Fugindo das Big Techs. Buscando uma vida online melhor.
Cansado das redes sociais controladas por grandes corporações que lucram com ódio e manipulação, decidi agir. Neste artigo, conto minha jornada para migrar para o Fediverso — uma internet mais autônoma, descentralizada e humana — e por que você também deveria considerar esse caminho.
Olá, pessoal!
Me mudei do Substack para cá. É parte do meu processo de fugir do domínio das Big Techs sobre a internet. Eu ando incomodado com isso faz algum tempo, e agora decidi agir.
Empresas que financiam ódio e violência
Uma amiga minha saiu do Instagram com ódio (muito justo, recomendo super) e ia abrir uma página no substack. Eu conversei com ela e recomendei não fazer isso, pois o substack lucra com conteúdo neo-nazista. Ela me apontou que a Meta também não é uma empresa nada legal. Aliás, é uma das empresas mais desgraçadas de todas.
Os bilionários donos da Meta lucram com incitação ao ódio, com promoção de conteúdo misógino, com o adoecimento de adolescentes, além de censurar conteúdo pró-palestina.
Isso pra mim é um ótimo argumento para não usar nem a Meta nem o Substack.
O Inédito Viável
Como bom freireano que sou, uma crítica tem que apontar para uma possibilidade de ação. Existe a ação coletiva necessária que é exigir a regulamentação das redes sociais. Essa é uma ação urgente, mas que depende de articulação institucional. Qualquer pauta, precisa primeiro ganhar visibilidade e ser minimamente compreendida antes de tomar o corpo necessário para gerar mudanças sociais. A ação coletiva parte do envolvimento individual.
Então, enquanto indivíduo, o que fazer?
Vou falar sobre a minha decisão. Não sei se é a ação mais estratégica, mas, entre ficar olhando angustiado enquanto o mundo é destruído ou fazer alguma coisa, eu escolho a segunda opção.
Eu decidi, aos poucos, sair da aba das big techs. Em tudo que for possível. E é muito mais acessível do que parece. Começando pelo meu navegador, e-mail e motor de busca, algo chamado “desgoogle”, mas vou falar sobre isso outro dia.
Hoje quero falar sobre sair das redes sociais sob propriedade das big techs, especialmente das redes sociais da Meta, Instagram e Facebook.
Eu vou contar um pouco do caminho que estou trilhando. Meu objetivo é te inspirar a também sair dessas redes.
Fugir da Meta é a meta
As redes sociais da Meta, Facebook, Instagram e Whatsapp, seguem sendo as mais utilizadas no mundo. Parece inescápavel, não é mesmo? Mesmo detestando o Instagram, muitos de nós não consegue sair porque ele está tão emaranhado no tecido social, na forma como as relações acontecem, que parece não ter negócio.
Inclusive, uma pesquisa feita na universidade de Chigago perguntou o seguinte:
“Se dois terços dos estudantes em seu campus concordarem em desativar [o Instagram e/ou o TikTok], quanto você precisaria receber (ou pagar) para fazer o mesmo?"
Resultado: cerca de 48% das pessoas estariam dispostas a pagar 10 dólares para se desconectar do Instagram e 28 dólares para se desconectar do TikTok por um mês diante dessa possibilidade. Ou seja, as pessoas ficam nas redes sociais das big techs porque existe uma pressão social para tal.
A ideia de pagar para sair das redes é surpreendente, mas faz sentido. Um pequeno relato:
Eu exclui meu perfil do Instagram e recomecei do zero. Eu escolhi a dedo quais páginas e quais pessoas iria seguir. Meu objetivo era claro: saber da vida de mis amigues e saber da programação cultural da cidade. Na primeira semana até que rolou legal.
Na segunda semana já começou a ficar difícil.
Na terceira semana eu já comecei a perder a programação cultural da cidade, porque o feed não me entrega o conteúdo que eu quero, mas sim o conteúdo que o algoritmo calculou pra prender o máximo possível a minha atenção.
As redes corporativas são construídas em cima de um algoritmo cujo objetivo é lucrar a partir da sua atenção organizando o conteúdo que você consome. E isso não deveria ser aceitável, afinal de contas, isso causa uma série de problemas de saúde mental.
Mas tem algo que dificulta nosso processo de simplesmente parar de usar as redes sociais. Elas fazem parte do tecido social contemporâneo, pois dada a complexidade da sociedade e, consequentemente, o quanto as nossas vidas são complicadas, elas são um jeito de compartilhar o quê pensamos e sentimos e encontrar comunidades que sentem e pensam parecido, assim como são uma forma de nos comunicar com pessoas queridas.
