Muro 2.0 #3 - Pela capacidade de ouvir o outro

Nestes dias de Páscoa de 2026, as guerras continuam como na semana anterior. Os preços sobem. O Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, continua a falar em blocos de duas semanas para a resolução de todos os problemas (este texto sobre “duas semanas” serem a medida de tempo favorita de Trump é muito bom). Na China, Paquistão e Afeganistão negociam um cessar fogo que ponha fim a confrontos que já mataram centenas de pessoas.
Por ser esta altura específica do ano, mas, acima de tudo, por ler as declarações muito claras do papa Leão XIV sobre política, em especial as que fez no Domingo de Ramos (“ninguém pode usar [Deus] para justificar a guerra; que não escuta mas rejeita a oração de quem faz a guerra, dizendo: ‘Podeis multiplicar as vossas preces, que Eu não as atendo. É que as vossas mãos estão cheias de sangue’"), falei com com o padre José Frazão Correia, diretor da revista Brotéria e antigo provincial dos Jesuítas em Portugal, para que me ajudasse a lançar um olhar sobre a Igreja Católica no momento atual.
Qual é o papel da Igreja no ano 2026?
É uma pergunta ampla. Não saberia muito bem que resposta dar porque poderão ser múltiplas. Diria que, pelo menos, [a Igreja] poderia ajudar a não contribuir para uma espécie de crescendo de agressão verbal entre pessoas, entre fações, entre entendimentos de problemas. Porque parece que isso já temos suficientemente, mesmo no âmbito internacional, seguramente, e também no âmbito doméstico.
E a Igreja, ou os cristãos em geral, concretamente os católicos, também penso que pode ser fácil, em nome se calhar de uma de uma vontade, diria, genuína e legítima de afirmar a própria identidade, que esta afirmação da própria identidade enquanto cristãos, enquanto católicos, possa ser feita de uma maneira enviesada.
Isto é, quase como uma bolsa de elementos identitários que depois entra em confronto e oposição ou rejeição com outros eventuais entendimentos, outros valores de outras identidades.
Por isso, parece-me que um traço constitutivo da identidade cristã é precisamente de se definir não por oposição ou por rejeição, mas por afirmação de si, dando um espaço, dando um lugar à relação com outros, com diferentes.
Portanto, creio que a Igreja, para responder diretamente, é chamada a ser verdadeiramente cultora da palavra. Da palavra enquanto diálogo, precisamente a palavra que circula entre interlocutores. Portanto, tudo o que possa favorecer não a anulação das identidades, mas a afirmação das identidades, não por exclusão de outros diferentes, mas por geração, criação de instâncias de relação, onde a palavra, obviamente, tem um lugar particular.
Creio que seria um grande contributo, desarmadilhar um bocadinho essa agressão verbal e gerar espaços de encontro, de diálogo, de confronto, eventualmente, mas onde a palavra circula.
Outro contributo, e isso parece também que é inerente à identidade cristã, é assumir a parte da marginalidade, dos excluídos, dos que não têm voz, dos que não têm representação, de alguma maneira o cultivo do que é comum, do que nos é comum. E o que nos é comum seguramente é a humanidade, é a fraternidade, mas é também a “casa comum”, como o papa Francisco lhe chamou.
Num tempo onde parece que as partes tentam reivindicar para si quase uma fatia do bolo, assumir livremente e responsavelmente essa parte do que está na margem, do que é periférico, do que não tem representação, do que não tem voz, parece-me que continua a ser um contributo incontornável da Igreja, dos cristãos, também no nosso tempo, diria sempre, mas com particular, talvez, relevância no nosso tempo.
Hoje, quando vivemos numa sociedade mais atomizada e dentro das nossas bolhas, que são fomentadas por eventuais algoritmos, por aquilo que é a nossa experiência nas redes sociais, esse diálogo de que fala terá ferramentas para ser ativado que se calhar nunca teve, mas ao mesmo tempo também será dificultado por barreiras que nós construímos de estarmos mais isolados uns dos outros.
