Assunto de extrema importância
Sobre unhas pintadas, Leis de Newton, cálculos emocionantes e a humanidade em cada um de nós.
1ª Aula
Recebi um e-mail de uma aluna minha com o título: “Assunto de extrema importância”.
O conteúdo: “Gostaria de avisá-lo que irei comparecer ao nosso compromisso de quinta-feira ao meio dia com vários tons de esmalte roxo, como você havia mencionado que tinha preferência à tal tonalidade. Se o senhor, por algum acaso, tiver preferência à algum outro tom de esmalte, por favor me avisar." (texto dela).
Eu, é claro, confirmei minha presença e a minha preferência por esmalte roxo.
O combinado era o seguinte: eu iria fazer uma revisão sobre as 2ª e 3ª Leis de Newton, um pouco antes do horário da nossa aula e faríamos as unhas ao mesmo tempo. Além dela, um grupo de umas 10 pessoas deve ter comparecido, na maioria, meninas. Eu imprimi algumas páginas com questões, entreguei a elas e disse: “escolham as mais difíceis, escrevam as respostas e venham aqui para eu criticar suas respostas. Não se preocupem com a resposta perfeita, eu vou sempre fazer alguma crítica para melhorar sua compreensão”. Não sei se foi o fato de uma das meninas estar pintando minhas unhas, se foi a preocupação com uma avalição na semana seguinte, a vontade de aproveitar o momento e aprender física, ou um pouco de cada coisa, mas, foi uma revisão muito boa. Elas discutiam entre si, traziam para mim, eu tirava as dúvidas, e enquanto isso, essa aluna maravilhosa pintava minhas unhas. Teve outra menina que foi apenas para fazer as unhas junto com a gente, mas ela estava com o ouvido atento ao que eu explicava para as colegas.
No fim, elas sugeriram que nós fizessemos isso todas as semanas. Eu disse a que era uma ótima ideia: eu saio com as unhas coloridas e elas aprendem física no processo.
Eu borrei um pouco minhas unhas na sequência, pois precisei escrever no quadro. Nada muito grave. Continuam lindas. A minha nail designer arrasou (E no fim, mudei de ideia sobre o esmalte roxo). Vejam só:
2ª Aula
Tive outra aula nesse mesmo dia. No início da aula, perguntei aos alunos: “o que nós fazemos quando estamos errados?”
Um estudante respondeu:
“Pedimos desculpas para nós mesmos pelo erro e não o repetimos”.
“Isso, pedimos desculpas para nós mesmos e para as pessoas implicadas em nosso erro, e, se possível, o corrigimos”, respondi, completando com: “errei, fui mlk.”
Mas, para contextualizar, preciso falar de alguns eventos precedentes.
Em uma aula anterior um aluno havia me perguntado o porquê de, em algumas instalações elétricas, quando ligamos o chuveiro diminui o brilho das lâmpadas. Eu dei uma resposta genérica “tem a ver com a instalação elétrica” e segui a aula. Mas isso me incomodou. Não apenas pela resposta ser genérica, mas porque eu mesmo não sabia responder.
No dia anterior à essas aulas, eu estava explicando um conteúdo parecido no laboratório de física e percebi um erro conceitual meu. Algo que eu repetia irrefletidamente ao longos dos anos, da forma que estava escrito nos livros didáticos, para supostamente simplificar a compreensão dos aluno.
Eu estava explicando errado como funcinonam os curtos-circuitos. Fiquei um bom tempo pensando onde estava meu erro. Eu poderia ter consultado um livro de física mais avançado, mas, não o fiz. Estava exausto, cheguei em casa me sentindo tonto e com dor. Dormi muito cedo.
Acordei às 7 da manhã pensando sobre circuitos elétricos e o que eu estava explicando errôneamente. Fiz experimentos mentais e deduzi na minha cabeça uma equação que resolveria a questão. Levantei da cama e, enquanto a cafeteira passava o café, verifiquei em um aplicativo que meus cálculos estavam corretos. Enfim, entendi o meu erro.
Agora, de volta à 2ª aula desse dia. Abri o mesmo aplicativo e expliquei em detalhes para eles o meu erro, explicando inclusive o meu processo de perceber que estava errado e o que fiz para entender. Uma parte da turma acompanhou muito envolvida no processo. Ao final, pude ver surgindo neles a a satisfação de entender mais profundamente um fenômeno físico que não é tão simples quanto parece. Então, fiz uma proposta:
“Eu posso deduzir uma equação que prova tudo isso matematicamente. Ela vai ocupar o quadro inteiro, então fica a critério de vocês se querem que eu faça ou não.”
