Muro 2.0 #5 - Viva a liberdade
Feliz dia da liberdade e que viva o 25 de Abril!

Em foco
Está muito longe de ser um assunto da atualidade, mas não chegou a desaparecer e esta semana o Departamento de Estado norte-americano avançou com a oferta de uma recompensa de 10 milhões de dólares por informação que ajude no combate aos centros de burlas que proliferaram nos últimos anos na Birmânia.
Uma estimativa do governo norte-americano coloca o número de dinheiro desviado de cidadãos só daquele país em 7,2 mil milhões apenas no ano passado.
Para quem nunca ouviu falar destes esquemas: Fruto das fraturas políticas sentidas na Birmânia na última década, surgiram nas zonas de fronteira centros - que nalguns casos têm a dimensão de cidades - que servem como base a milhares de pessoas que estão lá detidas e que são obrigadas a procurar alvos online para burlar, em países distantes, em regra em inglês, mas não só. Os números do dinheiro captado por este esquemas são estratosféricos.
Nesses centros, pessoas provenientes de múltiplos países são aliciadas a ir trabalhar. Só que, quando lá chegam, percebem que tudo se trata de um engodo e passam a ser forçadas a ficar e a ser parte de esquemas de burlas em que se fazem passar por outras pessoas nas redes sociais, ganham a confiança das vítimas e, às vezes depois de meses, ficam-lhes com as poupanças.

Em inglês o termo é pig butchering, abate de porcos.
Muito se escreveu sobre isto, incluindo em Portugal. O DN publicou um trabalho no final do ano passado, o Público e outros meios também.
Há dois anos, a PSP chegou a alertar para o risco de cair nas burlas, do lado do alvo: “Esta burla consiste na criação de uma relação de confiança gradual com as vítimas, levando-as a realizar contribuições consideráveis (‘investimentos’), muitas vezes sob a forma de criptomoeda. Este tipo de crime envolve o uso de plataformas de investimento online falsas e a utilização de técnicas sofisticadas, como o uso de criptomoeda nas transações, dificultando o rastreio e recuperação do dinheiro investido”.
Ouvi falar deste assunto pela primeira vez num podcast, que procurava mostrar como há vítimas dos dois lados (os burlados e os burlões). Por cima, saem sempre as organizações criminosas.
Por um lado, há a vítima num país a milhares de quilómetros de distância, que ou pensa que se apaixona digitalmente ou pensa que vai ter um trabalho espetacular. Por outro, há milhares de pessoas à procura de uma vida melhor que acabam escravas de grupos criminosos que lhes ficam com os passaportes e não as deixam sair. Não só não as deixam sair como se comportam como o derradeiro chefe de uma qualquer espécie de pós-capitalismo: há obrigações de cumprimento de metas, com consequências violentas.
No caso dos burlões, as pessoas são levadas para a Tailândia sob tentação de um emprego melhor. Depois, são transportadas por estrada durante horas, sem saberem bem para onde. Uma vez no centro (de detenção) passam a ter horários rígidos e extensos em que têm como missão procurar online potenciais vítimas para burlas noutros países, iniciar interações via redes sociais e desenvolvê-las durante meses.
Uma vez ganha a confiança do alvo, chega a hora da matança, que se traduz em conseguir que a vítima lhe transfira milhares de dólares/euros/o-que-for sob pretexto de estar a ajudar por uma qualquer necessidade. Caçar, engordar, matar.
Na maior parte dos casos, os grupos responsáveis são chineses, que se mudaram para aquela fronteira difusa e conturbada da região porque o governo chinês lhes caiu em cima com força nos últimos anos. Já este ano, o Camboja deteve três cidadãos chineses e extraditou, pelo menos, um deles para a China, que foi acusado de ser um dos maiores mentores destes esquemas.
Já em 2022, o Governo brasileiro alertava que a sua embaixada na capital da Birmânia estava a receber cada vez mais pedidos de ajuda de cidadãos que estavam a ser aliciados para trabalhar “em condições análogas à escravidão em Myanmar”.
“Trata-se de esquema no qual empresas, supostamente do setor financeiro, oferecem vagas de emprego em operações alegadamente situadas na Tailândia. Tais ofertas são direcionadas a brasileiros e contemplam salários competitivos, comissões por ativos vendidos e passagens aéreas. Na prática, os nacionais brasileiros, que são induzidos à assinatura de cláusula de confidencialidade, são transportados, por via rodoviária, para Myanmar, onde têm seus passaportes retidos e são submetidos a longas jornadas de trabalho, privação parcial da liberdade de movimento e possíveis abusos físicos. Em tais circunstâncias, desaconselha-se fortemente a adesão a contratos de trabalho que se assemelham àqueles descritos acima”
No ano passado, uma operação que teve bastante visibilidade levou à libertação de sete mil (7.000!) pessoas nestas circunstâncias.
Citação da semana
Mais coisas do mundo
Um soldado norte-americano que participou na operação de captura do antigo presidente da Venezuela Nicolás Maduro foi detido por suspeitas de apostas ilegais (se é que há outras) nos mercados de previsões. Sabendo bem o que ia acontecer, o soldado apostou um total de 33 mil dólares em que Maduro iria sair e tropas norte-americanas entrariam na Venezuela. Ganhou 400 mil dólares.
Peço desculpa por ser repetitivo sobre este assunto, mas parece-me tão distópico que não consigo deixar de insistir nesta tecla. Estamos à espera de quê para ilegalizar estes sites e regular como deve ser os mercados de apostas? Numa era em que ataques com armas são transmitidos em direto nas redes sociais por motivos de ego e de recolha de likes, será difícil antecipar que algo dessa escala relacionado com estas apostas vai acabar por acontecer? O Brasil, por exemplo, já anunciou que vai proibir apostas em eventos a partir de maio. Isto a propósito da notícia de que o instituto de meteorologia francês avançou com uma queixa por ter detetado anomalias nos termómetros do principal aeroporto de Paris que estariam ligadas a apostas no Polymarket. Alguém apostou que as temperaturas em Paris chegariam a X e depois tentou adulterar os dados dos termómetros oficiais.
Um relatório recente de uma organização norte-americana indica que, ao contrário do que pudesse ser pensado, a Rússia está a manter os seus esforços de influência em África, em particular na região do Sahel.
A propósito de Rússia, quando se aproxima o dia 9 de maio, há relatos de que o exército está a sofrer perdas em grande escala que podem até ameaçar a habitual parada militar.

Norbert Schwontkowski, “Glaubensbeweis”
Neste dia noutro tempo
Em 1792, é encomendada a canção que virá a ser conhecida como “A Marselhesa”.
Em 1859, começaram as obras para a construção do Canal do Suez, no Egito.
Quarenta anos depois, é declarada oficialmente guerra entre os Estados Unidos da América e Espanha.
Em 1915, começa a batalha de Galipoli.
Que tenhas um excelente fim de semana. Há mil e uma atividades pelo país para comemorar o 25 de Abril. Aproveita.