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15 de Abril de 2026

juia.doc#02 - crônicas sobre meu futuro assassinato, um cachorro de massinha e joguinhos artesanais

juia fala sobre arte aaaaaa aaaa aaaaa eu não sei o que botar aqui pra ser sincera. isso mostra onde? eu euin

Uma carta de apreciação para um dos meus desenvolvedores independentes favoritos. eu acho

Murder Dog IV (2011)

Eu sou uma fã do thecatamites já tem um tempinho. Desde que eu joguei Murder Dog IV: Trial of the Murder Dog, o qual considero o jogo mais engraçado que eu já joguei. Mas além do humor que sempre me acerta em cheio, a estética dele é algo lindo de se ver: uma mistura de arte digital com desenhos que parecem ter sido feitos em papel, recortados e escaneados com os detalhes do recorte ainda visíveis, esculturas de massinha e fotografias. Tudo isso faz com que o projeto tenha uma textura que eu raramente vejo em outros jogos, mesmos os mais independentes. Uma coisa bem rústica, caseira e que abraça firme suas raízes como obra independente de qualquer restrição comercial e até mesmo financeira, já que talvez comprar uma mesa digitalizadora seja caro dependendo da sua posição financeira (acredito que os desenhos digitais foram feitos em mouse mesmo). É algo que me faz querer fazer uma coisinha nesse estilo, pra falar a verdade. Acho que sugeri em toda gamejam que eu já me envolvi que se estivéssemos com problema em entregar todas as artes até o final do prazo, eu poderia ajudar fazendo desenhos no papel e tirando foto deles para uma implementação mais suja mas que seria melhor do que nada. Infelizmente nunca tive a chance de realizar isso, mas é algo que sempre me vem a mente.

Essa estética não é limitada à Murder Dog IV, no caso. Muitos outros jogos feitos por ele compartilham desses elementos, enquanto outros são bem mais digitais. Talvez o seu trabalho mais conhecido por um bom tempo foi um dos mais clássicos projetos já feitos no RPGMaker.

Space Funeral (2010)

Mesmo com a restrição do mundo digital (pelo menos eu não me recordo de ter coisas analógicas??? me corrijam se for o caso), Space Funeral não é nem um pouco menos caótico. As cores são abrasivas, os designs são estranhos e o humor continua no mesmo ritmo (o que faz sentido considerando que apenas um ano separa o lançamento entre eles). Uma coisa que eu gosto muito é que, assim como Murder Dog IV parodia jogos de adventure, com foco especial na série Ace Attorney, Space Funeral faz bastante piadinha com convenções de RPGs de Super Nintendo e Nintendinho, mas o que mais impressiona é a forma que ele comenta sobre a própria cultura que rodeia um tipo muito específico de fãs de RPGs retrôs, aqueles que apenas engajam com tais obras nos termos da nostalgia, se refugiando de tudo que é novo e amedrontador e preferindo se manter eternamente de volta num tempo de poucas responsabilidades, se recusando a crescer. Aqueles que, ao se encontrar na posição de administrador de um site angariando dados de videogames, tomariam a decisão pouquíssima popular de mudar o título oficial de um jogo famoso de uma série famosa só porque o cartucho que ele tinha quando criança indicava um número diferente do que a realidade dizia. Intenção artística e a simples realidade dos fatos não sendo páreos para políticas de marketing americano dos anos 90. O protagonista é literalmente um garoto chorão de pijamas querendo “restaurar” um mundo esquisito para algo mais confortável para ele. Não tem como ser menos sutil do que isso.

Bom, na verdade tem como ser ainda menos sutil.

Anthology of the Killer (2024)

Não se engane pela forma que eu estou fraseando esse texto, o thecatamites fez MUITO mais jogo que isso. Muitos deles eu gosto bastante. Mas Anthology of the Killer é provavelmente a minha coisa favorita dele. Novamente vemos um foco maior em arte digital, mas a estética de colagem volta à tona, com os personagens representados por desenhos 2D habitando um mundo 3D com a câmera sendo usada para maximizar o contraste entre esses dois. É o mais próximo de uma zine virtual que eu já vi um jogo sendo, e considerando que a antologia é um compilado de capítulos que foram lançados gratuitamente entre 2020 e 2024 (junto de conteúdo extra para justificar um preço), faz muito sentido que ele sinta dessa forma. Não que eu esteja fazendo a observação mais chocante do mundo, a moldura narrativa dos capítulos são zines feitas pela protagonista.

Eu amo muito a BB, aliás. Ela funciona muito bem para esse tipo de história. O mundo que ela habita é tão caótico, perigoso e repleto de literais assassinos em série que o tom das histórias poderia muito bem ser algo parecido com Silent Hill, mas ela contrasta muito bem isso com sua personalidade sardônica e a sagacidade como ela descreve e comenta sobre suas situações. Muito do humor vem das reações que ela tem à completa bagunça que ela se meteu no capítulo. Não que ela seja a única engraçada no caso. Até as ameaças estão tão cobertas no absurdismo que o ar cômico nunca realmente vai embora, mas o aspecto de terror ainda permanece, o que eu aprecio muito. A comparação com Silent Hill é apropriada considerando esse jogo inclui uns posicionamentos de câmera bem parecidos com o primeiro jogo da série.

Quando eu era adolescente eu ia participar de peça de teatro e meu personagem tinha quase essa exata participação nela, exceto que eu não morria. Quem dera fazer algo divertido em cena. O roteiro era uma merda aliás. Meu Deus eu meio que quero muito contar essa história toda um dia.

Aliás, o comentário aqui é meio que insanamente eficaz. Essa é uma das poucas obras que entendem a agonia de viver no capitalismo tardio, o quão frustrante é ver gente rica ditando a forma que arte deve ou não ser feita e o quão “moral” ela é ou deixa de ser, o quão ridículo o mercado de empregos consegue ser, entre um monte de coisas. É uma das coisas mais irritadas com todos esses sistemas que eu já presenciei, de forma que talvez ser perseguida por alguém querendo te matar de vez em quando não deve ser tão ruim em comparação né? Pelo menos você pode dizer que é conhecida por ter acidentalmente virado uma personagem de um filme snuff que fez tanto sucesso que um monte de cópias da sua personagem começaram a inundar o mercado. Ou então que uns anos atrás uma linha de bonecas feitas para serem estranguladas tem uma aparência estranhamente parecida com a sua. Talvez tudo seja coisa da sua cabeça.

É até difícil pra mim definir um capítulo favorito, porque a qualidade não apenas vai melhorando a cada um que passa, mas todos eles possuem pelo menos um momento que ficou na minha cabeça seja pela descrição estranhamente detalhada de se mastigar uma língua humana cozinhada, pela forma que alguns deles vão trocando de perspectiva para dar uma sensação voyeurística ao que está acontecendo, ou só porque alguém falou algo tão engraçado que eu salvei um print para me lembrar quando estiver escrevendo sobre o jogo depois. Tendo dito isso, o capítulo final fez um ótimo trabalho em me deixar um pouco mais tensa do que eu estive antes. A intensidade aumenta, o sangue aumenta, e ainda assim, de alguma forma as piadas conseguem manter o ritmo. Também gosto muito do epílogo do último capítulo. Uma forma muito boa de encerrar a história, e a versão compilada ainda oferece uma ceninha extra, quase que um pós créditos num tom melancólico e sombrio, junto de uma sala dedicada para um making of de todo o projeto, oferecendo uma visão até mesmo de tentativas anteriores de fazer o primeiro jogo acontecer. Honestamente, vale bastante o preço que ele pede e está disponível na Steam, além de um port de Nintendo Switch e PlayStation 5 que saiu esses dias! Eu recomendo muito ele. Se é que tudo isso que eu escrevi não te faz imaginar isso.

Um colega de sala na faculdade faz vídeo tosco com IA e foi morar em outro país com a grana que ele ganhou. Eu me senti forte nessa cena aqui.
Também me senti forte nessa na verdade

Em conclusão uhhhh eu gostei muito desse jogo jogue coisas esquisitas independentes e deem dinheiro para quem faz esse tipo de coisa!!! Eu sei que os tempos estão difíceis financeiramente e as vezes piratear é a nossa única forma de presenciar arte, mas eu diria duas coisas:

1 - não é muito caro

2 - você já ia gastar muito mais num jogo feito por estúdio grande que precisa bem menos do dinheiro relativamente pequeno que você pode usar no joguinho esquisito

Tendo dito isso, se não tiver como, fale sobre as coisinhas estranhas que você interagir, mesmo piratas! Convença alguém que tem dinheiro a comprar ela! O poder da palavra ajuda bastante produções independentes. Não vou mentir que eu tô meio que faminta e quero terminar esse texto logo ok;

Até o próximo incidente…

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