Muro 2.0 #7 - Lá fora está-se melhor
Na semana que passou, um vírus voltou a fazer títulos de notícias pelo mundo fora, os preços do petróleo continuaram a causar receios (menos junto de algumas elites da finança, tendo um representante desse meio dito ao FT uma daquelas frases para a história: “Será que alguém quer realmente saber se o estreito de Ormuz está aberto?”), um partido de esquerda europeu sofreu pesadas perdas em eleições locais onde a extrema-direita ganhou força, o presidente de El Salvador prosseguiu a sua cruzada contra o jornalismo e a presidente da câmara de Madrid cancelou abruptamente uma viagem ao México digna de um filme (de comédia).

Em foco
Algures no primeiro ano de escola, o meu filho perguntou-me se podia jogar Roblox. Respondi à pergunta com outra para tentar perceber quantos miúdos da turma dele jogavam Roblox. Já eram uns quantos, provavelmente por via de irmãos mais velhos (especulo eu). Antes, ele já tinha experimentado Minecraft, em casa e num ou outro evento, e gostado qb. Na altura, disse-lhe que não podia jogar Roblox porque era um jogo para pessoas mais crescidas e que, em muitos casos, poderia ser perigoso na vida real. Não insistiu. Passados meses, voltou a perguntar. Respondi o mesmo e expliquei um pouco mais sobre o porquê de não o deixar jogar Roblox.
Há muitos anos que leio sobre Roblox ser um poço de riscos para menores, desde aliciamento sexual a radicalização política. Em março do ano passado, o próprio CEO disse que se os pais sentem algum desconforto com o jogo então que mantenham os filhos longe.
Roblox é uma plataforma - colorida e de aspeto simples - que permite criar jogos dentro dela, que depois são partilhados pelos utilizadores. Tornada pública em 2006, tem hoje dezenas de milhões de utilizadores diários, o que significa que é a mais popular junto das faixas etárias mais jovens em múltiplos países.
A BBC, que tem dado bastante atenção ao assunto, já este ano entrevistou um programador que trabalha para a Roblox e que disse que se os pais não conseguem controlar o que os filhos fazem na plataforma a 100% então não os deviam deixar lá estar.
Como em relação a outras plataformas e redes sociais, há anos que soam os alarmes quanto aos perigos que circulam. Sabe-se hoje que redes criminosas como a 764 utilizam Roblox e Minecraft para chegar a crianças (recomendo que, caso não saibas o que são essas redes, só procures mais informação se precisares de um grande susto, porque são das piores descrições que alguma vez encontrei na internet e já sou crescido e vacinado. Um agente do FBI que investigou a fundo casos relacionados disse que tinha ficado desfeito com o que tinha encontrado).
Um relatório do ano passado especificamente sobre Roblox constatava:
Apesar das medidas de segurança implementadas, adultos e crianças podem interagir facilmente nos mesmos espaços virtuais sem verificação ou separação etária eficazes.
A nossa investigação confirmou que uma conta registada como de uma pessoa de 42 anos podia adicionar e interagir publicamente com contas registadas como crianças até aos 5 anos de idade e conversar em privado com contas registadas como de 13 anos ou mais.
Além disso, a nossa conta registada como a de uma criança de 10 anos conseguiu aceder livremente a ambientes altamente sugestivos, que pareciam ser inspirados em hotéis com quartos privados e personagens vestidas com roupas sexualmente sugestivas. Nestes espaços, as crianças podiam observar e participar em conversas que abordavam frequentemente temas para adultos.
Depois deste trabalho, a empresa teria implementado medidas de proteção adicionais, que os responsáveis pelo estudo consideraram insuficientes numa publicação posterior:
Embora o Roblox esteja a tomar medidas para impedir que menores de 17 anos acedam a espaços para adultos, os adultos ainda podem entrar em espaços infantis e jogar, conversar e falar com utilizadores com um número de telefone verificado e registados como maiores de 13 anos.
Continua a ser fácil criar uma conta não verificada com uma idade falsa, o que significa que um adulto pode criar uma conta fingindo ser uma criança.
Os utilizadores registados como maiores de 13 anos podem ainda conversar por voz com outros utilizadores, crianças ou adultos, em espaços sociais, desde que verifiquem a sua conta com um número de telefone.
Nada impede que menores de 13 anos, ou adultos, criem uma conta como se fossem crianças com mais de 13 anos e falem com outros utilizadores, adultos ou crianças, desde que adicionem um número de telefone à sua conta.
Em algumas experiências, os utilizadores adultos são sinalizados com um rótulo "18+" acima da cabeça. Mas muitos espaços permitem que os adultos passem despercebidos entre os utilizadores registados como crianças.
Também este ano, a própria Polícia Judiciária portuguesa deparou-se com espaços na Roblox onde havia salas de doutrinação nazi:
“Havia uma onde se fazia a representação das assembleias nazis, com uma pessoa no púlpito e as bandeiras com suásticas por trás. Ali propagava-se discurso de ódio dirigido a pessoas negras – e ‘até a bebés’. A sala estava com vários avatares; cada avatar corresponde, supostamente, a uma criança. Ou seja, o efeito multiplicador deste discurso, mesmo que seja apenas uma exposição sem interação, pode ser enorme. ‘É o início. É uma porta de entrada.’”
O CEO não acha que haja um problema. O jornalista de tech Casey Newton, um dos entrevistadores do link anterior, escreveu que isto é um sintoma de algo maior, comum às plataformas tecnológicas.
Ciente do quão atraente o Roblox seria para os predadores, a empresa poderia ter bloqueado há muito tempo o contacto irrestrito entre adultos e menores. Poderia ter adotado a verificação da idade antes de uma onda de legislação estadual sinalizar que se tornaria obrigatória em breve. Poderia ter dificultado a criação de novas contas por crianças com menos de 13 anos e ter exigido que obtivessem o consentimento dos pais de uma forma que pudesse ser verificada.
Mas fazer isso exigiria que o Roblox se concentrasse nos resultados para as crianças, provavelmente em detrimento do crescimento. E aqui estamos.
Outras coisas do mundo
Um tsunami no ano passado no Alaska, nos Estados Unidos da América, foi o segundo maior registado no mundo, gerando uma onda de mais de 450 metros de altura.
O Público tem uma entrevista com o extraordinário escritor australiano Gerald Murnane que merece muito ser lida. Tem 87 anos, tem uma bibliografia curta para o culto que suscitou desde que se tornou mais conhecido do público global e um - 1! - livro editado em Portugal. “Quanto mais velho, mais a vida me parece enigmática. Estou muito satisfeito, porque a minha própria vida é, em grande medida, aquilo que eu teria desejado aos 20 anos”.
Esta semana, o jornal Financial Times publicou um artigo sobre a paranoia crescente do presidente russo, Vladimir Putin, e do impacto que isso está a ter no seu entorno. Deixou de ir para as suas residências, passa grande parte do tempo em bunkers, ninguém que trabalhe perto dele pode ter equipamentos com ligação à internet.
O papa Leão XIV telefonou a um grupo de padres no sul do Líbano para lhes dar força e coragem, mas o que eu mais retive da notícia foi que o papa lhes disse para não abandonarem as suas terras, coisa que Israel se tem esforçado por fazer.

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Tem um ótimo fim de semana.