Na verdade, eu não tinha feito isso ainda. Eu pensei o cálculo que precisava ser feito quando estava deitado na cama, mas não o coloquei no papel. E as coisas são muito diferentes no papel do que são na cabeça.
“Já que estamos nesse assunto mesmo, pode fazer professor”.
Então, propus que fizessemos juntos, passo a passo. Expliquei cada conceito físico e cada procedimento matemático que eu fiz, pedindo ajuda deles para verificar se não tinha nada errado. Chegamos a uma solução e tivemos o prazer de cortar vários termos no final, confirmando que estavámos corretos:
“É isso pessoal, vamos agora fazer um pequeno intervalo e começaremos na sequência o estudo do eletromagnetismo”.
Uma estudante, então, sugeriu:
“Acho que esse cálculo merece palmas”.
E eles aplaudiram. Um pouco pela zoeira, porque faz parte de estar em uma sala cheia de adolescentes. Mas, também foi porque eles puderam entender algo novo e complexo. E há uma satisfação única nisso e acredito que pude fazer alguns desses jovens sentirem isso naquele dia.
Sobre nosso tamanho diante do universo
As aulas desse dia me fizeram pensar sobre minha relação com a escola e sobre meu recente adoecimento psíquico. Eu passei por uma crise ansiosa alguns meses atrás. Na verdade, ainda estou me recuperando. A ansiedade me paralisou, me tirou o prazer de viver e a capacidade de fazer coisas que eu gostava, me tirou o sono e me fez ter ideação suicida. Começou na pandemia e piorou quando vim trabalhar em Florianópolis. Por estar em um local de trabalho com uma cultura muito tecnicista, acabei influenciado por ela. Aos poucos, vi meu jeito de ser professor sumindo, enquanto fui adotando uma postura fria e distante dos alunos.
Eu não sou e nem quero ser um “professor tradicional”. Eu não quero que a escola seja esse lugar conservador, que reforça uma cultura de autoritarismo, cobrança, sobrecarga e ansiedade. Eu estava preso nessa cultura, angustiado, olhando para um monstro muito maior do que eu e não me vendo em condições de enfrentá-lo. Estava preso na ideia de que se eu não posso vencer o sistema inteiro então minhas ações são inúteis. Tudo ou nada. Então, restava aceitar o nada, ceder, mesmo indo contra tudo aquilo que acredito.
É impressionante como não temos chance alguma de enfrentar o sistema quando estamos sozinhos. E eu estava sozinho e isolado.
Participar da greve foi um passo fundamental para meu processo de cura. Conheci pessoas incríveis, dispostas a lutar por uma escola melhor, diferente. Construí laços de solidariedade que só se constroem na luta coletiva.
Tive que me afastar do trabalho por algum tempo, para cuidar da minha saúde mental. Quando voltei, voltei diferente. Voltei a ser rebelde, mas, com uma diferença muito importante: me humanizei. Minha terapeuta foi fundamental nesse processo, e me fez uma questão que me balançou de um jeito que há muito tempo eu não balançava.
“Se você humaniza todo mundo ao seu redor, por que você se desumaniza tanto?”
…
Que pancada bicho.
Entendendo que sou apenas um ser humano diante de um mundo muito grande, passei a refletir sobre o quê está em meu alcance. Não posso destruir o sistema, não posso mudar totalmente a lógica tecnicista da escola, não posso derrotar o monstro.
Está no meu alcance: fazer aulas que respeitem o tempo dos alunos, ser acolhedor, abrir espaços de diálogo, propor métodos avaliativos que não gerem sobrecarga e minimizar a ansiedade causada. Posso incentivar o diálogo e as relações, posso mostrar que sou falho e humano e que tudo bem, é isso mesmo que devemos ser. Posso demonstrar interesse no que as adolescentes estão fazendo, e sentar e pintar as unhas com elas. Afinal de contas, se eu me abro, talvez incentive as pessoas a se abrirem, por exemplo, a aprender física.
Faço o que faço pautado em teorias da educação. Paulo Freire é uma referência fundamental para mim. Também me oriento por aquilo que quero e acredito. Me oriento por uma sociedade mais justa, igualitária, acolhedora. Posso refletir esses valores em minha prática cotidiana. Posso gerar questionamento e estranhamento. Posso problematizar o sistema através da ação.
Entender a nossa pequeneza diante do universo é libertador.
Isso é totalmente diferente de se sentir irrelevante. Eu entendo que as mudanças estruturais são feitas através da ação coletiva e, em nenhum momento, me afasto disso. Só é possível sustentar a dissidência se você está apoiado em um coletivo. Do contrário, você sucumbe.
