[Abas Abertas #2] Jabutis, lesmas do mar, gorilas, homens de meia idade
Após uma primeira existência como jabuti no PL 2630, a proposta de obrigar plataformas digitais como Google e Facebook a remunerarem empresas jornalísticas pelos excertos de texto e imagens usados em publicações nas redes sociais ou resultados de buscas reencarnou no ambiente mais apropriado do PL 2370, no qual a deputada Jandira Feghali (PCdoB) apresenta uma consolidação das normas que regem os direitos autorais.
O quelônio se manifestou em cima de uma jabuticabeira em novembro de 2021, quando o relator do projeto de Lei das Fake News, deputado Orlando Silva (PCdoB), apresentou seu parecer preliminar ao plenário da Câmara contendo o artigo 38º. Na época, critiquei na rede social anteriormente conhecida como Twitter a inclusão do tema no PL 2630, em lugar de seu tratamento em um projeto de lei específico, que permitisse maior detalhamento dos mecanismo e discussão mais ampla com a sociedade civil. O contexto era de apreensão com os possíveis efeitos da desinformação nas eleições de 2022 e o clima em Brasília incentivava a aprovação de qualquer lei que permitisse combater as táticas usadas pela extrema direita em 2018. O lobby das emissoras de televisão, capitaneado pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), se aproveitou do momento para tentar passar a remuneração junto com o restante da boiada.
Ironicamente, o ardil das emissoras acabou por condenar o PL 2630 como um todo, porque o lobby das plataformas digitais respondeu desproporcionalmente, chegando ao ponto de se aliar à extrema direita e à bancada da Bíblia. O resultado foi o pior possível para o cidadão brasileiro, porque, excetuando o artigo 32º e alguns outros detalhes, a Lei das Fake News traria avanços importantes quanto à transparência e responsabilização dos serviços de redes sociais e mensagens instantâneas.Caso a remuneração de conteúdo jornalístico pelas plataformas digitais se mantenha quando o PL 2370 se tornar lei, os profissionais, empresários e pesquisadores do setor estarão diante de um desafio complexo: onde traçar a linha entre jornalismo e a merda produção de conteúdo?
Neste post em meu weblog, faço uma análise da proposta de remuneração e seus pontos fracos.
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Em um evento raríssimo, um juiz determinou a demolição de um prédio de luxo, por ter sido construído sobre uma Área de Proteção Ambiental sem a devida análise e as autorizações necessárias. E isso em Blumenau, capital de Sankt Katarreich, onde quem anda pela floresta só vê lenha para fogueira. Infelizmente, é provável que a decisão seja derrubada em instâncias superiores, porque, afinal, como dizia o poeta coreano, no Brasil "crime ocore nada acotece feijoada!".
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Enquanto isso, em Porto Alegre, o prefeito Sebastião Melo quer privatizar um viaduto após o Paço Municipal ter investido dinheiro do contribuinte na reforma do mesmo.
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Quem acha pouca a quantidade de babacas ao volante de carros ou ao guidão das bicicletas em Porto Alegre vai ficar feliz em saber que em breve os quadros da babaquice voltarão a contar com os babacas do patinete.
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Sete coisas que garantem vendas quando estão na capa de um gibi, segundo Carmine Infantino, diretor da DC entre o final dos anos 1960 e o início dos 1970:
- Gorilas
- Dinossauros
- Motocicletas
- Um fundo roxo
- A cidade em chamas
- O herói chorando
- Uma pergunta direta ao leitor (qual é o segredo assustador do sétimo herói? Etc.)
Em janeiro, resolvi aproveitar o fato de que muitos farialimers acreditam nas mentiras que eles mesmos contam aos clientes sobre os governos petistas e investi algumas economias em ações da Petrobras e outras empresas menos cotadas. Até o momento, o patrimônio investido já aumentou 30% e, levando em conta apenas PETR4, bateu em 60%. Esse é o momento em que muito sujeito de meia idade se perde e começa a operar a bolsa como se fosse um cassino.
Olhando os números, a sensação é de que deveria ter vendido minha alma imortal e colocado tudo em Petrobras, porque tinha certeza de que o preço baixo era fruto de preconceito contra Lula. É claro, eu provavelmente só tive muita sorte, porque a coisa poderia facilmente ter ido por água abaixo em 8 de janeiro. Outro risco é o sujeito se achar um gênio ainda não descoberto do mercado financeiro. Neste vídeo, Ellen Colbert relata como perdeu todo o seu dinheiro quando começou a investir em ações, justamente por ter se deixado levar por uma espécie de falácia do jogador.
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Há muito tempo não me acontecia de ler algo e me identificar imediatamente com o autor, querer sentar num bar com ele para tomar umas cervejas e virarmos melhores amigos. Uma amiga recomendou este texto do romeno Cristian Lupșa e sinto como se pudesse bater na porta da casa dele amanhã, ir sentando no sofá e pedindo um café. Ambos somos jornalistas, ambos somos professores, ambos estamos na casa dos 40, ambos somos brancos meio gordos, ambos sofremos para entender onde traçar a linha entre sermos amigáveis com os estudantes e os constranger inadvertidamente porque, queiramos ou não, somos figuras de autoridade.
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Recentemente, um amigo me lembrou das tirinhas Wagner e Beethoven. Nunca soube quem era o autor destes que talvez tenham sido os quadrinhos mais engraçados já publicados no Brasil. O boato era de que trabalhava na Playboy. Talvez por ser jornalista, gostava especialmente da série Conan, Repórter Investigativo.
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É possível que a Costasiella kuroshimae, conhecida como ovelha de folhas apesar de ser uma lesma do mar, seja o animal mais fofo do mundo.
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Um leitor me perguntou por que o TinyLetter em vez do Substack. O TinyLetter oferece menos recursos e esta é justamente a razão de ter optado por este serviço. Por um lado, me força a investir no texto. Por outro, a ausência de funcionalidades avançadas evita todo o aviltamento que costuma acompanhar os likes, as recomendações e a monetização. Isso dito, o TinyLetter está de fato em clima de fim de feira. O botão de conexão com o Twitter não funciona mais e ninguém se deu o trabalho de retirar da interface. Na primeira edição do Abas Abertas, não consegui fazer upload de uma imagem ‒ uma vantagem, no fim das contas, porque me levou a decidir fazer algo o mais próximo possível do que fazíamos nos anos 1990. Caso o TinyLetter vá fazer companhia ao Orkut no cemitério da Web 2.0 e a quantidade de leitores justifique, talvez migre para o Mailchimp no futuro.
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ERREMO: Daniel Pellizzari me alertou que, ao contrário do relatado no Abas Abertas #1, o CardosOnline nunca teve circulação diária, mas inicialmente saía duas vezes por semana com todos os COLunistas e, mais tarde, se estabeleceu um rodízio de metade dos titulares por edição.