Sim, eu acho que esses são os desafios particulares que a comunicação nos coloca hoje. Tem desafios, como se calhar a cada tempo tem os seus, nós temos estes.
Agora, mais do que simplesmente ficarmos atemorizados diante deles, parece-me que um ato de liberdade e de responsabilidade é precisamente esse: levar em conta, ter em conta os desafios.
As novas exigências que o quadro em que nos encontramos colocam desde o universo da Inteligência Artificial, dos algoritmos, do desenvolvimento digital, parece-me que é incontornável que devamos gerir esta realidade, acho que não a vamos anular. Agora, como é que agimos responsavelmente? E, nesse sentido, claro que haverá haverá problemas que crescem, outros às vezes que se agigantam, mas esse ato de cultivar a palavra e, pela palavra, o diálogo, que por vezes pode ser áspero, pode ser de confronto, pode ser de argumentação - e é bom que o seja -, parece-me que essa seria a preocupação: como é que nós cultivamos a palavra que se torna diálogo?
Como é que somos capazes de assumir a nossa diferença e a nossa particularidade argumentando a nossa posição, aquilo a que damos valor, mas também com a disponibilidade de ouvir a argumentação do outro e do modo como justifica aquilo a que dá valor.
Obviamente que um espaço público de tantas particularidades, tantas parcialidades, mas onde também pode haver mecanismos um bocadinho subjacentes que podem determinar a condição das coisas, acho que essa capacidade de manter a atenção crítica, o pensamento crítico, é um dever também de cidadania.
Cabe-nos ter consciência das coisas, ter consciência dos problemas e perguntar, interrogarmo-nos acerca do modo livre, responsável, de gerirmos esses mesmos problemas.
Obviamente, pois isto é tão transversal, diz respeito também à educação, mesmo das crianças, dos adolescentes, dos jovens, diz respeito a como é que uma comunidade política como a nossa cultiva a liberdade de imprensa, liberdade de expressão, etc, etc.
Isto tem muitas ramificações, mas parece-me que no núcleo estará essa responsabilidade por uma palavra que circula num espaço que é plural e que é aberto e que ninguém é dono dele de alguma maneira.
Preocupa-o de alguma forma o deturpar das mensagens, o deturpar dessa palavra? Sabemos que hoje em dia existem forças políticas, nomeadamente, que se arrogam os valores expressos da Igreja para depois canalizar mensagens que são contraditórias.
Sim, preocupa, sempre foi assim e hoje não será diferente, se calhar de vários ângulos.
O primeiro ângulo é que o Evangelho seja corrompido a partir de dentro. Isto é, que se torne uma ideologia, que se torne uma violência em relação a quem não é cristão.
Portanto, pode haver uma corrupção interna, isto é, que a verdade se torne ideologia. A verdade que é Jesus não é pertença de ninguém, ela é que nos tem, digamos assim, nesse sentido é uma verdade aberta, mas obviamente não somos ingénuos e percebemos que, como sempre, hoje também pode haver interesses políticos, interesses ideológicos que podem instrumentalizar a própria experiência crente e o património cristão, a verdade cristã, para fins que são alheios ao próprio Cristianismo. Já para não falar de nós próprios. Olhamos para o que está a acontecer na Rússia com o Cristianismo Ortodoxo que facilmente é usado - ou se deixa usar, não sei exatamente - por fins ideológicos políticos bélicos que são alheios ao Cristianismo. Vemos algo parecido com igrejas cristãs de outra natureza, nos Estados Unidos. Bom, e vemos também entre nós, que é fácil que alguém se aproprie, algum grupo político se aproprie do que seriam valores cristãos para fins que são alheios ao próprio Cristianismo.
Nesse sentido, preocupa-me, porque o Evangelho é um caminho, mais do que até uma mensagem, não é apenas uma palavra, é um caminho existencial e comunitário que cultiva a liberdade.
Isto é, cultiva a adesão livre a uma palavra, a uma verdade, que nos tem, que nos interroga e que não é propriedade de ninguém, porque quando passar a ser propriedade, Deus já não é Deus, mas é uma coisa nossa.
E, portanto, sim, acho que dá para perceber a dinâmica das coisas a nível nacional e internacional, que estamos num momento onde a Igreja precisa de estar atenta e a não se deixar instrumentalizar por interesses que lhe são completamente alheios e que corrompem a própria verdade do Cristianismo.

Mais coisas do mundo
Uma das histórias que mais gostei de descobrir esta semana foi a da Nobel da Economia de 2023, a norte-americana Claudia Goldin, que, na sequência do prémio, recebeu centenas de convites e propostas. Aceitou três, uma delas o pedido de ajuda do sindicato das jogadoras da liga feminina de basquetebol dos EUA, a WNBA. Agora soube-se que o aumento salarial das jogadoras vai ser de 400%, o maior de sempre na história do país. O Wall Street Journal conta a história (tem paywall, mas o texto esteve aberto uns dias). Goldin fê-lo por paixão e recusou-se a ser paga pelo apoio.
Um satélite da Starlink terá explodido sem explicação, tornando-se no segundo a sofrer tal destino no espaço de meio ano. Como recorda o meio especializado em tecnologia The Verge, tudo isto acontece quando está na calha a entrada em bolsa da SpaceX (segundo o New York Times, Elon Musk está a exigir a quem trabalha com a empresa nesta Oferta Pública Inicial que pague por assinaturas do Grok).
Os Médicos Sem Fronteiras revelaram esta semana, num relatório, que “não há espaços seguros para mulheres e raparigas no Darfur”. Entre janeiro de 2024 e novembro de 2025 quase 3.400 vítimas e sobreviventes de violência sexual procuraram ajuda junto de espaços geridos pela MSF. 97% eram do sexo feminino.
Esta semana não tenho gatinhos, mas, no meio da discussão sobre Saramagos e Mários de Carvalho destas vidas, partilho a entrevista que fiz a este último em 2016, na Póvoa de Varzim e que valerá a pena ler, digo eu que sou suspeito, porque vale sempre a pena ler Mário de Carvalho:
Neste momento, os escritores se calhar são menos valorizados do que os cozinheiros ou os cabeleireiros (risos), ao contrário do que acontecia há uns anos, havia uma certa aura à volta do escritor, mas passaram a ser os cabeleireiros, os cozinheiros, os jornalistas também, ao passo que tem havido alguma desvalorização da escrita porque ela representa alguma coisa que incomoda muito e que é a capacidade de pôr em causa e de interrogar. Os romances interrogam, põem dúvidas, põem problemas, põem alternativas, não têm nada que ver com o chamado pensamento único. E se há um escritor que incorra nisso, na repetição dessas banalidades, que são primárias, é seguramente um mau escritor. Porque, independentemente da ideologia que se tenha e independentemente do setor em que se esteja, há uma coisa que sobreleva tudo isso: é a criação artística. Portanto, a vontade de criar outro mundo. Um mundo diferente. Opor ao mundo que existe, com os seus problemas e as suas ameaças, um mundo diferente e isso é independente muitas vezes da perspetiva política, que o escritor tem ou pensa que tem, que é conjuntural, que diz respeito ao momento que se está a viver e nós estamos a escrever num outro plano. Não é para ser lido pela pessoa que se levanta amanhã e aquilo que vai ser o dia amanhã ou depois de amanhã. É para ser lido daqui a dois anos, 10 anos, é para ser formulado pelo leitor. No fundo, é o leitor que vai também refazer o nosso livro, é o nosso cúmplice. Temos de contar com ele.
Para a semana, o Muro poderá chegar um dia ou dois mais tarde. Se gostaste e assim o entenderes, partilha. Como sempre, sou todo ouvidos para ideias sugestões.