Muro 2.0 #2

Mais uma semana, mais um carrossel de anúncios e declarações bombásticas por parte do líder do mundo livre (?), curiosamente ajustadas às aberturas e fechos dos mercados. Que coincidências, hã? Não basta haver questões sobre apostas dúbias ou o facto de a Casa Branca ter, aparentemente, cobrado uma “comissão” de 10 mil milhões de dólares no negócio da venda da operação americana do Tiktok.
Entretanto, Israel invade o sul do Líbano (mais uma vez), com a Human Rights Watch a alertar para o risco de “atrocidades”. Mais de um milhão de pessoas já foram deslocadas de suas casas no sul do Líbano, incluindo mais de 360 mil crianças, segundo a UNICEF.
(Sendo também jornalista de agência, aprecio bastante ler explicações internas de camaradas de profissão: A agência Associated Press tem um texto explicativo sobre o porquê de rotular o que Israel está a fazer no Líbano como uma invasão. Já haviam feito semelhante a propósito da palavra “guerra” no caso do Irão, que pode parecer um detalhe, mas não é, numa era de “operações especiais militares”.)
Em foco
A poucas semanas das eleições na Hungria, a jornalista Catherine Belton, especialista em Rússia contemporânea, publicou no Washington Post um artigo sobre as relações entre o governo de Budapeste e Moscovo, com uma fonte a revelar que o ministro húngaro dos Negócios Estrangeiros, Péter Szijjártó, aproveitava as pausas nas reuniões do Conselho Europeu para falar com o seu homólogo russo, Serguei Lavrov, e dar conta do que se estava a passar em Bruxelas. Vários líderes europeus - atuais ou antigos - rapidamente vieram dizer que isto é sabido há muito nos círculos de topo. A Hungria negou, mas Szijjártó mais tarde reconheceu contactos.
Ao POLITICO, o antigo ministro lituano dos Negócios Estrangeiros, Gabrielius Landsbergis, disse ter sido alertado em 2024 de que a Hungria poderia estar a passar informação à Rússia e que, por isso, as discussões na presença de representantes húngaros eram limitadas no âmbito.
“Os menos-que-leais estados-membros são a principal razão para que a maior parte da diplomacia europeia relevante aconteça hoje em formatos mais pequenos”, afirmou uma fonte diplomática, referindo-se a grupos regionais (e não só).
O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, confirmou o mesmo: “As notícias de que a gente de Orbán informa Moscovo sobre as reuniões do Conselho Europeu em detalhe não devem ser uma surpresa para ninguém. Tínhamos as nossas suspeitas há muito. É uma razão pela qual só tomo a palavra apenas quando necessário e digo apenas o necessário”.
Até o antigo presidente da Comissão Europeia Durão Barroso veio dizer que nada impede que os estados-membros se reúnam sem a Hungria, face à quebra de confiança.
Entretanto, um dos principais jornalistas de investigação da Hungria foi acusado de espionagem a favor da Ucrânia. Ele rejeita, claro, e diz que não o vão demover do seu trabalho.
Também esta semana, uma chamada entre um jornalista do POLITICO e alguém do universo das instituições europeias (não identificado por a chamada ter sido em off) foi publicada no Youtube e abordada em sites húngaros e eslovacos. “Não seremos intimidados por uma aparente tentativa de interferir com jornalismo independente”, reagiu a direção do meio.
A Reuters tem um bom resumo das expectativas em Bruxelas sobre o futuro pós-eleições: se Orbán perder e sair do Governo a mudança será mais em tom do que substantiva.

Uma citação
Por estes dias voltou a circular uma citação do filósofo norte-americano Richard Rorty, que fez um conjunto de previsões no seu livro “Achieving Our Country: Leftist Thought in Twentieth-Century America” (de 1998) que hoje fazem com que o nome de Rorty, confinado aos campos académicos durante muito, ganhe peso fora deles:
[M]embers of labor unions, and unorganized unskilled workers, will sooner or later realize that their government is not even trying to prevent wages from sinking or to prevent jobs from being exported. Around the same time, they will realize that suburban white-collar workers—themselves desperately afraid of being downsized—are not going to let themselves be taxed to provide social benefits for anyone else.
At that point, something will crack. The nonsuburban electorate will decide that the system has failed and start looking around for a strongman to vote for—someone willing to assure them that, once he is elected, the smug bureaucrats, tricky lawyers, overpaid bond salesmen, and postmodernist professors will no longer be calling the shots. A scenario like that of Sinclair Lewis’ novel It Can’t Happen Here may then be played out. For once a strongman takes office, nobody can predict what will happen. In 1932, most of the predictions made about what would happen if Hindenburg named Hitler chancellor were wildly overoptimistic.
One thing that is very likely to happen is that the gains made in the past forty years by black and brown Americans, and by homosexuals, will be wiped out. Jocular contempt for women will come back into fashion. The words [slur for an African-American that begins with “n”] and [slur for a Jewish person that begins with “k”] will once again be heard in the workplace. All the sadism which the academic Left has tried to make unacceptable to its students will come flooding back. All the resentment which badly educated Americans feel about having their manners dictated to them by college graduates will find an outlet.
Recomendo vivamente Rorty, que morreu em 2007 e teve editados em Portugal alguns livros, nos anos 1990 e 2000.
Mais coisas do mundo
A agência norte-americana de combate à droga designou o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, como um “alvo prioritário” por supostas ligações a cartéis, segundo a AP.
A dona do Facebook/Instagram/Whatsapp e a Google foram condenadas, na Califórnia, a pagar uma indemnização a uma utilizadora que acusava as plataformas de terem contribuído para um uso viciante e problemas de saúde mental. Noutro caso, no Novo México, a Meta foi condenada a pagar centenas de milhões em danos por ter induzido os utilizadores em erro em questões de segurança. O jornalista David Pierce, que sabe mais destas coisas num dia do que alguma vez saberei em toda a vida, diz que isto pode ser apenas o princípio.
Ainda a propósito de Anticristo (quem diria que seria uma palavra que estaria a escrever em 2026?), vale a pena ler este texto do padre franciscano Paolo Benanti, assessor do papa para assuntos de Inteligência Artificial, sobre esta cruzada de Peter Thiel, com o título provocador de “Há que queimar Peter Thiel?”.
O Governo italiano viu os eleitores rejeitarem, em referendo, a proposta de alteração ao sistema judicial.
Porque nem tudo é terrível… gatinhos
Em Espanha, uma lince de 17 anos chamada Flora tomou conta de três pequeninos linces que tinham apenas dezenas de dias quando perderam a mãe num atropelamento. Flora encarou-os como seus, ensinou-os a caçar e esta semana foi libertado o primeiro dos irmãos em Murcia. A história foi contada pelo El País e inclui, obviamente, fotografias de gatinhos (que ficarão gatões).
