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May 12, 2026

Monotecnologismo e misticismo sintético


Do que falamos quando falamos de tecnologia? Da gente leiga à especialista, a regra tem sido associar tecnologia aos aparatos técnicos que, desde a modernidade ocidental, povoam o mundo e transformam os corpos e a biosfera através do modelo de hiperprodução e sintetizações materiais. Yuk Hui chama de monotecnologismo o fenômeno da tirania tecnológica com base na cosmologia de uma mesma civilização.

Subsistem, hoje, em segundo ou terceiro plano, as tecnologias de si — aquelas que, no seu apogeu, forjaram monges e artistas, filósofos e bruxas, alquimistas e xamãs. Antropotécnica é um outro termo que Peter Sloterdijk concede àquilo que, de forma muito semelhante, Foucault especulou como cuidado de si. Digamos: aventuras exercitantes que abarcam um largo espectro, das terapias brandas dos hipermodernos aos ascetismos hardcore dos antigos.

Imperativo é que a hegemonia da antropotécnica atual é, sem dúvida, a do vício tecnológico, da fé irrestrita nos progressos tecnocientíficos. A cultura se fecha, cada vez mais, ao monotecnologismo ocidental e à tecnofilia; passa a acreditar que estes são os únicos recursos a nos salvar das danações primárias da existência: insuficiências e descontentamentos de toda ordem, doenças, tragédias abruptas, morte.

Nosso monotecnologismo e nossa tecnofilia avançam com o intuito de aprimorar o humano — lê-se: a casta escolhida, e não nós, sub-humanos aos olhos demoníacos de um Peter Thiel e um Alex Karp — até alçá-lo, pela via sintética, finalmente, à condição que santos e místicos, de variados tempos, culturas e tradições perseguiram por meios de exercícios extremos, ascetismos orgânicos (não raro, à beira da megalomania): eternidade, bem-aventurança, felicidade suprema. Arroubos narcísicos, digamos agora, da monotecnofilia que descamba no transumanismo (hoje, ainda, condição mais exótica e especulativa do que concreta).

A sanha por uma busca final — essa teleologia dos bilionários — parece de ordem megasintética, uma grande síntese cosmológica, de mesma operação que liga o monoteísmo à monocultura. Nesse caso, porém, a aposta e a ofensiva são ainda mais extremadas. O quanto nos custa admitir que aquilo que reside no fundo das promessas da ciência da computação, da biotecnologia e da engenharia genética é o desejo de refundar um Éden sintético ou de atingir um nirvana de laboratório?

Uma outra perversão encontra-se no cálculo estratégico dos próprios bilionários com intenção de reformatar o futuro por completo: a conclusão filosófica de que a santidade e a bem-aventurança estão reservadas não mais a qualquer exercitante radical — mas somente aos brancos de poder colossal. É quando, afinal, mística e eugenia dão as mãos novamente. A última tentativa de instaurar esse pacto tenebroso tem local específico e data recente: Alemanha, 1933.

Para que uma caixa de pandora se feche, talvez não baste apenas fechá-la: é preciso abrir outra caixa. Nesse caso, a caixa de ferramentas de cuidados de si, técnicas humanas, outras tecnologias, a miríade de exercícios e práticas que forjaram experiências de consciência extrapoladas, obras de arte magníficas, culturas, povos e civilizações. Toda cosmovisão deriva de um exercício. Toda cosmologia é a narração de uma prática que a precede e sustenta. Podemos, assim, falar de cosmopráticas — que levariam ao surgimento das cosmotécnicas (Yuk Hui). A insistência no cosmos, aliás, não é capricho estilístico ou lisergia decolonial; é a ampla disputa que abrange sobrevivência e poder político. Lembremos: não são os teóricos pós-estruturalistas quem mais reinterpretam e reinserem cosmologias no mundo: são os bilionários tecnofascistas.

Se falamos de poesia, também falamos de tecnologia. Se falamos de artes marciais, dança ou ioga, idem. Daí a importância de reacendermos a miríade de antropotécnicas das asperezas, quer dizer: o horizonte multifacetado de tecnologias de si mediadas por recursos mais orgânicos do que sintéticos, mais corpóreos do que intangíveis, mais aterrados do que transcendentais. Seria necessário, para isso, se aferrar a preceitos que se dirigem, mais ou menos, da seguinte forma: nenhuma biotecnologia será capaz de propiciar estados alterados ou refinados de consciência como uma medicina da floresta, guiada por um xamã, ou uma prática meditativa tradicional, a longo prazo; um chip ou um comprimido jamais deverá produzir os mesmos efeitos, no corpo e na consciência, que sofisticadas acrobacias, providas pelas mais telúricas das tecnologias; não haverá laboratório ou procedimento cirúrgico invasivo que nos proporcionará contentamento e compaixão mais que as práticas que põem as vísceras a trabalhar; não existirá possibilidade de mística e encantamentos sem pés que pisam esta terra com extrema atenção.


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A farfalhada niusleter é o meio mais livre e satisfatório por onde espalho, na internet, meus escritos fragmentários de muitos temas e tons: dos arranhões filosóficos e políticos baseados, quase sempre, no debate sobre civilização e ecologia, aos meus haicais, haibuns e zuihitsus da vida cotidiana.


Abraços e até a farfalhada #119,
Felipe Moreno

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