juia.doc#01 - Criando tesão na sua rival na guerra do tempo, pilotando um caça aéreo e sendo católica
juia fala de cartas e ser gay
Eu não escrevo nada tem meses. E a coisa que eu faço quando me encontro assim é escrever sobre as artes que eu ando interagindo de forma bem direta. A coisa é que minha energia anda faltando até nisso. Eu teria uma thread de mídias no BlueSky se eu fosse dedicada o bastante (respeito muito quem tem, tbh).
Por sorte, terminei um livro pela primeira vez em sabe-se lá quanto tempo e me senti empolgada com ele o bastante para falar a respeito. E sobre outras coisinhas eu acho? Eu ainda não escrevi esse texto, devia aprender a não ficar prometendo coisas. Enfim

“É Assim que se Perde a Guerra do Tempo” é um livro que ganhei de aniversário da minha namorada em 2024. Venho tentando ressuscitar meu hábito de leitura desde o ano passado, e nessa nova tentativa fui lendo pouquinho a pouquinho de manhã até chegar nas últimas 80 páginas e ficar tão investida na trama que devorei tudo em dois dias. Sem revelar muito, é uma história sobre duas sáficas em lados opostos de uma guerra temporal e as cartas que elas trocam entre si.
Eu amo a forma que esse livro é escrito, não só pela forma que ele apresenta as cartas (que por si só já me faz amar bastante) mas pelo quão detalhada é a construção desse mundo. A “guerra do tempo” como conceito é algo um tanto abstrato mas o texto consegue deixar bem claro como ela funciona logo de primeira, e a cada página vai dando cada vez mais textura para todos os atos das personagens.
Acho que muitas vezes o que me impede de me sentir investida em ficções científicas mais pesadas é a falta de um embasamento mais humanista por trás da conceitualização surreal presente. Resumindo melhor, é a falta de poesia que me incomoda. E esse livro é bastante poético, dentro e fora das cartas trocadas pelas protagonistas. As duas perambulam e saltam por várias linhas do tempo executando missões ou sabotando uma a outra, e o texto toma o tempo necessário para que o leitor entenda a sensação corpórea e emocional dos atos, ao mesmo tempo que deixa o bastante ambíguo para te deixar mais investida.
E as cartas em si. Meu Deus. Não é muito surpreendente que isso se trata de uma história de amor, ainda mais considerando que até mesmo nas primeiras provocações trocadas, o nível de tensão sexual entre as duas é INSANO. Eu sou obcecada em como a primeira carta trocada se encerra:
“Falando nisso, o sistema hidráulico na sua manobra esférica flanqueada era realmente magnífico. Espero que você tire algum conforto de saber que ele será completamente digerido pelas nossas trituradoras, então nossa próxima vitória contra o seu lado terá um pedacinho seu. Mais sorte na próxima vez. Com afeto, Blue”
Eu gritei internamente quando li isso pela primeira vez. Se eu tivesse uma rival que me deixasse uma carta depois de um fracasso meu não apenas afirmando que foi ela que fez com que eu falhasse mas ainda me provocando dessa forma, eu iria criar uma obsessão tão doentia por ela ao ponto de fazer com que o Capitão Ahab parecesse apenas querer comprar um Big Mac numa tarde onde ele não estava lá com muita fome. Desculpa. Agora eu leio livros então minhas referências vão ser de Moby Dick e não de sei lá. Ace Combat 04: Shattered Skies. Isso foi uma piada. Esse livro é o 1000xRESIST da literatura, e isso não é nem brincadeira (joguem 1000xRESIST). Esse livro é um Touhou honorário, e isso é parcialmente verdade por mais de um motivo.
Eu aceito recomendações de livros que me deixem sentindo completamente gay por uma rival. Na verdade eu aceito recomendações de literalmente QUALQUER coisa que envolva isso. O que? Homestuck é assim? Ok?? E daí??
Enfim agora é hora de VIDEOGAMES YEAA Ace Combat 04: Shattered Skies PORRAAAAA

Esse ano eu decidi que ia tentar pelo menos um pouco de todos os Ace Combats. Gostei do 1, gostei mais do 2 e aprecio o 3 pela ambição narrativa, mas a coisa é que eu não me senti particularmente investida com nenhum deles para chegar ao final. A série acompanha múltiplos pilotos fictícios participando de diversas guerras fictícias entre países fictícios, e pelo menos nos dois primeiros jogos, a história é mínima o bastante para que eu sentisse a necessidade de pesquisar sobre para ver se não estava deixando nada escapar. O terceiro jogo tem uma apresentação bem estilosa e cutscenes animadas por um estúdio de anime, mas ainda assim, a forma que a narrativa é contada me parecia fria demais.
Entendo que essa é uma forma perfeitamente válida de se contar uma história, mas como eu disse no tópico acima, eu acabo sentindo falta da poesia.
Chega “Ace Combat 04: Shattered Skies”, e a história é contada majoritariamente em trechos narrados de uma carta escrita do ponto de vista de alguém que perdeu os pais devido a um acidente causado pelo exato mesmo conflito que você está lutando. A carta conta sobre como foi crescer em um ambiente de guerra e referencia diretamente batalhas chave nas quais você ACABOU de vencer, o que oferece mais profundidade emocional para certos personagens chave do que as fases em si proporcionariam. Cartas. Poesia.
Mesmo que não tenha me arrancado as mesmas emoções que “É Assim que se Perde a Guerra do Tempo”, essa moldura narrativa era tudo que eu precisava para que eu terminasse um desses Ace Combats, e agora estou empolgada para tentar os outros! Aparentemente os próximos títulos também contam suas histórias de forma mais pessoal, ao ponto de que o Zero usa um documentário falso como cutscenes!
E o combate é bem delicioso! Eu amo a sensação de fugir de mísseis inimigos enquanto tento derrubar meus rivais a todo custo. As vezes eu me sinto como se eu fosse uma personagem de WARHOUND. Acho que descobri qual vai ser meu próximo livro na verdade. haha. Eu uhhh
Ei!! Já que falamos de carta:

“Wake Up Dead Man” deveria se chamar “Wake Up, Dead Man!”. Essa é a minha única crítica para falar a verdade. Eu amo os mistérios do Benoit Blanc desde que Knives Out foi lançado em um mundo pré-pandemia, quando eu baixei um screener vazado em baixa qualidade pois eu queria MUITO ver ele o mais cedo possível. Parte de mim sente uma certa pena de que eles foram imediatamente engolidos para a máquina da Netflix pelo fato de que ela raramente bota filmes no cinema por muito tempo (nem sei se fazem isso no Brasil pra falar a verdade), mas se isso fez com que esses títulos recebessem verba para serem feitos, que assim seja. Até aceito chamarem eles de “Um mistério Knives Out” mesmo que não faça muito sentido.
Eu aprecio muito uma história que utiliza a estética do catolicismo ao mesmo tempo que demonstra uma visão crítica e sóbria de religião organizada e de como ela pode ser (e constantemente é) usada como uma ferramenta de poder e subjugação. O jogo “Pentiment” me vem a mente como um ótimo exemplo disso. Sendo um tanto indulgente, meu filme tenta fazer isso dentro de 18 minutos. Então eu já estava interessada desde que ouvi que iriam usar conceito. E eles realmente arrasaram.
Foi uma daquelas experiências que quando você atinge os créditos parece que a sua cabeça precisa de uns minutinhos para se realinhar com o mundo ao redor. O mistério é fabuloso e está mais do que contente em mostrar na sua cara pistas que conseguem se disfarçar o bastante para que quando você descubra o contexto por trás delas, você começa a querer gritar pelo quão ingênua a você de uma hora atrás era. É um filme que sabe muito se divertir.
Eu aprecio muito também como esse são um dos poucos filmes que não tem medo de fazer comentários explicitamente políticos que irão incomodar as alas conservadoras do mundinho influencer. Nesse aqui é bem mais direto, com a presença de um YouTuber que tentou os truques mais conhecidos para iniciar uma carreira política (“Eu tentei falar da coisa trans, da coisa dos pronomes, da coisa do aborto, etc.”) mas acabou fracassando por falta de carisma. Em tempos de supressão ativa de arte que provoca quem está no poder, ver um filme de orçamento alto simplesmente falando algo que eu já estou cansada de saber como “conservadores estão usando preconceito para distrair as massas e ganhar poder” é algo que eu aceito muito. Longe de mim estar esperando que grandes corporações salvem a gente, mas sabe. A grande mídia realmente ignorou o fato de que descobriram que o movimento anti-trans atual foi abastecido por um bilionário pedófilo querendo se safar, sabe. Se uma migalha da verdade for dita no maior megafone possível não consigo evitar em ver isso como uma pequena vitória.
E para concluir com o tema acidental dessa newsletter: o filme começa com uma carta, e acompanhamos a narração da carta por uma boa parte do primeiro ato. Eu gosto disso! Eu gosto de observar o mundo através de um narrador que está presente, não sabe de tudo e pode ter deixado uma coisinha ou outra fora do seu relato. Eu não tenho muito a dizer sobre isso na verdade, eu só notei que tinha esse fator que conectava essas três coisas.
Enfim. Todas essas são recomendações genuínas. Isso começou como só um texto sobre “É Assim que se Perde a Guerra do Tempo” mas meio que se estendeu.
tchau