Exceto que o Instagram não serve para isso. Serve pra consumir conteúdo, não pra gerar laços e conexões reais. E não, ficar enviando reels pras pessoas não é a mesma coisa que fazer a manutenção de uma amizade.
Eu quero ouvir a voz das pessoas, ver as fotos das pessoas, saber o quê as pessoas queridas estão pensando e sentindo, não quero saber que conteúdo engraçadinho elas estão consumindo.
Então a gente deleta o Instagram?!
Para algumas pessoas é uma boa solução. Se você é do tipo que vive bem sem redes sociais, delete todas elas e viva melhor.
Mas, têm pessoas como eu, que não vivem bem sem redes sociais. Eu perdi a conta das vezes que desativei e voltei pro insta. Porque tem alguma coisa que me atrai de volta e não são os reels, nem a lógica de máquina de caça níquel. É que eu quero falar para o “mundo”, com o “mundo”.
Mas, quem é o mundo?
No Instagram nossa visibilidade e alcance para pessoas que pensam minimamente diferente da gente são infímas. Na real, a gente não vê nem as publicações dos nossos amigos direito, imersas num mar de conteúdo indesejado.
E tem uma certa promessa da internet de que você pode falar para “o mundo inteiro ouvir”, que você pode crescer, viralizar, ter seu momento fugaz de fama.
Mas, do quê adianta isso?
Eu estou fazendo a escolha consciente de conversar com mis amigues, e, quem sabe, com amigues de mis amigues. Eu quero mudar o mundo, sim, mas minha responsabilidade enquanto um mísero ser humano nesse mundo gigantesco e caótico é afetar aquelas pessoas que estão ao meu redor e esperar que o efeito cascata afete mais pessoas.
Só que, por enquanto, as pessoas com quem eu quero falar, estão nas redes sociais proprietárias. Então, não adianta eu simplesmente virar as costas e ir embora.
Meu plano é diferente: vou criar contas nas redes sociais do Fediverso, começando pelo Mastodon, que é uma plataforma de microblogging (estilo o falecido twitter), e no Pixelfed (que é uma plataforma para postar fotos e imagens).
Ao mesmo tempo, vou conversar com as pessoas que conheço sobre os motivos pelos quais estou fugindo das big techs e vou convidá-las para conhecer as redes sociais federadas.
Uma outra internet é possível e já está acontecendo
Redes sociais federadas, essa é a ideia do fediverso. Ao invés de toda a nossa informação ser propriedade uma única gigante da tecnologia que faz o quê bem entender com nossos dados, o fediverso tem outra lógica. Segundo “um guia de entrada para o fediverso”:
“As redes descentralizadas surgem como uma resposta a um cenário marcado por crescente vigilância, controle de dados e dependência tecnológica. Essas redes, ao contrário das plataformas tradicionais, operam com uma lógica distribuída. Funcionam por meio de servidores
independentes (chamados de instâncias) que se comunicam entre si.”A grande força desse espaço federado está na autonomia e customização. Cada instituição ou pessoa pode:
+ Escolher ou criar sua própria instância
+ Consumir apenas conteúdos selecionados, sem
interrupções publicitárias e/ou interferências
informativas
+ Definir regras de entrada e moderação
+ Personalizar identidade visual e tipos de
conteúdo
+ Criar hashtags locais, filtros, avisos, conexões
preferenciais
Em troca de tudo isso, perdemos um pouco de comodidade e conveniência. Ao invés do conteúdo vir servido em uma bandeija de prata (envenenada) para você, você vai atrás do conteúdo. No primeiro login, via estar tudo em branco no seu feed, afinal de contas, você acabou de entrar e ainda não escolheu conteúdo nenhum.
Estranho?
Mas pense comigo, isso faz todo sentido. Você só vai ver o conteúdo que você escolhe ver. Nada de sugestões aleatórias. Se você estiver interessado em algo específico, pode procurar por uma hashtag e fuçar um pouco até encontrar o quê te agrada. É o preço da autonomia. E eu pago com gosto.
Conclusões?
Eu já falei o que tinha para falar. Então, me siga no https://organica.social/@sergiotorlai e no pixelfed.social/sergiotorpe, ou assine essa newsletter, caso queira saber mais dessa minha empreitada e queira receber outros textões problematizadores!
Se cuida.
Sergio.
-
Muito pertinente. Recomendo a leitura de "A Máquina do Caos" de Max Fisher.
-
Revolucionário! Bora!
-
Acompanhando com bastante interesse. Obrigado por compartilhar seu percurso e apontar algumas saídas possíveis. Aguardo com curiosidade você falar mais sobre o DesGoogle.
Adicionar um comentário: