Desterro

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24 de Maio de 2026

zísifo

Desterro
Notas soltas de um corpo em deriva

Acordo antes do despertador, quase sempre. Não é virtude, é falha de sono. O corpo levanta antes da decisão, como se já soubesse que não adianta negociar. As mãos vêm dormentes, um formigamento meio distante, como se fossem de outra pessoa. Vou ao banheiro, volto, fico olhando o café passar como quem espera alguma resposta. Não vem nada. Só o dia.

Saio cedo. A cidade ainda está meio vazia, e eu atravesso esses poucos quilômetros como quem empurra alguma coisa invisível. Não penso muito, porque pensar atrapalha o movimento. Na escola eu falo, explico, organizo o passado em linhas que parecem fazer sentido. Digo “Primeira República”, “crise”, “guerra”, como se houvesse ordem nas coisas. Às vezes me escuto e penso que estou interpretando alguém mais estável do que eu. Funciona. Os alunos não precisam saber do resto.

O cansaço vem antes do fim. Não é muscular. É um cansaço que se instala atrás dos olhos, como se a cabeça estivesse sempre um pouco tarde demais em relação ao corpo. Quando acaba, não acaba. Volto pra casa com essa sensação de ter gasto alguma coisa que não sei nomear. Café de novo. Um descanso que não descansa. Fico entre deitar e levantar, entre fazer e não fazer, como se qualquer decisão exigisse um esforço desproporcional.

À noite as coisas mudam de peso. Não é que fiquem piores de repente, é mais como se a gravidade aumentasse. A saudade vem sem pedir licença. Dos meus pais. Dela. Do que poderia ter sido e não foi. É uma presença sem corpo, ocupa espaço, exige atenção. A comida entra aí, meio como tentativa de conversa com o vazio. Não resolve, mas adia. Às vezes funciona o suficiente para repetir no dia seguinte.

No meio disso tem o treino. Eu não sei explicar direito o que é o crossfit pra mim sem cair em clichê, então evito explicar. Só vou. Levanto peso, erro movimento, tento de novo. Não tem grandeza nisso. Tem repetição. Uma espécie de insistência física que não pede justificativa. Enquanto estou ali, o mundo diminui. Não porque melhora, mas porque se concentra. A barra, o chão, a respiração. Por alguns instantes, isso basta.

Nunca pensei muito em felicidade nesses termos. É uma palavra grande demais, meio deslocada da realidade de quem está só tentando atravessar o dia. Mas tem alguma coisa ali, na repetição, que se aproxima de um tipo de trégua. Não é solução, não é transformação. É só uma pausa no ruído. Um espaço curto em que a cabeça não corre tanto.

Depois eu volto. Casa, remédio, silêncio. Às vezes fumaça. Às vezes comida demais. Às vezes nada. Fico rolando o celular como quem passa o tempo de um jeito meio automático. O problema não é exatamente o que eu faço, é a sensação de que estou sempre reagindo, nunca conduzindo. Como se a vida estivesse acontecendo num ritmo que não é o meu.

Os dias vão se acumulando assim. Não como uma sequência lógica, mas como camadas. Segunda, terça, quarta — nomes que não mudam muita coisa. Eu acordo, trabalho, treino, volto, repito. Não tem grande revelação no meio disso. Também não tem um colapso definitivo. Tem continuidade.

Às vezes penso que é isso que sustenta. Não uma ideia forte, não uma motivação clara, mas essa continuidade meio teimosa. Levantar mesmo sem vontade, comer alguma coisa, sair de casa, empurrar o corpo um pouco mais, voltar. Não é bonito, não é inspirador. Mas é o que está acontecendo.

E no fim do dia, quando tudo já diminuiu de volume, eu percebo que ainda estou aqui. Não exatamente melhor, não exatamente pior. Só aqui. E, por enquanto, isso parece suficiente para continuar.

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