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Marcus Nunes

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31/01/2019

É a lama, é a lama [003]

Não tenho muito o que dizer no tocante a esta cuestão de Brumadinho. Se fosse escrever algo a respeito, eu não sairia de generalidades e lugares comuns já ditos por muita gente. Mas uma coisa me chamou a atenção e gostaria de compartilhar aqui.

Os três parágrafos abaixo fazem parte de uma das newsletters sobre finanças que assino. Ela foi enviado na segunda-feira, três dias depois do crime (só para contextualizar, VALE3 é o código das ações da Vale na bolsa):

O segundo é esta tirinha um pouco antiga, mas ainda muito atual (a tradução está logo abaixo):

Sim, o planeta foi destruído. Mas por
um lindo momento nós criamos
excelentes retornos para os investidores.


A vida anda imitando a arte demais.

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O título da newsletter é um trecho da letra de Águas de Março, canção do Tom Jobim. Estas três (ou seis ou nove ou doze) palavras ficaram ressoando na minha cabeça assim que vi as imagens do crime (me recuso a chamar de acidente). Águas de Março foi imortalizada num dueto do Tom com a Elis no disco Elis & Tom, de 1974. Ela está disponível para streaming. O álbum inteiro é uma obra e, caso alguém que me lê não o conheça, recomendo que vá atrás dele logo.

Apesar disso, minha versão preferida de Águas de Março foi gravada ao vivo pelo Fito Paez. 


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Ainda sobre Brumadinho, vale a pena ler a coluna do Elio Gaspari de 30 de janeiro. Um trecho:

Fernando Henrique Cardoso gosta de relembrar uma cena na qual o historiador Sérgio Buarque de Holanda discutia o tamanho de algumas figuras do Império e ensinou: “Doutora, eles eram atrasados. Nós não temos conservadores no Brasil. Nós temos gente atrasada.”

Foi a gente atrasada que levou o Brasil a ser um dos últimos países a abolir a escravidão e a adotar o sistema de milhagem para os passageiros de aviões, deixando a rota Rio-São Paulo de fora. É a gente atrasada quem trava os projetos de segurança das barragens que tramitam no Senado, na Câmara e na Assembleia de Minas Gerais. Essa gente atrasada estagnou a economia durante o século XIX e no XX faliu as grandes companhias de aviação brasileiras. No XXI, produziu os desastres de Mariana e Brumadinho.

Jair Bolsonaro elegeu-se presidente da República com uma plataforma conservadora, amparado pelo atraso. Sua campanha contra os organismos defensores do meio ambiente foi a prova disso. Não falava em nome do empresariado moderno do agronegócio, mas da banda troglodita que se confunde com ele. Felizmente, preservou o Ministério do Meio Ambiente. Outra bandeira de sua ascensão foi a defesa da lei e da ordem. A conexão dos “rolos” de Fabrício Queiroz com as milícias do Rio de Janeiro ilustrou quanto havia de atraso na sua retórica. O Esquadrão da Morte do Rio surgiu em 1958 e anos depois alguns de seus “homens de ouro” tinham um pé no crime. Nos anos 70, o presidente da Scuderie Le Cocq era contrabandista, e o delegado Sérgio Fleury, grão-mestre do esquadrão paulista, ilustre janízaro da repressão política, protegia traficantes de drogas. Ronald Reagan e Margaret Thatcher foram conservadores, já os patronos do esquadrões foram e são simplesmente atrasados. Por isso, Nova York e Londres são cidades seguras, enquanto o Rio é o que é. O detento Sérgio Cabral dizia que favelas eram fábricas de marginais.

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Um dos meus assuntos favoritos dos últimos anos é como investir. Como fazer a melhor carteira juntando renda fixa e renda variável. Que ações comprar. Quanto tempo mantê-las. Decidir se o Tesouro Direto ainda vale a pena ou se é melhor comprar um CDB.

Em linhas gerais, o que aprendi com meus investimentos foi o seguinte:

  • Disciplina é fundamental: fazer aportes constantemente, considerando os investimentos como uma parte do orçamento doméstico, é fundamental. Se eu pago aluguel, condomínio, alimentação e similares todo mês, porque não reservar uma parte dos meus para o futuro? 

  • O tempo é a variável mais importante: mesmo tendo alguma experiência no mercado de ações logo após a crise de 2008, invisto a sério apenas há três anos e meio. Aprendi que não tenho controle absoluto sobre o rendimento das minhas aplicações, mas posso decidir por quanto tempo irei mantê-las. Com uma taxa de juros de 6,5% ao ano, o capital dobra em 11 anos. E depois dobra nos próximos 11 anos. E dobra mais uma vez nos 11 anos seguintes. Ou seja, ele multiplica por 8 (2 x 2 x 2) em 33 anos. Com uma taxa de juros maior, o crescimento é ainda mais brutal. Uma taxa de juros de 8,5% ao ano faz o capital multiplicar por 14,76 em 33 anos. Juros compostos são uma maravilha.

  • Calma e paciência são fundamentais: fiz uma conta acima usando um horizonte de 33 anos. Mas 33 anos é bastante tempo. Há 33 anos era 1986. O Brasil tinha uma inflação anual na casa dos três dígitos nesta época. Embora eu não saiba como vai estar o mundo daqui a mais de 30 anos, sei que vão haver altos e baixos na economia. Por isso é importante manter a calma nos períodos tensos.

Claro que estas lições valem para mim, que tenho um perfil de moderado a arrojado. Pessoas diferentes terão aprendizados diferentes.
 

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