E eu não vou sucumbir.
Porém, se ficamos presos em pensar nas grandes mudanças necessárias e na magnitude incomensurável do problema, corremos o risco de ficar paralisados. Essa é uma estratégia das classes dominantes para parar nossa ação, nos convencer de que o mundo está em colapso, que o capitalismo venceu, que não tem mais nada que podemos fazer.
Então, agora estou pensando no que efetivamente posso fazer e fazendo. O melhor remédio contra a angústia do fim dos tempos que temos sentido é agir. Agir agora, do jeito que dá, do jeito que você consegue. Não é se sobrecarregando que você vai mudar o mundo, a sobrecarga é só um atalho para o adoecimento. Agir pode, pelo contrário, diminuir a sobrecarga.
Eu escolhi o sindicato como espaço de luta coletiva. Estou participando pouco, pois não consigo me envolver profundamente no momento. E tudo bem.
Eu participo de projetos de extensão que acolhem pessoas fora do padrão, que geram vínculos e conexão. Eu pinto as unhas com minhas alunas. Eu dou um intervalo no meio da aula quando vejo que os alunos estão cansados. Eu falo para as pessoas que conheço para largarem as redes sociais de conteúdo rápido. Eu abraço as pessoas que gosto quando as encontro.
Eu entendi agora. Eu sou apenas um ser humano e vou fazer aquilo que é possível para um ser humano. O que é possível para um homem, negro, queer, latino-americano que sofre de ansiedade.
Sobre a escola e a vida
A escola pode e deve ser um lugar vivo, acolhedor, diverso, divertido, desafiador. É também um local de trabalho que gera ansiedade e sofrimento como qualquer trabalho no capitalismo. Além disso, é um local de aprendizado e de relacionamento. Aprender e se relacionar são duas coisas difícies, complexas, demandam muito de nós. E faz parte do processo educativo enfrentar e superar as dificuldades, afinal de contas, aprender é mudar, e mudar dói.
Mas, o desafio, a mudança, as dificuldades, não precisam ser fontes de adoecimento. Podemos acolher e nos acolher. Ser generosos conosco e com aqueles ao nosso redor. Pensar que cada pessoa, cada estudante, cada trabalhador, é muito humano, muito mais complexo, tem questões muito mais profundas do quê “foi mal na prova de física porque não estudou". Podemos enfrentar toda a pressão para impor um ritmo e uma cobrança desumanizante e fazer diferente. Dia a dia, aula a aula.
Quando reflito sobre meus métodos, percebo que não tenho certeza se estou fazendo a melhor escolha educativa. Porém, isso me faz questionar aqueles que tem certeza que estão. Mesmo que de forma incerta, se eu puder fazer da escola um lugar um pouco mais vivo, se eu puder causar menos ansiedade e sofrimento, então está valendo a pena.
Uma tontura que teve fim
Voltando ao começo da história: desde o dia anterior àquelas aulas eu estava me sentindo tonto e com a cabeça meio pesada.
Curiosamente, depois dessas duas aulas, quando sentei no ônibus para voltar para casa, percebi que essa sensação tinha passado.
Nada mais a constar, encerro este assunto de extrema importância.
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Recomendações Divergentes
Pegue 10 minutos do seu dia, sente-se ou deite-se em um lugar confortável e fique com os olhos fechados, em silêncio. Se puder, faça isso agora. Vai te fazer bem.
A Maki escreveu esse texto maravilhoso sobre escrita, redes sociais e conexão. Eu tinha pensado em escrever um texto com ideias parecidas, e não vou mais, porque já fui contemplado.
Comecei a ler os escritos de Abdullah Öcalan, um dos líderes do PKK, o partido revolucionário do Curdistão, que está à frente da Revolução Curda, uma revolução fundamentada na libertação das mulheres e no enfrentamento do patriarcado e do colonialismo. São ideias muito interessantes e acho que podemos nos inspirar em muitas delas para pensar a América Latina.
Se quer ler uma crítica anticapitalista de alguém que escreve muito bem, recomendo a Ana Rüsche.
Para quem lê em inglês, especialmente para os trabalhadores da educação, recomendo o texto abaixo, falando um pouco sobre como a uniformização dos currículos nos EUA levou a uma deterioração da saúde mental dos adolescentes. O autor relaciona isso com o fato de tirar da escola aquilo que a torna um lugar vivo e divertido. Muito interessante.
Por fim, seguindo no meu ativismo anti redes sociais, sugiro dedicar 5 minutos e meio do seu tempo para assistir o vídeo abaixo. Mande para pessoas que acham que 5 minutos é tempo demais para assistir a um vídeo.



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