A Imagem da imagem do Sol
O Sol se punha vermelho.
Era sábado, eu estava voltando do trabalho, caminhando devagar até o terminal. Quando cheguei ao Largo da Alfândega, eu o vi.
Vermelho. Não o alaranjado comum. Não aquela cor de pôr-do-sol, eu o vi Vermelho.
Poluição.
Uma imagem linda. Assustadoramente linda. Não é todo dia que se vê o Sol Vermelho. Não parei para apreciar. A imagem combinava com uma caminhada lenta.
Em verdade, vermelho não descreve bem. Não há palavras boas o bastante para descrevê-lo. Tantas cores estavam sendo dispersadas na atmosfera pelas partículas de poluição que “vermelho” é um conceito muito simplório para captar aquela cacofonia de cores. Por isso escrevo Vermelho, com V maiúsculo. É um nome próprio, para uma situação e uma combinação únicas de cores. Aquela concentração de partículas poluentes, aquele ângulo do Sol em relação à Terra, não se repetirão. Então, aquela cor, é única. É Vermelho.
Diante da imprecisão das palavras, as pessoas sacam os celulares de seus bolsos. Apontam as câmeras de 12, 15, 25, 50 Megapixels, para tentar captar aquela cor.
Eu minha mente grito desesperadamente: Não façam isso!
As palavras não saem da minha boca. Tento entender o sentido. Será que elas irão, depois, olhar para aquela foto e lembrar da sensação que tiveram ao ver o Sol Vermelho? Será que querem mostrar para pessoas queridas? Ou é para ganhar likes e uma pequena injeção de dopamina em uma rede social? Talvez elas esqueçam a imagem, ocupando a memória do celular ou alguns milhões de bites em um grande banco de dados nos EUA. Talvez elas tenham que pagar por ocupar bites demais desse banco de dados, tudo para manter aquela foto.
Para manter aquela Imagem do Sol.
A Imagem da imagem do Sol.
As imagens captadas são ainda mais imprecisas do que as palavras, pois geram a ilusão de captar o fenômeno tal qual ele é. Pela limitação física da quantidade de luz que aquelas câmeras portáteis captam e a pela quantidade de dados que os circuitos instalados são capazes de registrar, o que ficará salvo será um mero arremedo da imagem. Para além disso, há outros quatro sentidos que as câmeras não são capazes de captar (ou três, se fizer um vídeo). Estar ali é muito mais do que ver aquela imagem. É viver, simultaneamente, enquanto corpo e mente, enquanto história e presente, aquele momento. Só é impressionante porque é raro. Só é impressionante porque conhecemos o sol amarelo e alaranjado. É impressionante porque olhar direto para o astro rei costuma machucar nossos olhos.
Diante disso, me pergunto: quando deixamos de simplesmente contar histórias? É preciso uma imagem para provar que aconteceu? Não bastam as palavras? Não passamos conhecimento ao longo de milhares de anos através de nossas palavras?
Novamente, poluição.
Penso um pouco mais. Há ainda a possibilidade de alguém estar fazendo uma fotografia compreendendo que é um recorte, uma escolha, um registro, um ângulo, que é expressar-se artisticamente. Uma outra forma de contar histórias.
Prefiro registros feitos em formas de arte. Registros subjetivos, abertos para a interpretação, com nuances escondidas em suas entrelinhas. Como humano que sou, prefiro que compartilhem comigo algo que me faça sentir, do que olhar para uma suposta objetividade fria feita de zeros e uns.
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