Alf
“Sua próxima palavra se materializará”.
Foi isso que a deusa do destino me disse. Desde então, eu não falei um A. Tive vontade de falar isso, assim: “A”, só pra ver se uma letra iria se materializar na minha frente. Não tive coragem de desperdiçar uma dádiva divina com uma piada.
— Quer mais macarrão? — Tina me perguntou. Eu fiz que sim com a cabeça. Ela jogou o macarrão com raiva no meu prato e espirrou molho quente na minha camisa limpa. — Não aguento mais isso, Alfredo. Me conta que porra é essa que você tem na boca, que já faz cinco dias que tu não diz a letra do teu nome.
Eu dei de ombros e fui colocar a camisa pra lavar, antes que manchasse. Sabe, o problema é que a deusa do destino não me disse “sua próxima frase” ou “seu próximo desejo”, ela disse “sua próxima palavra”. Palavra!
Pense bem, se eu disser “um milhão de reais”, deu errado, o “um” é que vai se materializar.
Mas o que diabos seria “um”?
Vesti outra roupa, me despedi com um aceno de uma Tina furiosa e fui para o trabalho. Fazia cinco dias que eu não respondia um e-mail. A deusa do destino nunca disse “a próxima palavra que você falar”, ela não especificou, então era melhor não arriscar. Se eu começasse escrevendo o e-mail como sempre: “prezado”, possivelmente um “prezado” se materializaria. Talvez fosse até bom, uma pessoa por quem eu prezo, aparecer assim. E se ela só teletransportasse, por exemplo, o meu irmão, que podia estar bem no meio de uma cirurgia, fazendo ele se materializar na minha frente. Pobre paciente, abandonado com um bisturi no baço.
Por sorte meu trabalho me permitia não falar nada. Eu era professor. Aproveitei para colocar em prática o estilo de um antigo professor de geografia que só passava filme. Toda aula eu entrava, sem nem dar bom dia, colocava um vídeo para passar e deixava a criançada tocando o terror na sala. Eu quase gritei “silêncio” em uma das aulas. Seria trágico. Fiquei imaginando o mundo inteiro se tornando um lugar permanentemente silencioso. Que perigo!
Era melhor eu não ir mais ao trabalho. Eu precisava escolher logo essa maldita palavra, antes que eu enlouquecesse.
É, Mario tinha razão, ele me disse para tomar cuidado com as dádivas da deusa do destino. Eu estava amaldiçoado.
Ao sair do trabalho estava transtornado. Sentei num banco do Parque dos Lagos.
Comecei a listar mentalmente as palavras. Pelo menos eu podia pensar sem materializar nada. Pizza, mas seria uma única pizza? Dinheiro. Quanto, um centavo? Todo o dinheiro do mundo? Amor. Um conceito abstrato parece muito perigoso de se materializar. Revolução! Mas que tipo de revolução seria? Sem contar que revolução pode ser uma volta ao redor de algo. Precisava de algo muito específico, algo singular, algo sem duplo sentido.
Um vira latinha se soltou da coleira do seu humano de estimação e veio em minha direção, abanando o rabinho. Ele babou na minha perna. O dono veio correndo, chamando-o.
— Volta aqui, Alf!
O safadinho, querendo estender o passeio, saiu correndo.
Em direção à Avenida dos Lagos.
Eu me levantei e corri atrás dele, mas não ia dar tempo.
Alf seria atropelado.
Em um impulso eu gritei:
— Alf!
O cachorro parou e olhou.
Para mim.
E para si mesmo.
Quando eu cheguei em casa com um vira-lata no colo, a Tina me perguntou:
— De onde você tirou esse bicho?
Eu ri e respondi:
— Do nada.
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