[012] Sobre o contexto da arte que consumimos
Certa vez li uma frase que dizia algo como "arte moderna é tudo aquilo que eu poderia ter feito e chamado de arte, mas não fiz". Em geral, imagino que as pessoas pensem em arte contemporânea quando dizem isso, mas não é este o ponto deste texto.
Eu sou suspeito para falar de arte moderna. Meu museu favorito no mundo é o MoMA. Devo ter visitado ele umas três ou quatro vezes. Uma vez vi uma retrospectiva sobre a obra do Tim Burton no local. Além do MoMA, gosto muito do MALBA. Mas tem mais de 10 anos que visitei estes dois lugares pela primeira vez.
Dentre as minhas incursões mais recentes na arte, o último quadro que vi ao vivo e que me impressionou muito foi Saturno Devorando seu Filho, do Goya:

É uma cena forte por si só. Goya tomou um tema mitológico e o pintou com uma paleta de cores escura, que conversa muito bem com o tema da cena. A opção de retratar o evento de forma violenta, com o corpo do filho semi-devorado, adiciona tensão e movimento àquilo que vemos.
Mas ao sabermos que a pintura foi criada logo após as guerras Napoleônicas, numa época em que Goya estava com mais de 70 anos e desesperançado em relação à humanidade, adiciona mais uma camada de informação ao que vemos.
Além disso, Saturno Devorando seu Filho faz parte de uma coleção de 14 obras do pintor chamadas de Pinturas Negras. Elas nunca foram pensadas em serem exibidas ao público: Goya pintou-as para si, diretamente nas paredes da sua casa. Elas sequer foram nomeadas de maneira oficial. O título Saturno Devorando seu Filho foi dado posteriormente, por estudiosos da obra do artista.
Ao contrário de Goya, que era um pintor romântico, Renoir tem a maior parte de sua obra classificada como impressionismo. E dentre os temas abordados por Renoir, paisagens bucólicas, flores coloridas e belos retratos são os principais.
O MASP possui uma obra de Renoir chamada Rosa e Azul. É o retrato das irmãs Alice e Elisabeth Cahen d’Anvers, feito em 1881. Elas eram filhas de um banqueiro judeu que pagou 1500 francos para Renoir pintar as irmãs. Embora não seja a expressão máxima da obra do Renoir, Rosa e Azul é uma pintura expressionista por definição. O assunto do quadro é algo corriqueiro, ao invés de um titã grego devorando seu filho. O trabalho com a luz é fantástico. É possível perceber as pinceladas de tinta no quadro. As cores são puras, praticamente sem misturas entre elas.

Rosa e Azul seria mais um quadro ordinário do impressionismo, sem nenhuma história digna de registro, se não fosse por um pequeno detalhe. Elisabeth, a menina de azul, morreu em 1944. Ela tinha 69 anos e estava sendo transportada como prisioneira para Auschwitz.
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