interesse mundial.

A grande desvantagem de ler Borges é que boa parte do restante da ficção mundial perde um pouco da graça. 


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Não tenho como afirmar isso com certeza, mas desconfio que uma das primeiras pessoas a publicar algo a respeito de ética para robôs tenha sido Isaac Asimov com suas Leis da Robótica. Embora não tenhamos robôs antropomórficos andando por aí, uma boa parte das nossas relações interpessoais hoje em dia são decididas por máquinas.

As timelines não-lineares do Facebook e Instagram, por exemplo, são definidas através do conteúdo com o qual mais interagimos. As tão faladas bolhas nas redes sociais nada mais são do que um reflexo disso. Se eu interajo mais com as publicações do meu amigo Ronald McDonald, elas vão passar a aparecer para mim com mais frequência. Se eu procuro mais informações sobre fotografia, então minha timeline será invadida por propagandas não solicitadas sobre este assunto.

Há quem diga que o #10yearchallenge tenha sido apenas uma tática do Facebook para conseguir dados suficientes para treinar um novo algoritmo de reconhecimento facial. Sim, provavelmente há fotos nossas de 10 anos atrás na internet, mas criar uma hashtag apenas para coletar as melhores fotos possíveis neste contexto, ao lado de uma foto atual, é uma boa jogada. Afinal, estamos fornecendo boas fotos, já com labels adequados, diretamente em um contexto no qual elas podem ser perfeitamente aproveitáveis. 

Lembrando que o Mark Zuckerberg controla o Facebook, o Instagram e o WhatsApp, isto nos leva (ou deveria nos levar) a questionar até que ponto vale a pena fornecer todas estas informações de bandeja apenas para ter serviços que nos permitam compartilhar assuntos que ninguém vai ler, fotos que ninguém vai ver ou conversar com quem não queremos. Mas até decidirmos se vale a pena ou não sermos o produto vendido nas redes sociais, vamos utilizando estes serviços como podemos. Afinal, somos animais sociais.
 



As músicas citadas no texto e algumas outras com uma vibe similar (no sentido lato) estão nesta playlist do Spotify.

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