Sobre carros, ônibus, caminhadas e o (não) direito à cidade
Na sexta-feira passada, saí do trabalho as 21h30. O ônibus que me levaria para casa passaria 45 minutos depois e eu precisava caminhar quinze minutos até o terminal. Decidi dar uma volta pelo centro da cidade, alongar minha caminhada, fazê-la durar mais tempo. Estava frio, mas não me intimidei. Caminhei, sem intenção alguma de interagir com as pessoas ou com nada que acontecia, apenas observando, sentindo o calor da rua. A rua tomada de gente é um maravilhosa. Histórias e mais histórias. Pude ver pessoas e sorrisos bonitos. Pude ouvir frações de músicas e de conversas, sem nada entender. Vi fachadas de lugares até então desconhecidos. Passei por becos escuros fedendo a mijo. Observei lambes com mensagens em defesa do aborto legal e seguro. Abracei uma amiga que encontrei passando pela rua. Entrei pela porta dos fundos de um bar e saí pela porta da frente, apreciando o ambiente boêmio. Só olhei meu celular para ver se não precisava me apressar. Não precisava.
No ônibus, ouvi música e cantei silenciosamente.
Isso só foi possível porque eu não dirigi até o trabalho e não voltei para casa em 20 minutinhos. Demorei uma hora a mais, porém, eu vivi essa uma hora. Eu existi durante essa hora.
Sobre ter e dirigir um carro
Tenho um carro desde o final de 2018. Eu morava em Garopaba, uma cidade de 20 mil habitantes no litoral sul de Santa Catarina. Uma cidade que nega o acesso a quase tudo quando não se tem um carro. Especialmente ao lazer. Diante das condições péssimas do transporte público e da minha condição financeira, comprei um carro. Dois anos atrás me mudei para a capital do estado e não refleti sobre essa decisão, tomando-a como algo natural.
Após ficar afastado do trabalho por ansiedade, comecei a refletir sobre o quê em minha vida me deixa ansioso. Não foi difícil perceber que dirigir em meio ao trânsito caótico e agressivo de Florianópolis era um dos problemas. Ser agressivo e se colocar em perigo são duas posturas corriqueiras no trânsito, especialmente quando o tráfego é mal organizado. Eu consigo fazer isso, mas me desgasta mental e emocionalmente. Diante disso, uma solução aparentemente óbvia se apresenta: “e se eu usar o transporte público?”
Eu tive um pouco de dificuldade. Perdi o hábito de sair mais cedo, de chegar no ponto de ônibus no horário, de não poder carregar um monte de cacarecos no banco de trás do carro. Foram três dias ensaiando até eu efetivamente conseguir. Mas, valeu a pena.
Dirigir é um trabalho perigoso. Requer atenção. Bater o carro pode ser caro ou até mesmo fatal — para você ou para outras pessoas. É insano como nos acostumamos a tratar com tanta leviandade algo tão perigoso. Dezenas de milhares de veículos transitando a velocidades que podem matar um ser humano, todos a poucos metros de distância uns dos outros, a poucos metros das pessoas que caminham nas calçadas, sem nenhum tipo de proteção. E muitas vezes quem dirige não está em condições emocionais e psicológicas para lidar com um instrumento tão mortal quanto um carro. As pessoas são afetadas pelas pressões do capitalismo-colonial-patriarcal que se expressam em contas a pagar, cobranças e picuinhas do trabalho, jornadas múltiplas envolvendo ganhar dinheiro, reproduzir a vida e cuidar de filhos; por seus celulares e pela cultura de desatenção promovida por empresas bilionárias que lucram com nossa atenção; e, é claro, por drogas, prescritas ou não.
Eu estava neste grupo. Cada vez mais ansioso, impaciente, irritadiço e propenso a fazer merda. Cheguei ao ponto de pensar “se eu bater meu carro, eu tenho um motivo pra não chegar no trabalho hoje”. Um perigo para mim e para os outros.
Há muitos argumentos sobre as vantagens de ter um carro. É cômodo, é confortável, está sempre disponível, poupa tempo (esse recurso aparentemente tão escasso no capitalismo tardio). Mas, para além de tudo isso, existe uma cultura carrista, especialmente entre os homens cis. É um fetiche. Mostrar que entende de carros é status. Ter um carro é status. Poder ter um carro e optar por não tê-lo, é praticamente assassinar a própria masculinidade, assim como dirigir de forma tranquila e segura. Muitos homens cis tem orgulho de dirigir acima do limite de velocidade e se vangloriam do quão imprudentes conseguem ser.
No fim, é mais uma expressão do capitalismo-colonial-patriarcal. A indústria automobilística gera muito lucro para um pequeno grupo de bilionários. Ela se alimenta de consumismo e propaganda. Ela alimenta empreiteiras com obras gigantescas que prometem resolver o problema insolúvel de ter um número crescente de veículos, alimenta a ideia colonialista e insustentável de crescimento linear, em que mais é sempre melhor. Alimenta o individualismo, em que cada pessoa deve buscar o seu próprio conforto, sua própria solução para o problema do deslocamento.
E nós ficamos espremidos em meio a isso.
Porque escolhi ficar espremido dentro do ônibus
No ônibus, pude apenas esperar. É cansativo esperar, ficar em pé durante a maioria dos trajetos e aguentar o vai e vem do trânsito. Porém, é um tempo que não preciso ter atenção, não preciso produzir e nem consumir. Posso olhar pela janela e perceber como o tempo passa lentamente.
