Muro 2.0 #1

Breve disclaimer: Se estás a receber este email, é por um de dois motivos: 1) assinaste, a dada altura na vida, uma newsletter minha; 2) fazes parte do lote mais recente de subscritores que soube que ia recuperar o Muro.
Seja como for, permite-me que agradeça a confiança por me voltares a ler. Se quiseres retirar imediatamente o teu endereço desta lista há uma ligação no fundo do texto.
Muro 2.0:
Há uns dias, perante mais um episódio de cacofonia do comentariado que tomou conta da nossa esfera pública, pensei que podia tornar-me útil com o retomar da newsletter que lancei em 2018 e que consegui manter - mais ou menos semanalmente - durante um ano. Na altura, também comecei por alturas do segundo ano de Trump 1.0, o que não será coincidência.
Pensei que podia ser útil reunir informação sobre o que se passa lá fora e dá-la aos leitores, de forma mais ou menos condensada. Há 8 anos cheguei a fazer entrevistas que só foram publicadas na newsletter e gostaria de o repetir agora. Não ponho as mãos no fogo pela durabilidade deste Muro 2.0, mas gostava de tentar. Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better, já dizia o outro.
TL;DR:
Será difícil fazer um resumo dos últimos anos. Os eleitores norte-americanos voltaram a escolher Trump, que surgiu desta vez ainda mais acelerado, a Rússia invadiu a Ucrânia, Israel passou de bloqueio a devastação na Faixa de Gaza e de novo a bloqueio em resposta a um ataque sem precedentes do Hamas, Bolsonaro foi preso, um presidente golpista na Coreia do Sul foi preso, Maduro foi detido (?) em Caracas e levado para os EUA, a Inteligência Artificial fala connosco e tratamos os grandes modelos de linguagem por pronomes pessoais, o Twitter virou o 4chan em esteroides, e isto é só o pouco que me ocorre nos minutos em que carrego nas teclas.
(A propósito de IA, não será usada para a escrita ou edição destes textos. Imagens idem. Caso venha a ser, darei nota disso)

Em foco:
A invasão da Ucrânia pela Rússia dura há mais de quatro anos e está a mudar a forma como encaramos a guerra (se puderem, recomendo vivamente a leitura deste artigo do Financial Times sobre os campos de batalha entre a Ucrânia e a Rússia. A ligação é oferta, mas pode ter limite de usos). No entanto, a Ucrânia, como tudo o que dura há mais de quatro dias no panorama mediático atual, foi relegada para terceiro, quarto ou quinto plano na lista de crises, aparentemente sem que se perceba que o que está a acontecer na Ucrânia terá, inevitavelmente, consequências para o resto da Europa.
Os Estados Unidos - empurrados ou não por Israel, consoante a fonte - lançaram o maior ataque no Médio Oriente desde a invasão do Iraque ao bombardear o Irão e decapitar um regime que continua, ainda assim, a ser dirigido por um Khamenei. Mais de 2.300 pessoas morreram, em números entre o Irão e o Líbano. Milhões foram deslocados de suas casas. Horas antes de eu escrever estas palavras, Donald Trump disse estar a ponderar um “desacelerar” das operações no Irão. Ao mesmo tempo que mais tropas estão a ser enviadas para a região. O custo estimado, só para os EUA, é de mais de mil milhões por dia. O israelita Ha’aretz escrevia na quinta-feira que o custo elevado da guerra pode significar o seu fim. ¯\_(ツ)_/¯
Pelo meio de tudo isto, aquela que as Nações Unidas classificaram como “a mais devastadora crise humanitária e de deslocados do mundo” continua, no Sudão, onde o conflito é mais do que uma questão local e força alianças entre poderes que noutras circunstâncias seriam tudo menos isso. De um lado, como escreve uma analista do Crisis Group, as forças do Governo sudanês, apoiadas pela Turquia, Irão, Arábia Saudita, Catar e outros. Do outro, as Rapid Support Forces, apoiadas pelos Emirados Árabes Unidos (que negam estar a apoiar as RSF), com reforços de tão longe como da Colômbia. No ano passado, o governo de Cartum avançou para um tribunal internacional contra os EAU.
Desde o começo do conflito, em 2023, o número de mortos estimado ultrapassa os 400.000 e mais de 11 milhões de pessoas foram deslocadas. Há acusações de limpeza étnica de parte a parte e os números diários são catastróficos.
No vizinho Sudão do Sul, vive-se na vertigem de uma nova guerra civil, numa crise que a ONU considera estar entre os conflitos esquecidos do mundo. Os números são todos eles inimagináveis. E podem ainda escalar, pois são conflitos que têm potencial para se expandir. Ainda esta semana, 17 pessoas morreram no Chade num ataque de drone vindo do Sudão.
Mais coisas do mundo
Pelo menos 682 pessoas desapareceram no Mediterrâneo até 16 de março, segundo a Organização Internacional das Migrações, um número sem precedentes. Como sublinha a Associated Press, o número real será muito mais elevado. Os governos cada vez mais remetem-se ao silêncio.
Outro dos tristes desenvolvimentos dos últimos anos foi o brotar de empresas de apostas dedicadas ao mundo não-desportivo, os chamados prediction markets (o mais famoso dos quais será o Polymarket). O que isto significa é que passou a ser possível apostar em coisas como “Que países vai Trump visitar este ano?”, “Quem vai liderar a Venezuela no dia 1 de junho?”, entre outros. Os rumores de que apostadores destes mercados estavam a tentar subverter as regras do jogo já circulavam há meses. Esta semana, um jornalista israelita contou que foi ameaçado de morte para que mudasse um detalhe numa notícia que escreveu. Já há estados americanos a ir para tribunal.
O cofundador do Paypal, da Palantir e de muitas outras coisas Peter Thiel anda a dar conferências pelo mundo sobre o Anticristo. Na semana passada fê-lo em Roma, o que, obviamente, não passou ao lado dos especialistas em Anticristo que lá vivem e trabalham.
Os italianos são chamados a votar este fim de semana num referendo para reformar o sistema judicial que está a ser encarado como um teste da força do Governo de Giorgia Meloni.
Como sempre, sou todo ouvidos para sugestões e comentários.