#154. Duas folhas são suficientes
Duas folhas são suficientes
Poucas mensagens são mais ignoradas que “Duas folhas são suficientes”.
Penso muito nela. Uma das minhas estranhas obsessões.
Quando passo por um banheiro público, observo o comportamento dos outros usuários em relação à quantidade de folhas que usam para secar as mãos. É difícil encontrar alguém que siga a orientação à risca, contribuindo para o objetivo declarado (preservar o meio ambiente) e o real (reduzir o gasto com papel toalha).
Mesmo eu, ciente e desejoso de usar o mínimo de folhas possível, nem sempre sou bem-sucedido. Há algumas variáveis importantes afetando o resultado: a gramatura do papel, seu poder de absorção, o tamanho da folha; se preciso limpar o rosto também, assoar o nariz. Às vezes são necessárias três, quatro, até cinco folhas para a higiene — sem desperdício nem desleixo.
Colegas menos preocupados vivem nos extremos. De um lado, os nojentos que sequer lavam as mãos. Do outro, homens que pegam várias (várias!) folhas de uma só vez, amassam-nas todas antes de tentarem se secar e, sem surpresa, saem com as mãos úmidas.
O uso consciente do papel se estende a outra parte do banheiro e, nessa, seu uso também vale para banheiros privados. Peço licença para falar brevemente de cocô.
Emparelhadas com a mensagem “Duas folhas são suficientes” na lista de coisas que a humanidade ignora, estão as linhas pontilhadas que separam as folhas no rolo de papel higiênico.
Você usa uma folhinha de papel por vez para se limpar ou pega várias e faz um amontoado antes de usá-las? E as pessoas no seu entorno, já teve a curiosidade de saber como fazem? Passada a estupefação que se sucede à minha pergunta, todas com quem falei confessaram usar mais de uma folhinha por vez.
Não entendo o motivo. Ainda mais nesta era de folhas duplas quase onipresentes e a oferta de triplas e até quádruplas — o que já acho demais; testei uma vez e parece que estou me limpando com cartolina, mesmo com uma folhinha só.
A menos que sofra de uma senhora diarreia, uma folhinha por vez é suficiente. Acredite em mim. Pode não parecer, mas é.
E vou além: o papel higiênico sequer é necessário se a sua flora intestinal estiver saudável e a sua dieta for equilibrada. Nesse caso — ao contrário do papel toalha —, uma folhinha é suficiente, apenas para conferência. O cocô desce sem deixar rastros pelo caminho, literalmente.
Consigo imaginar a sua expressão de choque. Precipitei-me. O mundo ainda não está preparado para essa conversa.
Saiu a sentença do processo que o jornal Folha de S.Paulo moveu contra mim, pessoa física, Rodrigo Ghedin, por causa do Marreta, serviço para quebrar paywalls porosos que desenvolvemos e disponibilizamos via Manual do Usuário. O juízo de São Paulo deu vitória parcial à Folha.
Perdemos a batalha, mas não a guerra! Recorri à segunda instância. Vamos ver no que dá.
Para ajudar na minha defesa — que já se aproxima de R$ 15 mil —, abri uma vaquinha. Quer colaborar? É só fazer um Pix de qualquer valor para a chave [email protected]
No blog do Manual, publiquei mais detalhes do caso, da sentença e outras formas de me ajudar.
Descobre que no interior das pálpebras, assim como no relevo simples de uma escultura pequena, existe o infinito.
— Emmanuel Carrère, “Ioga”.
No dia 19/9, participei do encontro de aniversário (1 ano!) do Site com Café, nossa versão local do Homebrew Website Club. Todo mês, nos reunimos em um café amigável a notebooks em Curitiba para falar de HTML, WordPress/ClassicPress e assuntos relacionados, mexer nos nossos sites e blogs e escrever posts.
Tem sido bem legal! Acho que funciona porque as expectativas são baixas e não se exige quórum mínimo. (Em vários encontros éramos só eu e o Daniel, que os co-organiza comigo.)
- Relatei o primeiro encontro no Manual do Usuário.
- O Daniel, mais diligente que eu, vem registrando todos os encontros em seu blog.
Vida longa ao Site com Café!
Nesses pensamentos há uma plenitude, mas também um pouco de tristeza, porque tomo consciência de que alguma coisa maravilhosa será para sempre proibida para mim. Um momento tranquilo como esse, um momento que poderia ser de contemplação, um momento que eu poderia simplesmente viver, não consigo nunca vivê-lo realmente, nunca estar presente nele, apenas presente, porque imediatamente se manifesta a necessidade de traduzi-lo em palavras. Não tenho acesso direto à experiência, sempre preciso cobri-la com palavras.
— Emmanuel Carrère, “Ioga”.
Dia desses assisti a “Princesa Mononoke” (1997), do Hayao Miyazaki. Tinha visto só uma vez, há mais de 20 anos. A experiência — agora mais velho e com outras ideias — foi diferente. Entrou fácil na minha lista de melhores filmes. Senti-me maravilhado.
Há um paralelo evidente com “O senhor dos anéis”, no ser consumido por algo que confere poder — o “Um Anel” de lá é a infecção do príncipe Ashitaka. Só que ao contrário da história do Tolkien, que se escora num maniqueísmo pueril (acho eu; o Bem contra o Mal etc.), Miyazaki apresenta o dilema em termos mais sofisticados.
Ashitaka tenta ser reconciliar humanos (Eboshi e a Vila de Ferro) e a natureza (San e os deuses da floresta), sem vilanizar um dos lados. O que, como se sabe, é muito difícil. O filme reflete a dificuldade. A personagem conciliadora é dotada de humildade e dignidade inspiradoras. Vi-me no “time San”, mas querendo muito ser mais Ashitaka.
Recomendei o filme com entusiasmo à P., que viu e detestou. Faz parte :~
Obrigado pela companhia e até a próxima!
—
Rodrigo Ghedin