Também posso produzir e consumir, se eu quiser. Estive assitindo um curso sobre Hegel, estudando francês, ouvindo um podcast de Vampiro, a Máscara, lendo livros. No carro eu também ouvia podcasts, mas, garanto, é bem diferente quando você está preocupado em não ferir ninguém enquanto conduz uma arma letal. Dividir a atenção é algo que estamos tão acostumados que nem percebemos o quanto é cansativo. No ônibus, meu corpo cansa mais do que no carro, porém, minha mente cansa menos. Ou, ao menos, fico com ambos igualmente cansados, o que ajuda na hora de deitar na cama e dormir.
Mas, antes que você que fica horas por dia no transporte público fique puto comigo: eu reconheço os privilégios que tenho. Posso pegar um único ônibus até o trabalho, ele passa na esquina de casa e chego em 45 minutos ao trabalho. Eu posso, por vezes, pegar um ônibus executivo por 5 reais a mais e ir sentadinho nos horários de trânsito mais horrível. Meu trabalho não é horrivelmente desgastante e eu não tenho compromissos que me exijam pressa para chegar em casa, como crianças para cuidar, por exemplo. Estou refletindo sobre como minha situação particular se relaciona com a estrutura que nos cerca.
Tá, mas no título falava sobre direito a cidade. E aí?
Naquela noite de sexta, eu pude viver a cidade. Assim como em tantos dias que caminho pelas ruas do centro no caminho para o trabalho. A rua é viva. É lugar de diálogos, de troca, de arte. As paredes falam. Pessoas se encontram. Nos expressamos nela, mesmo em silêncio, através de nosso estilo, nossa postura.
Ao pensar em uma outra cidade possível, espaços coletivos e de troca são fundamentais. Eu sonho com outro espaço-tempo¹ em que não precisemos ter que contar cada minuto para chegar, seja por medo de descontos no salário, ou por medo de perder o ônibus e ter que esperar 40 minutos para pegar o próximo e, assim sendo, poder viver as interações que as ruas proporcionam. Uma cidade em que os espaçõs públicos sejam amplos, vivos, espalhados por toda parte. Que seja construída para que andemos por ela, entre as pessoas, e não para que a atravessemos o mais rápido o possível, para produzir, voltar para casa e nos preparar para produzir mais no dia seguinte.
O carro é avesso à tudo isso. Em primeiro lugar, ao nos deslocarmos de carro nós não vivemos a aleatoriedade das ruas. A aleatoriedade inerente à vida. Nós acabamos por não conhecer a cidade de uma perspectiva humana, mas sim de uma perspectiva de quem busca atravessá-la com rapidez. Uma perspectiva que serve para aumentar a produtividade e não para existir como um ser humano em uma comunidade.
O carro é um veículo essencialmente individualista. Não privilegia interações. Não exercita a solidariedade. Vai do ponto A ao ponto B apenas com base no que é mais interessante para um indíviduo. Sem levar em conta que ocupa uma parte considerável do espaço urbano. Aliás, a cidade é construída para os carros e para quem tem carro. Existem lugares que são quase inacessíveis sem um carro. Existem horários que são inacessíveis. Ou seja, além de alienar os condutores, os veículos ainda são um meio e uma justificativa para uma organização excludente do espaço urbano.
E os carros tem cada vez menos personalidade. Cinza, prata, branco e preto. Cada vez mais uniformes. Cada vez menos customizados. Cada vez expressando menos a humanidade de quem os conduz. Uma paisagem urbana cada vez mais monótona.
Uma cidade só de carros versus uma cidade sem carros
Imaginemos uma cidade em que não há transporte público, nem bicicletas, nem calçadas. Uma cidade só de carros. Imaginemos quanto espaço seria necessário para estacionar esse número de veículos. Quantas pistas e vias seriam necessárias para que todos esses veículos pudessem se deslocar. Imaginemos a poluição sonora, visual, auditiva e atmosférica. Imaginemos uma cidade esfacelada, em que ninguém mais se vê, em que o acaso não acontece. Uma distopia.
Agora, imaginemos uma cidade sem carros. Ruas com calçadas amplas, com ciclovias, com ônibus circulando tranquilamente, em grande quantidade, sem atrasos devido ao trânsito intenso, uma cidade onde nos deslocamos por trens, metrôs e balsas. Sem precisarmos conviver com veículos mortais dirigidos por pessoas exaustas, apressadas e pressionadas pelo capitalismo-colonial-patriarcal. Uma cidade com mais espaço para parques e praças, para encontros, para a expressão, para a aleatoriedade que dá cor ao cotidiano. Uma cidade que não tenha um centro onde tudo acontece. Uma cidade descentralizada, em que não precisemos constantemente nos deslocar por dezenas de quilômetros para acesar direitos básicos, como educação, saúde e cultura.
Não precisamos chegar ao extremo da abolição total dos carros. Mas, certamente, uma cidade que seja construída para as pessoas, para a coletividade, para o encontro, para a troca, para vivermos nela e não através dela é uma cidade bonita de se sonhar.
Recomendações Divergentes
Hoje li esse texto maravilhoso da Lyara Vidal sobre estarmos sempre disponíveis na internet, como isso nos afeta de tantas formas problemáticas e sobre as estratégias que ela adotou para lidar com isso.
Também estou lendo o livro “Rest is Resistance”, da Tricia Hersey, em que ela fala sobre como descansar e retomar o nosso espaço de sonho e de existir no tempo é uma forma de resistir ao capitalismo, baseando-se em pretitude, ancestralidade e uma análise histórica do capitalismo e da supremacia branca. Para uma prévia, tem este podcast (em inglês)
Créditos da imagem: foto de Departamento de Trânsito de Munique
Adicionar um comentário: