[Abas Abertas #17] Ói nóis aqui traveis
A prefeitura de Porto Alegre vem realizando gestões para viabilizar a Operação Urbana Consorciada Nova Ipiranga, a qual ofereceria a despoluição do arroio Dilúvio e melhorias de infraestrutura em troca de permitir a construção de prédios mais altos no entorno da avenida homônima. Não sou em princípio contrário à iniciativa, porque, francamente, é difícil piorar a paisagem urbana ao longo dessa artéria de trânsito dividida ao meio por um curso d’água pestilento. Ao contrário do Quarto Distrito ou de bairros como Petrópolis, a avenida Ipiranga nunca foi charmosa ou convidativa, então não há muito a perder em termos arquitetônicos. A via é uma boa candidata a uma renovação urbana, ainda que focada nos interesses do mercado.
Infelizmente, os especuladores imobiliários em Porto Alegre são insaciáveis ao ponto de ser difícil acreditar em um bom resultado para a capital a partir da iniciativa, mesmo neste caso em que há pouco a perder. Reportagens da Matinal, Sul21 e a colunista do Jornal do Comércio Bruna Suptitz levantaram alguns dos pontos problemáticos da proposta. Um dado no texto da Matinal, escrito por Tiago Medina, me chamou a atenção em especial: a prefeitura trabalha com a perspectiva de receber entre 13 mil e 46 mil novas pessoas na região. De onde saíram esses números?
A projeção é estranha, porque a capital gaúcha vem apresentando déficit populacional nos últimos anos. Assim, decidi ler o relatório 5.5.1, que trata de questões populacionais. A partir da página 32, há uma breve discussão da literatura científica sobre o assunto, na qual a consultoria contratada pelo Paço reconhece o problema da queda no número de habitantes. Segundo o documento, dois fatores responsáveis pelo decrescimento são a emigração para cidades da Região Metropolitana, nas quais há mais oferta de empregos, e o crescimento vegetativo insuficiente para a reposição populacional. Conforme o relatório,
A partir de uma análise dos dados do registro civil do município, Diniz aponta que “o número de mortes passou de 16,2 mil em 2018, para 19,2 mil em 2019, subiu para 20 mil óbitos em 2020 e alcançou o pico de 23,3 mil em 2021. A estimativa é que haja cerca de 19,5 mil óbitos em 2022. Por conseguinte, a variação vegetativa era positiva em 2018 e 2019 e se tornou negativa nos 3 anos seguintes. Há evidências de que a migração não alterou significativamente estas novas tendências.” (DINIZ, 2022).
O artigo citado não está nas referências bibliográficas, mas apurei que se trata deste texto de José Eustáquio Diniz.
Um terceiro fator ao qual o relatório atribui a redução populacional seria um suposto erro de cálculo do IBGE. O documento dedica mais parágrafos a essa hipótese do que às outras, mas no fim admite a qualidade superior à média do resto do país na coleta de dados para o Censo 2022. Claramente, há uma tentativa de amenizar uma realidade prejudicial ao projeto da OUC Nova Ipiranga e aos interesses dos xiitas do concreto.
Embora toda a argumentação teórica possa levar o leitor a concluir pela ausência da necessidade de um aumento significativo na oferta de domicílios em Porto Alegre, o relatório chega ao juízo contrário:
O futuro populacional de Porto Alegre pode seguir diferentes trajetórias. Um cenário possível é a continuidade do declínio populacional, impulsionado pela continuação das tendências atuais, como a migração para outros municípios da região metropolitana e a queda nas taxas de natalidade. Esse cenário sugere que Porto Alegre pode continuar a perder habitantes para cidades vizinhas, especialmente se não houver políticas urbanas eficazes para reverter essa tendência. No entanto, um cenário alternativo envolve a retomada do crescimento populacional, impulsionado por projetos estratégicos de desenvolvimento urbano, como a OUC.
A resposta à questão da origem da projeção de 13 a 46 mil novos habitantes a serem atraídos pelo projeto é, portanto, uma tautologia. Não há uma demanda real por novas residências ou espaços comerciais a ser atendida pela Nova Ipiranga, mas apenas a esperança de que a OUC crie essa demanda, na contramão de todos os indicadores demográficos atuais. É a justificativa Campo dos sonhos: “construa e eles virão”.
O leitor mais atento pode perguntar qual é o problema nisso, se o resultado final for a despoluição do arroio Dilúvio, o embelezamento de uma região pouco atrativa e a melhoria da infraestrutura em geral. Se os apartamentos e salas comerciais ficarem vazios, azar de quem gastou dinheiro neles, certo?
Talvez. Neste caso, no entanto, seria necessário garantir primeiro esses aprimoramentos, depois a liberação de construções, pois, do contrário, há o risco de alguns arranha-céus subirem e as empresas usarem a inviabilidade econômica como justificativa para desistirem da OUC. Alguém mais cínico poderia até mesmo supor que o objetivo de todo esse carnaval é justamente esse. Não seria a primeira vez em que uma prefeitura no Brasil promove a libertinagem imobiliária sob promessas de retorno à sociedade em obras que, no fim das contas, ficam para as calendas.
Mesmo se a OUC der certo, o impacto geral na cidade pode ser negativo. Logradouros como a Protásio Alves, a Farrapos ou a própria Rua dos Andradas, antes centros de comércio relevantes, hoje estão com muitos espaços fechados, ou ocupados por estabelecimentos de baixa qualidade. Uma Nova Ipiranga pode aguçar a decadência de outras áreas de comércio e serviços mais antigas. Porto Alegre, afinal, está longe de ser uma capital em ascendência econômica e, por isso, é temerário contar com uma expansão capaz de ocupar tanto os antigos quanto os novos espaços.
O mesmo problema pode se dar com domicílios. Há mais de uma década os imóveis usados estão com preços estagnados em Porto Alegre, se os valores forem corrigidos pela inflação do período. Um aumento da oferta visando 40 mil novos habitantes pode acabar pressionando ainda mais para baixo o valor e, assim, prejudicar a capacidade econômica dos atuais proprietários de imóveis. Azar o dos rentistas, é claro, mas essa pressão talvez também dificulte a vida de trabalhadores em ascensão que desejam trocar um imóvel antigo por um novo, por exemplo. Habitantes de bairros periféricos podem ver uma redução de seu patrimônio, ao competirem com uma oferta maior em bairros centrais.
Finalmente, os investidores da Nova Ipiranga podem se ver pendurados no pincel, quando precisarem liquidar seus apartamentos ou salas comerciais para usarem o dinheiro noutra coisa e descobrirem a inexistência de demanda. Hoje em dia, construtoras e corretoras vêm oferecendo imóveis à classe média usando uma estratégia de marketing irresponsável e predatória, com promessa de ganhos “garantidos” com aluguéis por temporada. É muito possível Porto Alegre estar inflando uma bolha imobiliária. Se for o caso, quando ela estourar não apenas os otários vão se ver em maus lençóis, mas será mais um baque em uma cidade já decadente. Seria ruim para todo mundo.
---------------------------------
Apavorado pela conta de eletricidade de fevereiro do ano passado, resolvi investigar opções de energia solar, mas, como este boletim entrou em hiato, publiquei o resultado completo em meu weblog e apresento abaixo um resumo.
Algumas empresas oferecem cotas em usinas para quem não possui telhado próprio. A EcoPower, que atua em Porto Alegre, me enviou orçamentos tanto para instalação doméstica quanto para participação em modelo cooperativo. Em ambos os casos, a energia gerada é injetada na rede da concessionária e abatida na conta de luz, restando apenas as taxas fixas. A microgeração é regida pela Resolução 482 da ANEEL. Um sistema adequado ao meu consumo exigiria 28 m² bem iluminados, custando na época cerca de R$ 13 mil após desconto. Já a cota em usina, solução para quem mora em apartamento, sairia por R$ 16,1 mil, com portabilidade em caso de mudança.
O retorno financeiro, porém, difere bastante. A instalação doméstica se paga em três anos, enquanto a cota em usina demora cerca de sete, devido à taxa de manutenção. A geração em telhado renderia R$ 400 mensais em créditos, contra R$ 150 da cota. As estimativas consideram reajustes médios de 8% e 10% respectivamente, embora o histórico da tarifa elétrica mostre aumento médio de 8,3%.
Comparei ainda com investimentos financeiros. Aplicados no Tesouro IPCA+ 2040, os R$ 16 mil renderiam R$ 72 mil em 25 anos, bem abaixo dos R$ 244 mil previstos para a geração solar. Já fundos imobiliários, com proventos de 1% ao mês, superariam amplamente esse resultado, acumulando até R$ 316 mil se os ganhos forem reinvestidos. Nesse cenário, a cota de usina fica cerca de 23% atrás, mas continua sendo boa opção ambiental e financeira. Instalar painéis em casa, porém, ainda é o melhor negócio: gera economia imediata, quase zera a conta de luz e, se o retorno mensal for reinvestido, pode render mais de R$ 740 mil em 25 anos.
---------------------------------
Andei lendo o fascinante Gente ultraprocessada, de Chris Van Tulleken, e recomendo o livro a todas as pessoas interessadas em compreender melhor as recomendações nutricionais contemporâneas. De quebra, poderão conhecer uma das mais relevantes contribuições brasileiras para a ciência: a classificação de alimentos NOVA, criada pelo pesquisador Carlos Monteiro, que deu origem ao Guia Alimentar para a População Brasileira adotado em 2014. Em vez de se preocupar com a composição molecular dos alimentos – carboidratos, gorduras, proteínas, sais minerais, calorias, vitaminas –, uma perspectiva típica dos Estados Unidos e Europa, a NOVA os encara como comida e divide em minimamente processados ou in natura, processados e ultraprocessados.
