Muro 2.0 #4 - Andar a remo sozinho
O Muro 2.0 chega hoje, com dois dias de atraso e em versão mais curta, depois de uma semana em que seres humanos percorreram uma distância inédita no espaço, enquanto o presidente da maior potência mundial ameaçava cometer genocídio e continuava a apoiar uma potência regional que comete crimes de guerra com regularidade.
À hora a que escrevo, há festa em Budapeste com a supermaioria dada à oposição, que significa o fim do regime de Viktor Orban e suspiros de alívio em muitas instituições por essa União Europeia fora. Também significa a perda de uma rede de influência significativa para a extrema-direita/direita radical populista internacional, que tinha a Hungria como financiador. Será cauteloso não tirar daqui ilações generalizantes. As presidenciais francesas são daqui a um ano.

Por cá, poderás ter visto os resultados da mais recente versão do estudo “A Amizade em Portugal”, do Centro de Investigação e Intervenção Social do ISCTE, que, segundo o Expresso, teve como principal conclusão a seguinte: “Os portugueses sentem-se atualmente mais sós, reduziram o número de amigos e de amigos íntimos e, nos últimos anos, têm menos práticas sociais do que antes da pandemia da covid-19 em 2020”.
“Há 5% de pessoas que dizem que não têm amigos, 11% que não têm ninguém com quem falar sobre os seus problemas, 12% que não falam com ninguém quando têm um problema e 22% que frequentemente ou sempre se sentem sós”, constataram os investigadores, que afirmam que são dados em linha com outros estudos nacionais e europeus.
Este assunto tem sido alvo de atenção também por parte de politólogos pelas ramificações que a solidão pode ter nos comportamentos políticos, associativos e eleitorais.
Um desses académicos é Anton Jaeger (que se prepara para lançar em Portugal “Hiperpolítica - Uma análise sobre o fenómeno da politização extrema sem consequências políticas”), que, em 2022, lembrava - entre críticas - o clássico “Bowling Alone”, de Robert Putnam, para analisar o impacto das relações sociais hoje nos comportamentos políticos, quando há menor adesão a organizações como sindicatos ou partidos.
Jaeger citava Hannah Arendt: “O que prepara os homens para a dominação totalitária no mundo não-totalitário é o facto de que a solidão, em tempos uma experiência de limite sofrida normalmente em certas condições sociais marginais, como a velhice, se tornou numa experiência quotidiana”.
A partir do trabalho de Putnam e não só, o historiador belga escrevia que a “individualização era um imperativo para o capital, e a vida coletiva tinha de ser diminuída para que o mercado encontrasse novas avenidas para a acumulação”.
Por seu lado, Putnam, no centro de uma renovada atenção (que incluiu um documentário) à luz da dita “crise da masculinidade” e da solidão em particular dos jovens brancos nos EUA e suas consequências violentas, deu uma entrevista, em 2024, que vale a pena ler sobre o seu trabalho no contexto da atualidade:
“O isolamento social leva a muitas coisas más. É mau para a tua saúde, mas é mesmo mau para o país, porque as pessoas que estão isoladas, especialmente os jovens que estão isolados, ficam vulneráveis aos apelos de falsas comunidades. Posso citar capítulo e verso nisto: recrutas impacientes do Partido Nazi nos anos 1930 eram jovens alemães solitários, e não é uma coincidência que as pessoas mais atraídas hoje para os grupos de nacionalistas brancos sejam jovens brancos. Solidão. É má para a tua saúde, mas também é má para a saúde das pessoas ao teu redor”.
Seria bom pensarmos em conjunto que implicações negativas têm estes isolamentos e como as podemos contrariar. Provavelmente teríamos de pensar nelas no contexto da nossa relação com as redes sociais e os smartphones, mas isso tem de ficar para outra altura.
Para Putnam, o contributo que podemos dar é simples: junta-te a um clube ou uma associação, que te faça sentir bem e divirta. “Só ao conectarmo-nos com outros podemos generalizar a partir da nossa experiência. Num clube aprendes a confiar noutras pessoas e aprendes o que precisas de fazer para manter essa confiança”.
Título favorito da semana (quiçá do ano)

Neste dia noutro tempo
No dia 13 de abril de 1906, nascia, num subúrbio de Dublin, o escritor Samuel Beckett, autor de alguns dos textos mais relevantes (para mim, vá) do século passado. Dez anos depois, dava-se a Revolta da Páscoa. Beckett foi distinguido com o Nobel da Literatura de 1969, mas não compareceu na cerimónia de entrega nem fez a habitual palestra. Terá classificado a atribuição do prémio como uma “catástrofe”. Doou o valor monetário.

Um Post Scriptum fora do normal para chamar a atenção, a quem possa não ter visto, para um ataque recente da presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Ana Abrunhosa, a um camarada que muito estimo e com quem tenho o privilégio de partilhar a redação. Insatisfeita com o trabalho do mensageiro, a autarca decidiu atacá-lo.
A Direção de Informação da agência Lusa classificou as declarações como “descabidas, infundadas e difamatórias”. PCP, IL e BE, pelo menos, repudiaram as palavras de Abrunhosa. Já agora, a notícia que tanto irritou a presidente da câmara foi esta.
Para além de ser incrível ler letras juntas sobre um político “retirar a confiança” a um jornalista, como se tal fizesse algum sentido, há que lembrar que é a segunda presidente de câmara de capital de distrito do PS (faz diferença, faz, pelo peso do que representam) que ataca de forma surreal um jornalista.
São comportamentos vergonhosos e atentados à liberdade de imprensa por parte de quem devia saber melhor ou, pelo menos, devia aprender melhor.
Para a semana não haverá Muro 2.0. Volto a tempo do 25 de Abril.
Fica longe dos ecrãs e aproveita os dias.