Reflexões Divergentes

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24 de Outubro de 2024

Cremação

Por favor 
queimem-me 
quando da minha morte. 
não acredito em deuses 
diabos, anjos ou espíritos. 
Nossa mortalidade já é ínfima 
diante da infinitude contida 
em uma colher de brigadeiro. 
Não preciso nada além de um doce 
para sofrer de vertigem existencial. 

Não desejo que meus átomos (em verdade nunca pertenceram a mim nem a ninguém, nem às mãos que tentaram tocá-los e foram repelidas por seus campos elétricos causando-me longos arrepios atômicos, esses sim, muito, muito meus) sejam enterrados em uma caixa de madeira morta ou que as longas cadeias carbônicas de meus ossos mantenham uma vaga forma bípede humanizando algo que já não sou.

Libertem o gás carbônico e a água deixem que venham a ser parte das araucárias do futuro ou das sementes de espécies que ainda não surgiram.

Deixem ser respiradas por agrupamentos biológicos cuja probabilidade de existir é quase nula mas existirão, como brincadeira probabilística de um tempo tão longo que entedia-se com sua própria passagem e com a repetição do mar do qual os restos imortais dos átomos atemporais que constituíram este corpo farão parte, indo e vindo e rindo alheios à sua própria finitude.


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