Como todo gringo, o médico britânico Van Tulleken duvidou à primeira vista da proposta e dos resultados dos estudos conduzidos por um pesquisador brasileiro em uma universidade da América Latina. Como poucos gringos, todavia, ele resolveu colocar à prova as descobertas. Para sua própria surpresa, precisou dar razão a Monteiro e à equipe do pesquisador na USP. O livro relata os experimentos pessoais do autor com essa abordagem totalmente contraditória para sua cultura e, ao mesmo tempo, apresenta uma história crítica da ciência nutricional no último século. O resultado é um livro muito interessante sobre como a ciência é produzida e ao mesmo tempo um bom manual de como podemos nos relacionar melhor com a comida.
---------------------------------
Coleta seletiva
Separar o lixo
Conhecer as partes do lixo
Tirar do lixo os nobres metais
E reciclar então
---------------------------------
Disposto a desenferrujar meu francês, também li recentemente dois dos primeiros livros de Édouard Louis, O fim de Eddy (En finir avec Eddy Bellegueule) e História da Violência (Histoire de la violence). O primeiro se dedica a narrar a infância de um menino gay de família pobre no interior da França e chama a atenção pela semelhança de sua experiência com a do interior do Brasil e, suponho, de qualquer país de cultura derivada da europeia. Em prosa fluida e engajante, o autor desenha o corredor estreito e sufocante – até mesmo para os homens comprometidos com ela – da visão de mundo machista e da cultura interiorana. No segundo livro, Louis experimenta com uma narrativa não-linear centrada em um episódio de violência sexual de que o protagonista é vítima, focando na maneira como a pessoa lida com essa experiência nos dias imediatamente posteriores e nos desdobramentos sobre sua psique.
---------------------------------
Cansado de dar dinheiro para mais um bilionário safado que trata mal os artistas e da constante bostificação do aplicativo, decidi abandonar o Spotify e adotar o Qobuz, após ler uma comparação entre diferentes serviços no boletim do Brian Merchant. Pertencente a uma empresa canadense, o Qobuz paga muito mais aos detentores dos direitos autorais por faixa executada do que a concorrência. Além disso, a qualidade do áudio é muito superior à do Spotify – perceptível mesmo para alguém sem ouvido para esse tipo de coisa, como eu. O serviço é focado na música, então o aplicativo não tem uma interface poluída com funcionalidades inúteis.
O lado ruim é não hospedarem podcasts, mas isso também pode ser encarado como uma vantagem, pois o certo mesmo é ouvir esse tipo de programa em aplicativos dedicados. Após alguns meses de uso, sinto falta apenas das recomendações semanais baseadas no histórico do Spotify, pelas quais descobri muita coisa boa. Em compensação, o Qobuz oferece uma “revista” com artigos sobre artistas e listas curadas pela agência Bananas, fundada por ex-alunos meus da PUCRS. Além disso, há integração com o Last.fm, que oferece recomendações baseadas em histórico.
A migração de playlists e álbuns favoritos do Spotify para o Qobuz é bastante simples e gratuita.
---------------------------------
Por falar em música, assisti Pecadores e estou apaixonado pela versão do filme para a canção Will ye go, Lassie go?, cantada por Lola Kirke. A versão de Rocky road to Dublin na voz de Jack O’Connell, em cena na qual o ator resgata seu passado em competições de sapateado irlandês, também é muito boa. Toda a trilha sonora é excelente, sobretudo a voz grave de Miles Caton, que faz o papel do jovem rapaz em busca de se tornar um bluesman, ou a execução de Pale, pale moon pela atriz Jayme Lawson. No entanto, eu realmente tenho uma conexão maior música folclórica gaélica, como os assinantes mais antigos sabem, por isso as duas primeiras músicas se destacaram.
O filme em si é um dos mais originais a que assisti em muito tempo, inclusive por colocar como antagonistas dos negros os irlandeses, etnia com histórico de opressão pela Inglaterra e pouco mais tolerada nos Estados Unidos dos anos 1930 do que os descendentes de africanos. Com isso, entre outros aspectos da obra, o diretor Ryan Coogler convida o espectador a um debate nuançado sobre as estruturas de poder e a interseccionalidade. Quem não estiver com muita vontade de refletir sobre a sociedade, mas gosta de terror ou de música, certamente vai se divertir com Sinners.
---------------------------------
O ano passado foi muito ruim para quase todo mundo que conheço e meu caso não foi exceção. Por isso, Abas Abertas entrou em recesso involuntário, com a última edição enviada em março de 2025, quando prometi tentar manter a periodicidade mensal após um recesso de um semestre. Quase um ano depois, reitero em frente ao Rei Momo o desejo de enviar uma nova edição deste boletim aos assinantes mais ou menos uma vez por mês e faço votos de que o 2026 se iniciando nesta Quarta-Feira de Cinzas seja menos ordinário para todos nós.