Muro 2.0 #6 - Incêndios
A semana que passou viu a saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP, mais subidas do preço do petróleo, mais um caso que num país normal levaria a discussões sobre a facilidade de acesso a armas pela população (mas, como é onde é, as questões são outras e nunca a que importa) e uma ofensiva inédita no Mali para deitar abaixo o poder militar e a presença russa.
Entretanto, o presidente dos EUA anunciou o fim dos ataques sobre o Irão. Há 23 anos, no dia 1 de maio de 2003, o então presidente dos EUA também anunciava “missão cumprida” num país vizinho do Irão. Como hoje sabemos, não estava nada cumprida. Ainda não está hoje. (Permitam-me o product placement de uma entrevista que fiz esta semana ao realizador Ali Asgari, no âmbito do Festival Internacional de Cinema da Maia. As curtas-metragens de Asgari disponíveis online são muito boas e recomendam-se).

Entretanto, na Índia, no domingo passado verificaram-se temperaturas máximas de 46,9º. Em 16 cidades, as temperaturas atingiram, pelo menos, 45º, o que já levou a níveis de procura recorde por energia para arrefecimento, numa altura em que há necessidades de poupança de recursos agravadas pelo conflito no Irão.
Nesta altura, 95 das 100 cidades mais quentes do planeta estavam na Índia. O Ministério indiano da Saúde alertou para o risco de ondas de calor até junho. Várias mortes já foram registadas e já levaram inevitavelmente a lembretes de que há ficção distópica que começa assim. Por trás das condições do verão deste ano poderá estar o El Niño (uma boa e concisa explicação da Reuters está aqui).
O New York Times, há alguns anos, fez um trabalho extraordinário sobre o que o calor extremo faz aos nossos corpos, a partir dos exemplos da cidade do Kuwait e de Bassorá, no Iraque. Podem ver esse trabalho aqui (o link é oferta). Sem surpresas, poderão imaginar a conclusão: o impacto de calor extremo é, também ele, extremo.
Não sei o suficiente sobre este assunto, mas sei o suficiente para ter medo das possíveis consequências. Em 2018, no Muro 1.0, escrevi sobre as alterações climáticas como “o único assunto que importa”.
Na altura (há oito anos, 8!), o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) divulgou um relatório criado na sequência do Acordo de Paris que concluiu que para limitar o aquecimento do planeta a 1,5 ºC acima dos níveis pré-industriais têm de acontecer "mudanças rápidas, amplas e sem precedentes em todos os aspetos da sociedade". Já. As emissões de dióxido de carbono teriam de cair 45% nos próximos 12 anos face ao que eram em 2010. E chegar a zero até 2050. Na prática, seria o fim do carvão. Na prática, o investimento em gás natural seria desviado para renováveis. Na prática, seria necessário um investimento mundial de um bilião de euros em renováveis por ano até 2035.
Com dados a 2024, estamos assim, a nível de emissões:

O Acordo de Paris estabelecia que os governos mundiais deviam esforçar-se para manter o aquecimento global abaixo de 1,5º. Trump tirou os EUA do Acordo de Paris no primeiro mandato e voltou a tirar neste segundo.
"Até 2100, projeta-se que a média global do aumento do nível do mar seja 0,1 metros mais baixa com um aquecimento global de 1,5 ºC comparada com 2 ºC. O nível do mar vai continuar a aumentar para lá de 2100 e a magnitude e taxa deste aumento vão depender das futuras emissões [de dióxido de carbono]. Um aumento do nível do mar mais lento permitirá maiores oportunidades para adaptação nos sistemas humanos e ecológicos de pequenas ilhas, zonas costeiras e deltas", podia ler-se no relatório. Limitar o aumento da temperatura a 1,5 poderá ainda "reduzir riscos à biodiversidade marinha, zonas pesqueiras e ecossistemas e as suas funções e serviços para humanos".
Na altura, em conversa comigo, o investigador Filipe Duarte Santos já dizia que as metas eram pouco realistas.

Mais coisas do mundo
Oito milhões de pessoas estão em risco agudo de fome no Sudão do Sul, mais de metade da população, alertaram esta semana três agências das Nações Unidas. 2,2 milhões de crianças estão desnutridas, com tendência para a situação piorar.
Tenho um fraquinho por bons discursos e o do rei Carlos III perante o Congresso dos Estados Unidos da América foi, em definitivo, um bom discurso. Está aqui publicado na íntegra. É crítico qb, mas atenua o impacto com a forma como está estruturado. “In both of our countries, it is the very fact of our vibrant, diverse and free societies that gives us our collective strength, including to support victims of some of the ills that, so tragically, exist in both our societies today.”
Um carro explodiu à porta de uma esquadra, num subúrbio de Belfast, na Irlanda do Norte, no segundo episódio em menos de um mês.
O argumentista Noah Hawley, das séries Fargo, Legion e Alien:Earth, assinou há dias um artigo fascinante sobre a única vez em que foi convidado por Jeff Bezos para um retiro anual, onde tudo é assegurado para que os participantes se sintam nas nuvens. Vale bem a pena ler, em particular pela reflexão que Hawley faz sobre como o dinheiro contribui para o dissipar da empatia:
If everything is free and nothing matters, then the world and other people exist only to be acted upon, if they are acknowledged at all. This is different from classic narcissism, in which a grandiose but fragile self-image can mask deep insecurity. What I’m talking about is a self-definition in which the individual grows to the size of the universe, and the universe vanishes. Asked recently if there is any check on his power, President Trump—himself a billionaire, and by far the richest president in American history—said, “Yeah, there is one thing. My own morality. My own mind. It’s the only thing that can stop me.” Not domestic or international law, not the will of the voters, not God or the centuries-old morality of civic and religious life.