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Marcus Nunes

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03/07/2023

[Grande Abóbora 17] Não.

Em novembro do ano passado mudamos de apartamento. Uma tarefa mais difícil do que dois adultos mudarem de apartamento sozinhos é dois adultos mudarem de apartamento acompanhados de um bebê de cinco meses. Não foi uma tarefa trivial, mas nada que dois dias de trabalho e uma equipe contratada de quatro pessoas não conseguissem dar conta de finalizar.

Decidimos tomar café da manhã fora de casa no primeiro dia da mudança, quando tudo seria empacotado e colocado no caminhão. Assim, não teríamos que perder tempo lavando e secando louça, facilitando a vida de todo mundo. Além disso, nossa geladeira teria que ficar desligada por pelo menos 12 horas antes de ser transportada, então não havia a opção de termos alimentos refrigerados para consumir no café da manhã.

Ocorre que frequentar padarias com bebês menores de um ano é uma tarefa com características próprias. Como o bebê não pode ficar sozinho na mesa, cada um dos pais se serve no buffet e come sozinho, enquanto o outro precisa dar atenção à criança. Além disso, dado que ela ainda não pode comer o que é servido na rua, é preciso levar um alimento próprio para ela.

Então estávamos nós três na padaria, minha mulher comendo e eu com Benjamin no colo, entretendo-o. Do nada, uma pessoa sentada na mesa atrás da gente e que nós nunca tínhamos visto na vida, se aproximou da nossa mesa. Sem se apresentar, iniciou um diálogo conosco. Para simplificar, a partir de agora irei chamá-la de A Intrometida.

A Intrometida: Bom dia! Esse é o primeiro filho de vocês?

Eu: É sim.

A Intrometida: Posso dar uma dica?

Eu: Não.

[Silêncio.]

[Mais silêncio.]

A Intrometida: Ah, obrigada.

Mas note que não foi um "não" agressivo. Foi um "não" seco. Um "não" de um pai que, às 6:30 da manhã, estava no segundo dia de mudança de apartamento com um bebê de cinco meses de idade, tomando café da manhã na rua. Foi esse tipo de "não".

A Intrometida voltou para a sua mesa, mas algo se quebrou dentro dela. Digo isso porque, logo ao sentar, ela colocou seus óculos escuros. Não bastasse isso, no intervalo de tempo entre eu levantar para me servir e voltar à mesa, ela pegou o celular e colocou Pitty-Eu-vou-equalizar-você.mp3 para tocar no alto-falante do celular.

Mas aí bastou que mudássemos de mesa para conseguirmos finalizar nossa refeição em paz.

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