Fulano, Beltrana, Ciclano — 2

Domingo de Páscoa. Essa família pobre, na casinha de madeira, a menina tetraplégica, e os membros, Fulanos e Beltranas, arranjando seu jeito de ser feliz.
*
Praça de alimentação do shopping mais nobre da cidade. Com mais de setenta anos, rosto repuxado e brilhante, lábios gordos, Ciclana fala e gesticula — barulho de pulseiras e anéis, toda sorte de artigos finos entre pulsos e dedos. Fala e gesticula com Fulano, cerca de quarenta anos, couro cabeludo vermelho, inflamado, mas também marcado de vários pontos pretos, efeito de um muito recente procedimento capilar. Beltrana, idosa e recauchutada, Fulano, jovem e de cabelo transplantado: mãe e filho? De semelhança, guardam apenas os dentes ultraclareados, quase incandescentes, o tom da fala e o assunto: euforia dos negócios, fome de lucro, medo do tempo que passa, depressa.
*
Fulano, marceneiro, não quer saber de trabalhar na manhã desta quinta-feira, véspera de 1º de maio: prefere filosofia. Pausa a máquina de corte, explana para Beltrano, ajudante, isto entre outras: “O tempo vai passando, a gente vai ficando. Ou o tempo vai ficando e a gente indo. Sei lá. Só sei que a gente se esquece dessa verdade: uma coisa vai, a outra fica”. Beltrano, meio atônito, assente, religa a máquina.
*
Da casa 102, quarta-feira, dez da manhã, vaza o gospel estridente, escandaloso. Em home office, Beltrana, vizinha de porta, berra: “Abaixa essa merda!”. Sem retorno. Decide ir até lá. Fulana abre, olho vidrado, respiração ofegante de crente possuída. Beltrana cobra bom senso, reforça que não consegue se concentrar, tem reunião dali a pouco etc. Fulana moraliza: “Musica de Deus não atrapalha”. E Beltrana, em resposta fumegante, à queima-roupa: “Mas é calando a boca que Deus me ajuda a pagar as contas”.
*
Ciclano definha. É 1996: devorado pela AIDS, teme a morte próxima. Morrerá, aos 30 anos, dentro dois dias. No entanto, num canto frágil de ave doente, agnóstico, diz a Fulana, irmã, sentada na poltrona ao lado da maca: “Pelo menos agora vou descobrir o que tem do outro lado”.
*
Beltrano capina. Sabe da sorte do seu destino, sabe do seu infortúnio. Mas não pensa: capina, sua e respira. As vozes do campo são mais altas do que as vozes da sua cabeça.
Acompanha a farfalhada niusleter? Que tal apoiá-la? Você pode fazer uma contribuição espontânea ou recorrente, em qualquer valor, via PIX, através do código QR abaixo. Ou, de forma contínua, através do Apoia-se, clicando aqui.

A farfalhada niusleter é o meio mais livre e satisfatório por onde espalho, na internet, meus escritos fragmentários de muitos temas e tons: dos arranhões filosóficos e políticos baseados, quase sempre, no debate sobre civilização e ecologia, aos meus haicais, haibuns e zuihitsus da vida cotidiana.

Abraços e até a farfalhada #120,
Felipe Moreno
>>> Leia as niusleteres anteriores <<<
>>> Instagram: @frugalista <<<