Vapor, água e gelo
“Quando estou contigo, me sinto nas nuvens”
Lembra, quando te disse isso
Enquanto massageava seus pés
calejados e delicados?
Tu não achaste bonito
“imerso em vapor, água e gelo?”
E ainda assim sorriu
Esforçava-me para agarrar-te
efêmera como vapor d’água
dona de mim nas horas ociosas
minha única ocupação era tu
Tu que escorrias pelos dedos
pudim, doce, cor de rosa, suave
em minha ânsia de não perdê-la
apertei
Observei enquanto caía
Liquefeita, atingiu o chão
esparramou-se
Ainda assim eu queria te lamber
disforme e esplêndida
escorrendo pelo ralo
“Você parece ansioso. Tem algo errado?”
Sim. Tem. Sempre teve. Sempre terá.
Esse mundo horrível e violento.
Essa falta de sentido.
Esse não saber do amanhã.
Essas memórias forjadas.
Esses traumas, esses vícios.
Essa moto barulhenta que não me deixa te ouvir e o medo de te pedir para que repitas.
Essa previsão de chuva que não se concretiza.
Essas nuvens escuras.
Quando estava contigo, sentia-me nas nuvens
Tempestuosas
Parecem sólidas, mas são apenas vapor, água e gelo
Imaginava que me aqueceriam como algodão
porém, congelavam
Jogo me sobre elas, esperando que me segurem
mas são apenas vapor, água e gelo
Choveu
Granizo
Quebrou o para-brisa do meu carro
ensanguentou meus olhos
e pude ver melhor
A tempestade, o pudim, os pés
Foram-se
Restou-me o chão
Meu chão
Entendi que das nuvens espera-se sombra, água
banhos, ventos, trovões e relâmpagos
Espetáculos da natureza
como tu
Mas não se corre sozinho em um campo vazio durante a tempestade
Nuvens não sustentam castelos, nem sonhos
Eu era apenas homem e queria dançar contigo
feita de vapor, água e gelo
Agora sou montanha
Terra, raiz e rocha
Sustento castelos e sonhos
Por vezes sou mais alto que as nuvens
Por vezes, as tempestades sequer me atingem
As nuvens respeitam-me
pedem permissão
Por vezes atravessam-me
por vezes me tomam
Não sou soberano
tampouco vassalo
Montanhas são também
espetáculos da natureza
e como tais exigem reconhecimento
Reconheço-me
Venha
dance comigo
Tu, Vapor, água e gelo
Eu, Terra, raiz e rocha
Derrame-se sobre mim
Escorra sobre mim
Te absorvo
Nutro-me
Torno-te nascente e rio
Levo-te ao mar
devolvo-te aos céus
Apenas para sentir novamente
tuas gotas acariciando-me
recebendo meu calor
Quer receber mais Reflexões Divergentes em seu e-mail?
Quer conversar sobre o texto? Envie uma mensagem no chat de Reflexões Divergentes!
Recomendações Divergentes
Hoje recomendarei algumas poetas do Substack.
Não perca o que vem a seguir. Inscreva-se em Reflexões Divergentes:



Adicionar um comentário: